O Esquisitão, de Wanda Gág: livro de 1929 traz múltiplas camadas e reflexões atuais
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O Esquisitão, de Wanda Gág: livro de 1929 traz múltiplas camadas e reflexões atuais

Bia Reis

28 de setembro de 2021 | 10h00

Capa de ‘O Esquisitão’, de Wanda Gág, publicado pelas Edições Barbatana. Crédito: Bia Reis

É pela vaidade, o ponto fraco da fera, que o homenzinho que vivia nas montanhas consegue dobrá-la. Mas comecemos do início.

Em O Esquisitão, a escritora e ilustradora norte-americana Wanda Gág (1893-1946) apresenta Bobo, um homem bondoso que vive nas montanhas e que prepara comida para os animais. Para os esquilos, faz bolo de nozes; para os passarinhos, pudim de sementes; para os coelhos, salada de repolho; e para os camundongos, corta pequenos pedaços de queijo.

Um dia, surge um bicho diferente: parece um cachorro misturado com uma girafa, com uma sequência de escamas azuis que vão do topo da cabeça até a ponta do rabo. Disposto a também alimentá-lo, Bobo pergunta que animal ele é. E ouve: “Eu sou um aminal!”

De forma grosseira, o aminal exige comida e, pacientemente, o homenzinho repassa o cardápio dos esquilos, passarinhos, coelhos e camundongos, mas nada interessa. Ele rejeita, critica a comida e diz que gosta mesmo é de comer bonecas. Bonecas?

Surpreso, Bobo tece um diálogo em que tenta explicar que as crianças devem ficar tristes quando ele toma as bonecas, mas o Esquisitão nem se importa. Ele gosta das bonecas e ponto. E mais: diz que prefere as bonecas das crianças boazinhas. O homenzinho fica arrasado.

Bobo traça, então, um plano para fazer com que o aminal não coma mais as bonecas. E se apoia na vaidade para persuadi-lo.

O Esquisitão tem vários aspectos interessantes.

Trata-se do segundo livro de Wanda publicado no Brasil – o primeiro foi Milhões de Gatos, escrevi sobre ele aqui. Os dois chegaram pelas mãos das Edições Barbatana, uma editora pequena que tem seis anos e um catálogo super interessante. Por aqui, já falei de Era Uma Vez Outra Vez, de Edith Chacon e Priscilla Ballarin, e Manaus, de Irena Freitas.

Mas voltemos a Wanda. Nascida no fim do século 19, ela foi aclamada nos Estados Unidos após a publicação de seu primeiro livro, o Milhões de Gatos, em 1928, com a menção Newbery Honor Book. Em 1929, publicou O Esquisitão, ou The Funny Thing, no título original. O livro tem quase cem anos e possibilita reflexões atuais.

As ilustrações são bem diferentes das que estamos acostumadas e acostumados hoje, colocando o leitor em contato com uma estética diferente. Com exceção da capa, só há cor no azul das páginas. O resto é o preto dos desenhos.

Wanda coloca pitadas sutis de humor. É engraçado ver um bicho se denominando de “aminal” e, mais para frente, dizendo que adora comer “gel-ecas”. Ao fim, a fera já não é tão fera assim.

Em tempos de embates ferozes, O Esquisitão nos mostra outros caminhos que não o do enfrentamento direto, agressivo, mesmo que o interlocutor assim o queira. É com inteligência e um tanto de bondade que o homenzinho consegue preservar o que considera importante para infância. E que assim seja.

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O livro O Esquisitão foi lançado com exclusividade para assinantes do Clube Quindim, em setembro, e será lançado oficialmente em novembro, com preço a definir.

Serviço
O Esquisitão
Autora: Wanda Gág
Tradutora: Nathalia Matsumoto
Editora: Edições Barbatana

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