Livro inspirado em biblioteca que foi despejada de cemitério é declaração de amor ao espaço, a escritores, leitores e à literatura
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Livro inspirado em biblioteca que foi despejada de cemitério é declaração de amor ao espaço, a escritores, leitores e à literatura

Uma bibliotecária voluntária e mediadora de leitura é quem conduz a ficção criada pelo escritor Alonso Alvarez, que, pelo momento, se transformou em uma homenagem à história da Biblioteca Caminhos da Leitura, em Parelheiros

Bia Reis

28 de outubro de 2021 | 08h00

Biblioteca Caminhos da Leitura, no Cemitério de Colônia, em Parelheiros, foi desativada para dar lugar a novas covas. Crédito: Gabriela Biló/Estadão (2017)

 

 

 

“Os cientistas dizem que somos feitos de átomos, mas um passarinho me contou que somos feitos de histórias.”
Eduardo Galeano

A Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura, em Parelheiros, zona sul de São Paulo, estampou páginas de jornais e sites de notícias na semana passada, depois de ter sido despejada do Cemitério da Colônia, onde funcionava na casa do sepultador desde 2009. Com o lançamento do livro Meia-Noite na Biblioteca: Temporada 1, que se passa na Caminhos da Leitura, o espaço ganha uma emocionante homenagem em forma de ficção. Escrito por Alonso Alvarez e publicado pela Ficções Editora, o livro é também uma declaração de amor a escritores, leitores, livros e à literatura. Aos vivos e aos mortos.

Na história de Alonso, Aline é bibliotecária voluntária e mediadora na Caminhos da Leitura e recebe com afeto, delicadeza e bolo de laranja os leitores e também aqueles que ainda não foram fisgados pelos livros. Logo no início, o espaço é descoberto por quatro amigos – Luís, Mário, Osmar e Paulo –, colegas de escola, amigos de rua, todos com 11 anos e moradores de Parelheiros. Além de tanto em comum, também dividem o encantamento pela professora de português e pelos livros.

‘Meia-Noite na Biblioteca: Temporada 1’, de Alonso Alvarez, com capa de Rafa Antón

Alonso retrata Parelheiros e as dificuldades de quem vive no extremo sul de São Paulo com poucos recursos. Entre os mortos há criança atingida por bala perdida que deixou a escola em choque, uma menina vítima de leucemia, uma mãe que morreu após dar à luz.

Os personagens, vivos ou mortos, entram na história como se não houvesse diferença entre eles. Aline, que estuda para entrar na faculdade e à noite ainda trabalha como entregadora de pizzas, é o fio condutor da jornada que aborda escritores e obras, de forma natural, gostosa como uma conversa entre pessoas que amam os livros.

Lá estão Fernando Pessoa, Manoel de Barros e João Carlos Marinho, entre tantos outros, e A Bolsa Amarela (de Lygia Bojunga), O Gênio do Crime (de Marinho), O Apanhador no Campo de Centeio (de J.D. Salinger), O Cortiço (de Aluísio Azevedo) e Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada (de Carolina Maria de Jesus), entre outros tantos. Muitos outros.

Alonso relata o medo que as pessoas têm de entrar em uma biblioteca que fica dentro do cemitério, recheia sua história com perseguição policial e roubo de girassóis, mas também dá ao texto pitadas de humor, como, por exemplo, quando descreve o esquema criado por Aline para organizar os livros nas estantes. Em vez de separá-los por ordem alfabética, como estamos acostumados, ela os divide em Livros Cansados, Livros Afoitos, Livros Gulosos, Livros Leves etc.

“Para ela (Aline), biblioteca não era museu, com livros intocáveis e imexíveis. Eles tinham que circular pelo espaço e encontrar com seus leitores”, conta o escritor.

O livro traz prefácio da educadora social Bel Santos Mayer, coordenadora do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (Ibeac), que idealizou a Caminhos da Leitura, e cogestora da rede de bibliotecas comunitárias LiteraSampa. Foi com Bel que Alonso trocou ideias e tirou dúvidas durante a escrita.

E é ela que segue inspirando quem está à sua volta com o amor pelas bibliotecas. “Com Aline e toda gente que ela recebe, percebemos que a biblioteca não é apenas para quem gosta de ler: a biblioteca é lugar para quem gosta de gente e de conversar sobre a vida e sobre leituras. Escutada, cada pessoa que chega vai se sentindo em casa”, escreve Bel.

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Aproveito para duas indicações:

A matéria Cemitério vira espaço de leitura na zona sul de São Paulo, da repórter Priscila Mengue, publicada pelo Estadão em 2017

Uma entrevista que fiz em vídeo com Sidnéia Chagas, então gestora da Caminhos da Leitura, em 2016, para o projeto Quando a Literatura Transforma

Serviço
Meia-Noite na Biblioteca: Temporada 1
Escritor: Alonso Alvarez
Capa: Rafa Antón
Ficções Editora; 116 páginas

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