‘Marilu’ e as cores do mundo
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‘Marilu’ e as cores do mundo

Bia Reis

18 de junho de 2012 | 06h00

A escritora e ilustradora Eva Furnari lançou recentemente o livro Marilu, criado há 11 anos. Para a reedição, ela conta ter preservado os desenhos e modificado um pouco o texto. O assunto é tema de reportagem que publico hoje no Caderno 2.

Abaixo da página, vocês podem conferir trechos da entrevista que fiz com ela. Na conversa, Eva fala mais do que o livro: fala sobre a vida.

A seguir, a entrevista:

Mais de dez anos depois de ser lançado, Marilu volta a ser editado. O que mudou no livro desde a primeira edição?

Eu mexi principalmente no texto. A edição é bem antiga, foi escrita 11 anos atrás. A história é exatamente a mesma, mas a gente muda depois de tanto tempo, amadurece. A própria história amadurece. As ilustrações não mudaram. Fiz alteração apenas na capa.

Nesse processo de republicação da sua obra pela editora Moderna, a senhora decidiu não reeditar alguns títulos. Por que a senhora tomou esta decisão?A Moderna me convidou para ser autora exclusiva e fui aos poucos tirando os livros das outras editoras. Quando isso acontece, revejo os textos, as ilustrações. Foram quase dez livros em três anos, e Marilu é o último a ser reeditado. Decidi não republicar 14 livros, escritos principalmente na década de 80 e alguns nos anos 90. Grande parte, metade deles, são livros que não satisfazem mais os leitores. Hoje eles são mais exigentes, querem uma história mais bem acabada. Percebemos uma evolução estética e de conteúdo. Nos anos 80, fazíamos livros muito curtos. Eu poderia até juntar três ou quatro histórias e publicá-las em um livro, mas decidi não reeditá-las.

Como foi o processo de criação de Marilu?
A questão da criação é sutil, difícil de explicar. Se passaram muitos anos, eu me perco um pouco nas lembranças. Hoje, com o computador, é mais fácil identificar a origem, o processo de criação. Às vezes, a ideia do livro surge depois do décimo passo. Na época não produzia no computador, por isso é mais difícil.
Para mim, a criação não é racional. Não é “vou falar do mau humor” e vou buscar uma ideia. Às vezes é uma coisa pessoal, algo que acontece na minha vida. Trato de questões do ser humano, de sentimentos. A diferença é que na literatura infantil utilizamos uma linguagem diferente, mas as questões são as mesmas.
Estou republicando Marilu no momento em que revisito essas questões. O olhar às vezes está próximo da realidade, mas outras vezes não. Tudo depende do ponto de vista. Podemos perceber e encaram a vida de formas diferentes. Precisamos cuidar do próprio olhar e não acreditar que tudo o que vemos é daquele jeito. Marilu vê tudo em cinza, é uma forma simbólica de viver. A gente pode alterar o nosso olhar. Às vezes temos uma infância ruim e isso afeta de forma significativa a maneira como encaramos a vida. Passamos a ver a vida de forma negativa, é como um mau hábito; o bom é que ele pode ser modificado. Experiências negativas podem viciar o nosso olhar, mas podemos decidir mudar.

A senhora não utiliza um discurso moralista para transformar a personagem, mas sim o humor. São seres mágicos, bem humorados, que fazem Marilu mudar. É isso que atrai tanto as crianças?
De uma forma simbólica, ela encontra personagens mágicos, mas, pricipalmente, ela quer mudar. Tento fazer isso com a minha própria vida. O humor, a estética, a poesia abrem portas da alma, do coração. Você pode chegar na pessoa de uma maneira mais leve. Todo mundo quer uma vida mais leve. Não fui sempre assim, mas fui me desenvolvendo. Com o excesso de exigências, as crianças podem se fechar. Crescer é difícil, há conflitos. Mas a arte e a poesia nos ajudam na vida. A literatura também tem este papel.

O que é um bom livro infantil?
É aquele que chega na criança. Tem que ter uma boa história, tem de ter a ver com a criança, com o jovem, tem de despertar a curiosidade humana, ser adequada para a faixa etária. Acho que o escritor tem que ter dois lados: um de sensibilidade artística, saber lidar com as imagens, mas também é preciso compreender a lógica. Um escritor sem lógica não faz boas histórias.

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