Medo com bom humor
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Medo com bom humor

Bia Reis

10 de junho de 2012 | 06h00

Uma múmia, um esqueleto, um vampiro, uma bruxa e um homem do saco são os protagonistas dos cinco livros do escritor espanhol Enric Lluch que integram a Coleção Meus Monstros, lançada pela FTD. A coleção é o tema da matéria que publico hoje no Caderno 2.

Abaixo da página, seguem trechos de uma deliciosa entrevista com a tradutora da coleção, Heloisa Prieto, grande estudiosa do medo na literatura infantil e escritora de diversos livros que abordam o assunto.

Na entrevista a seguir, a escritora Heloisa Prieto fala sobre o trabalho de tradução e explica por que é importante falar sobre o medo com as crianças. “O terror aproxima porque coloca todo mundo no mesmo barco, e é preciso humildade para admitir o medo”, conta Heloisa.

Como foi traduzir a Coleção Monstros para o português?
A editora FTD me deu carta branca, permitiu que eu praticamente transcriasse o texto, de modo a destacar o humor negro do original. Às vezes é preciso ser mais fiel ao original, mas não foi o que aconteceu com esta coleção. Pude adotar uma linha mais criativa. Peguei o espírito das obras de contar a história a partir do personagem. Em O Homem do Saco, por exemplo, dialoguei bastante com o homem do saco preto. Foi muito divertido!

Que tipo de adaptações você fez no texto?
Acentuei um pouco mais a ironia, brincando com as descrições, principalmente.

Qual das histórias você mais gostou? Por quê?
Eu amei a história da múmia, porque é raro encontrar narrativas nas quais ela seja protagonista. Em geral, a múmia é só uma figura que aparece do nada para dar um susto e depois some. Gostei das soluções que o autor encontra.

Podemos classificar esses livros como sendo de terror?
Eu diria que eles são “terrir”. Na verdade, o terror, enquanto gênero, não deixa de ser uma forma de nos fazer rir de nós mesmos, da nossa vulnerabilidade. Diante do medo, todos somos iguais. Shakespeare brinca com esse conceito em Hamlet, por exemplo. No final, a história de terror é a mais edificante que existe, porque defende, indiretamente, as virtudes essenciais, principalmente, a humildade.

O que caracteriza o terror para crianças?
O conto de fadas é essencialmente uma história de terror que tem a garantia do final feliz. Para dar uma pontinha de medo, basta colocar em dúvida o pacto da vitória final. Será que vai dar para vencer os monstros? Outro recurso interessante é escrever do ponto de vista dos seres extraordinários, como acontece nessa coleção. Nesse caso, trata-se de um exercício de sensibilidade. Como seria se você tivesse nascido bem esquisito?

Como foi o seu caminho neste gênero? O que tanto te atrai?
Minha mãe, Valdeti Prieto, é uma exímia contadora de “causos” de terror. Foi ela quem me deu o gosto por essa brincadeira. Minha família é descendente de espanhóis e na Espanha não existe receio desse tipo de história. Eles falam muito: “Do pó veio, ao pó voltarás”. A história de terror nos remete à condição humana, um espaço de igualdade e mistério compartilhado. Na verdade, estamos todos no mesmo barco, sujeitos às leis do acaso.

Qual é a importância de se falar sobre o medo com as crianças?
Falar sobre o medo é quase um antídoto contra ele. Nada aproxima mais uma criança de outras pessoas do que dividir os temores secretos e, por vezes, bem malucos. Agora, por mais medroso que seja o adulto ao lado da criança, é bom que ele, o mediador de leitura, o contador de histórias, se lembre que seu lugar será o de um guardião. Muitas crianças me perguntam se eu já vi fantasmas. Eu digo que não, mas que adoro falar sobre eles. A criança precisa saber que está do lado de um adulto confiável. Quando eu era pequena, tinha uma tia-avó que me levava para andar em cemitérios, e eu adorava. Tinha também um tio, sonâmbulo, meio doido, de quem eu morria de medo. A minha tia-avó era uma adulta confiável, essa era a diferença.
O medo do medo é o maior de todos os temores. A confiança, o humor, a amizade, seus inimigos mortais, por assim dizer. Uma boa história de terror frequentemente é também uma maravilhosa história de amizade, como o grande clássico Drácula, por exemplo. O terror aproxima porque coloca todo mundo no mesmo barco, e é preciso humildade para admitir o medo.

Como é a literatura de terror para crianças no Brasil?
Heloisa Seixas é uma xará querida e irmã de obsessão. Há obras incríveis de Angela Lago e Ricardo Azevedo, entre outros. O Brasil ainda desfruta da força da literatura oral, na qual o medo é sempre um ingrediente fundamental.

Os pais têm receio de dar para as crianças livros cujos personagens são assustadores? Por que isso acontece?
Certa vez, uma mãe contou que sempre pulava uma história de terror que eu havia escrito, preferindo as de encantamento. Até que sua filha se ofereceu: “Mamãe, posso ler para você aquela história da qual você tem tanto medo?”.
Os pais, às vezes, temem mais os medos que atribuem às crianças do que as próprias. Criança gosta da dualidade medo contra coragem. Quando um adulto a priva desse embate, impede que ela se apaixone por uma história. Ou como diria a grande e maravilhosa Tatiana Belinky: “História que não faz sonhar, rir, ter uma pontinha de medo, não tem graça e a gente esquece num minuto”. Privar não é educar.
Hoje as crianças estão sendo muito privadas desse jogo lúdico. Principalmente as de classe média estão sendo criadas em uma redoma. Tem muito adolescente hoje que sofre de síndrome do pânico. É muito mais comum do que era antes. Os pais parecem não perceber que o medo também protege. Se você não ensina a criança que ela pode se afogar, ela pode morrer afogada. O medo é educativo. Não estou falando de coerção, coisas do tipo: “O homem do saco pega quem não obedece”. Estou falando sobre o conversar sobre o medo. Criança adora. Observe os acampamentos, elas amam!

Por que se controla mais o que a criança lê do que o que, por exemplo, ela vê na TV?
Hoje existe um patrulhamento muito grande em torno do livro. Na TV, os pais deixam as crianças assistirem tudo. As pessoas dão um poder sagrado, quase sobrenatural, para o livro. Dai fica a tentativa de apresentar sempre finais felizes. Quando não se pode falar sobre o medo, nega-se o simbólico, prende-se ao politicamente correto. Você tira a metáfora. Não adianta ter personagens perfeitos, com histórias perfeitas. Você nega o conflito, e ele existe. Quando você apresenta um sofrimento para a criança, você está a ajudando a elaborá-lo. Isso é muito mais profundo.

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