Imersão literária, ‘Um Dia, Um Rio’, Brecht com Nelson Cruz e catálogo de ilustradores
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Imersão literária, ‘Um Dia, Um Rio’, Brecht com Nelson Cruz e catálogo de ilustradores

Na coluna desta semana você conhecerá o app Nextale, pensado para leitores a partir dos 11 anos, recordará o incrível livro que aborda a tragédia em Mariana (e que está mais atual do que nunca), desvendará 'Se os Homens Fossem Tubarões' e muito mais

Bia Reis

13 de fevereiro de 2019 | 09h00

Novidade: Nova plataforma propõe imersão literária

Crédito: Nextale/Divulgação

Em vez do livro de papel, o celular. Aqui, o leitor não vira as páginas – para ler, é preciso deslizar o indicador pela tela, de baixo para cima, da mesma forma como lemos notícias nos portais. E a recomendação de “tirar o fone” não vale. Muito pelo contrário, o leitor logo de cara é orientado a colocá-lo. Conforme o texto segue, entram sons que ambientam a história e pequenas animações. Esta é a proposta de imersão na obra que a startup carioca Nextale propõe aos pré-adolescentes a partir de 11 anos.

“No século 20, o livro de papel era suficiente para promover a imersão do leitor. Hoje, a realidade é outra, porque os estímulos também são outros”, afirma Priscila Vaz, sócia Nextale, que acaba de lançar uma nova versão para três histórias do escritor francês Charles Perrault (1628-1703): Chapeuzinho Vermelho, O Barba Azul e As Fadas.

Crédito: Nextale/Divulgação

A proposta, explica Priscila, é criar livros digitais que levem o leitor a uma experiência de imersão. “Normalmente, quando pensamos em livros digitais, pensamos em interatividade, e muitas vezes o livro acaba virando um jogo. Aqui a ideia é outra: o foco está na leitura.”

A startup nasceu no fim de 2017, quando Rafael Santos, jornalista, programador e sócio da Nextale, estava terminando a faculdade. Com o sonho na cabeça, Rafael e Priscila participaram de um programa de aceleração de startups do governo do Rio. Depois, a proposta recebeu patrocínio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj). Após pesquisa com o público-alvo realizada na Bienal do Rio, a Nextale lança agora os três primeiros títulos, que podem ser conferidos a partir desta quarta-feira, 13, na Campus Party, aqui em São Paulo.

Por enquanto, o app está disponível apenas para o sistema operacional Androide. A previsão é de que em abril chegue para iOS.

Serviço
Chapeuzinho Vermelho, O Barba Azul e As Fadas
Escritor: Charles Perrault
Ilustrador: Raphael Lopes
Editora: Nextale
Preço: R$ 4,99 os dois primeiros títulos; As Fadas está disponível gratuitamente

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Sugestão 1: ‘Um Dia, Um Rio’, a tragédia que se repete

Crédito: Bia Reis

Mariana, 2015. Brumadinho, 2019.

O rompimento de uma barragem de mineradora no Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), em 25 de janeiro, me fez resgatar Um Dia, Um Rio, livro de Leo Cunha e André Neves que foi lançado pela Editora Pulo do Gato em outubro de 2016, um mês antes da tragédia em Mariana completar um ano.

A sensação de relê-lo foi a mesma: um soco no estômago. Sim, a arte dói.

Um Dia, Um Rio nasceu da vontade da editora Márcia Leite, da Pulo, de falar sobre o desastre em Mariana. Márcia pensou em Leo, escritor mineiro, sem saber da relação que ele tinha com os rios. Intuição certeira. E convidou André, ilustrador pernambucano também apaixonado pelos longos percursos de água que têm vida própria.

O resultado foi um grito de socorro e de alerta, em forma de palavras e imagens. Quem narra a história é o próprio Rio Doce, mas poderia ser o Rio Paraopeba, que corta Brumadinho. A violência e o sofrimento são os mesmos.

Primeiro, o rio narra sua história da época em que havia vida em seu leito:

“Minha dança colore os mapas, meu canto refresca as matas.
Minhas veias irrigam florestas, alimentam o cerrado, aliviam o sertão.
Corri por entre tribos, povoados, gentes.
Enchi de casos os pescadores, de lembrança os viajantes, de encantos os menestréis.
Um dia eu fui rio, bacia, vale.
Eu era melodia…”

Crédito: Bia Reis

O rompimento da barragem da mineradora Samarco e a tragédia que se seguiu são contados por meio de imagens. Pura poesia. As palavras voltam numa conexão profunda com as ilustrações:

“Hoje sou silêncio.
Meu leito virou lama, meu peito, chumbo e cromo. Minhas margens, tristeza.
Eu era doce, hoje sou amargo.
Minha aldeia mora submersa dentro de mim.
Com lágrimas de minério, vou sangrando até o mar.
Eu fui rio, um dia.”

Crédito: Bia Reis

André nos leva então para o fundo do rio, onde peixes (meio peixe, meio gente) nadam na água escura (meio lama, meio sangue). É a vida que tenta seguir adiante, apesar dos pesares, apesar da morte que a cerca.

Era Mariana. E também é Brumadinho.

Serviço
Um Dia, Um Rio
Autores: Leo Cunha e André Neves
Editora: Pulo do Gato
Indicação etária: Para todo mundo
Preço médio: R$ 36

# Mais sobre André Neves

Crédito: Bia Reis

O escritor e ilustrador André Neves é um dos grandes nomes da literatura brasileira infantil contemporânea. Ilustra texto de outros autores, como fez em Um Dia, Um Rio, e também escreve e ilustra seus próprios livros ilustrados. André já esteve muitas vezes nesta Estante de Letrinhas e confesso que tive dificuldade de escolher  dois livros, entre tantos, para sugerir para vocês. Mas vamos lá!

Tom, lançado em 2012, e Mel na Boca, em 2014, são muito diferentes, mas têm suas semelhanças: o traço marcante e uma mistura de sensibilidade e profundidade. Em Tom, André narra a história de um menino que vive mergulhado em seu próprio silêncio. Seu irmão questiona o motivo dele não brincar, não expressar seus sentimentos. Um dia, Tom convida o irmão a entrar em seu mundo e os dois descobrem como se comunicar. Melancólica, a obra dá margens a inúmeras interpretações e abre muitas portas para conversas.

Mel na Boca fala da relação de um avô com seu neto e os valores que compartilham enquanto estão juntos, como você pode ver aqui com mais detalhes. Aqui, o garoto Tino passa as férias com o avô, que mora em uma cidade pequena, e vive dias de liberdade. Fica descalço, sobe nas costas do avô, aprende com ele músicas e as cantarola. Ouve o pintassilgo cantar e descobre os sons de instrumentos e de outros objetos: das panelas, da bike. Por meio da fuga do passarinho e do real motivo, André fala lindamente sobre amadurecimento.

Serviço
Tom
Escritor e ilustrador: André Neves
Editora: Projeto Editora
Indicação etária: Para todo mundo
Preço: R$ 39

Mel na Boca
Escritor e ilustrador: André Neves
Editora: Cortez
Indicação etária: Para todo mundo
Preço: R$ 46

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Sugestão 2: Texto de Brecht com ilustrações de Nelson Cruz

Crédito: Bia Reis

O dramaturgo alemão Bertolt Brecht nasceu no fim do século 19 e se transformou até meados do século 20 em um dos principais pensadores de sua época. Mesmo com o transcorrer das décadas, seus textos continuam atuais,pois falam de questões inerentes ao ser humano. Se os Tubarões Fossem Homens, lançado no fim de 2018 pela editora Olho de Vidro, de Curitiba, é assim.

O livro, que traz ilustrações de Nelson Cruz, começa uma pergunta que a filha pequena da dona da hospedaria faz ao senhor K: “Se os tubarões fossem homens, será que eles seriam mais gentis com os peixinhos?”. “Claro que sim”, diz o senhor K. E partir dai, em um texto recheado de ironias, Brecht nos faz pensar sobre a organização social do mundo, as relações de poder que se estabelecem entre os mais fortes e os mais fracos e sobre ética.

“Naturalmente também haveria escolas dentro das grandes gaiolas. Nessas escolas,
os peixinhos aprenderiam como nadar para dentro da boca dos tubarões.
Deveriam ter noções de geografia para poder localizar melhor os tubarões grandes
que ficam nadando por aí, preguiçoso.”

Crédito: Bia Reis

O texto foi escrito originalmente para adultos, mas, claro, leitores de todas as idades podem desfrutá-lo, em medidas diferentes. As crianças menores podem não compreender a ironia contida nas ideias, mas isso não significa que devem ficar distantes. Há várias camadas e, aos poucos, elas também irão acessá-las.

As ilustrações de Nelson Cruz são incríveis. O ilustrador trabalha com a página dupla e traz um olhar sombrio para o texto. Não poderia ser diferente.

Serviço
Se os Tubarões Fossem Homens
Escritor: Bertolt Brecht
Ilustrador: Nelson Cruz
Tradutora: Christine Röhrig
Editora: Olho de Vidro
Preço: R$ 49,90 (capa dura)

# Nelson Cruz e o cárcere de Graciliano Ramos

Crédito: Reprodução/Um Escritor na Capela

Adoro o traço e a obra de Nelson Cruz. Em 2016, escrevi para o Caderno 2 sobre o livro ilustrado Um Escritor na Capela, da SM, em que Nelson se debruçou sobre o relato de Graciliano Ramos em Memórias do Cárcere. Nesta obra, Nelson recria a fase final de confinamento de Graciliano na Casa de Correção, no Rio de Janeiro, onde o escritor alagoano ficou preso na Sala da Capela com a comunista Olga Benário, mulher de Luís Carlos Prestes, a psiquiatra Nise da Silveira e o humorista Aporelly, o Barão de Itararé.

Se você quiser conhecer o livro, clique aqui.

Ilustração: Associação publica anuário

A Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil (Aeilij) colocou no ar o Anuário de 2019, publicação em que lista os livros lançados no ano passado pelos autores associados à entidade. Com capa ilustrada por Maria Carolina Pereira Jorge, o anuário apresenta uma linha do tempo das principais atividades da associação no período e traz uma entrevista com o escritor João Paulo Hergesel, que ganhou a última edição do Prêmio Barco a Vapor, da SM. Os interessados também podem conferir resenhas das obras vencedoras do 1.º Prêmio Aeilij: Catarina e o Lagarto, de Katia Gilaberte (All Print); Esopo: Liberdade Para as Fábulas, de Luiz Antonio Aguiar (Escarlate); e A Alma Secreta dos Passarinhos, de Elisabeth Teixeira (Olho de Vidro).

O Anuário de 2019 está no Issuu – e os dos anos anteriores também.

# Catálogo Ibero-América Ilustra 2019

Crédito: Fundação SM

O Catálogo Ibero-América Ilustra está com inscrições abertas para o envio de ilustrações inéditas até 26 de abril. A iniciativa, da Fundação SM em parceria com a Feira Internacional do Livro de Guadalajara, tem o objetivo de construir uma rede de difusão do trabalho de ilustradores ibero-americanos de livros para crianças e jovens.

Para participar é preciso enviar uma série de ilustrações (sem texto) – no mínimo três e no máximo cinco – que tenha uma “sequência narrativa consistente”, segundo a organização. Podem se inscrever ilustradores com mais de 21 anos nascidos no território ibero-americano. As inscrições podem ser feitas individualmente ou em grupo.

Profissionais da ilustração e do mercado editorial avaliarão os trabalhos. O resultado será anunciado até 31 de julho. O vencedor receberá US$ 5 mil e ilustrará a capa do 10.º Catálogo Ibero-Americano Ilustra. Todos os selecionados participarão da exposição realizada na FIJ de Guadalajara, entre 30 de novembro e 8 de dezembro. A cerimônia de premiação será em 3 de dezembro.

Se quiser mais informações, clique aqui. E se quiser conhecer os catálogos anteriores, aqui.

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