Histórias contam o medo e a esperança de crianças refugiadas
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Histórias contam o medo e a esperança de crianças refugiadas

‘Nina Tem Medo de Palhaço’ e ‘Dois Meninos de Kakuma’ tratam da questão dos refugiados sob o olhar das crianças. Veja também como participar do 3.º Prêmio Ibero-Americano de Educação em Direitos Humanos

Bia Reis

31 de maio de 2019 | 12h00

Livros: A vida das crianças em campos de refugiados

Crédito das fotos: Bia Reis

A guerra que tira as pessoas de suas casas também separa famílias e destrói sonhos. Faz as crianças conviverem com o medo e terem de refazer seus planos.

Em Nina Tem Medo de Palhaço, do escritor Walter de Sousa e da ilustradora Mariana Fujisawa, a protagonista perdeu a casa e vive com a mãe em um campo de refugiados. O lugar não é identificado. Poderia ser em Dadaab ou Kakuma, no Quênia, em Dollo Ado, na Etiópia, em Za’atri, na Jordânia. Ou em qualquer outro canto do mundo que se abriu para receber adultos e crianças que fugiram da violência, das bombas.

Dentro da barraca de lona, Nina se questiona se está morando num circo. A menina chegara ao campo de refugiados com a mãe e descobrira que haviam perdido tudo: a casa, as coisas que guardaram por anos.

Nina ouve uma gritaria de crianças brincado do lado de fora. Abre um tiquinho da barraca para ver e encontra suas amigas e… uma palhaça! Nina sempre morreu de medo de palhaços.

Em um lugar completamente diferente, longe do que era sua vida, a menina tem de lidar com seu maior medo. Ao conhecer a palhaça Jurubeba, Nina sente medo, mas também é desafiada a enfrentá-lo. E descobre que podemos nos sentir em casa em muitos lugares.

Walter de Sousa escreveu Nina Tem Medo de Palhaço em homenagem a Gabi Sigaud Winter, a palhaça Jurubeba, criadora e diretora da Clownbaret, companhia de palhaços com atuação no Brasil e no exterior em locais de alta vulnerabilidade. O lançamento é da Editora Kapulana, que recentemente teve o livro O Pátio dos Sombras, de Mia Couto e Malangatana, premiado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, a FNLIJ (clique aqui para conhecer a lista dos selecionados).

A dor da perda, o medo e a reconstrução dos sonhos também estão no belíssimo Dois Meninos de Kakuma, livro de Marie Ange Bordas lançado no ano passado pela Editora Pulo do Gato. A história nasceu das pesquisas e da convivência de Marie com os participantes da Oficina de Histórias Visuais que ela realizou no campo de refugiados de Kakuma, no Quênia, entre 2003 e 2004.

A história é uma ficção criada com base nos relatos que Marie ouviu no período da oficina. As fotografias também foram feitas por ela e por colegas que estiveram recentemente no Sudão do Sul e no Quênia. Sobre as fotos há ilustrações, muitas delas produzidas pelas crianças que participaram das oficinas. Uma mistura de realidade e imaginação.

O livro pode ser dividido em três partes: as duas primeiras trazem relatos de crianças refugiadas e a terceira, uma parte mais histórica do campo.

Na primeira, o narrador é Geedi, um menino nascido na Somália que perdeu o pai na guerra. Sua mãe ainda estava grávida quando fugiu com a filha mais velha. “Para matar a fome, comiam as folhas das árvores, assim como fazem as cabras. Para matar a sede, arrancavam e sugavam raízes. Eu não gosto de pensar em minha mãe se alimentando de folhas e raízes, como uma cabra”, conta.

Geedi fala de sua rotina, conta como consegue um pouco de dinheiro e fala sobre seu amor pelo futebol e pela fotografia. Relata sobre a chegada e partida dos jornalistas, sobre suas brincadeiras preferidas, os amigos e o senso de coletividade e companheirismo que há entre eles. E também sobre a insegurança quanto ao próprio futuro. “Temos passados diferentes, mas vivemos o mesmo presente. Imaginar qual será nosso futuro provoca muita insegurança. Temos tantas perguntas sobre o que poderá nos acontecer, mas parece que ninguém é capaz de responder. Não quero viver em Kakuma para sempre. Quero crescer e ser dono da minha vida, ter liberdade para escrever minha história em outros lugares.”

Na segunda parte do livro, o narrador é Deng, um garoto nascido no Sudão, antes da divisão causada pela guerra, que é amigo de Geedi. Mas, diferentemente de Geedi, Deng se lembra da vida antes de chegar ao campo de refugiados. Morava em uma vila e sua família era a mais rica do local: tinha muitas cabeças de gado.

Por causa da guerra, caminhou por semanas, sozinho e com outras crianças que encontrou pelas estradas. Passou fome, sede e medo. “Medo dos leões e das hienas, medo de soldados e bombardeios. Medo de nunca mais ver meus pais.” E foi o que aconteceu. Chegou a campo de refugiados sem adultos e lá foi acolhido.

Em meio ao abandono, descobriu a corrida e se apaixonou por ela, por sentir que ao correr está no controle da própria vida. “Quando eu corro, ninguém manda na minha vida. Eu estou no controle: as passadas, a respiração – acelerar ou diminuir, parar.” Lindo, não?

Deng fala sobre a vontade de estudar, sobre trabalho e sobre como ajuda os novos refugiados que não param de chegar ao campo.

A terceira parte é sobre Kakuma. Há fotos e informações históricas.

O texto, as fotografias e as ilustrações estabelecem uma conexão direta com o leitor, seja ele de qualquer idade. As histórias se passam numa África distante, mas também estão ao nosso redor, basta olhar para o lado. Refugiados nos campos e também nos grandes centros urbanos. Tentando sobreviver e também encontrar novos caminhos. Não há como não se emocionar.

  • Nesta Estante de Letrinhas já escrevi sobre livros que falam de imigração. Clique aqui para conhecê-los.

Serviço

Nina Tem Medo de Palhaço
Autores: Walter de Sousa e Mariana Fujisawa
Editora: Kapulama
Preço: R$ 32,90

Dois Meninos de Kakuma
Autora: Marie Ange Bordas
Editora: Pulo do Gato
Preço: R$ 54,60

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Prêmio: Promoção de direitos humanos

Crédito: Reprodução/SM

As inscrições para o 3.º Prêmio Ibero-Americano de Educação em Direitos Humanos, promovido pela Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI) e pela Fundação SM, foram prorrogadas até o dia 15 de julho. A iniciativa tem o apoio do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Podem se inscrever escolas e organização da sociedade civil que desenvolvem trabalhos com foco no direito à educação, à convivência na escola, à paz, às liberdades, à inclusão e aos direitos humanos.

Depois de encerradas as inscrições, serão escolhidas duas experiências brasileiras, que disputarão a fase internacional da premiação, até novembro.

O Brasil venceu o prêmio em 2015, com o projeto Mulheres Inspiradoras, coordenado pela professora Gina Vieira Ponte, que estimulou o interesse dos alunos pela leitura e análise de obras escritas por mulheres.

Para saber mais sobre o projeto e realizar a inscrição, clique aqui.

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