Legado de Angela Lago para a literatura infantil é ainda maior do que seus livros
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Legado de Angela Lago para a literatura infantil é ainda maior do que seus livros

Autora faleceu no dia 22, na cidade onde nasceu, Belo Horizonte, deixando surpresos amigos, familiares e fãs de sua vasta obra

Bia Reis

24 Outubro 2017 | 13h22

Carlos Avelin/Cosac Naify – 18-03-2010

Bia Reis e Cristiane Rogerio

Angela Maria Cardoso Lago. Ou Angela Lago. Ou Angela-Lago, assim, com hífen. Angela Lago, uma das principais autoras da chamada literatura infantojuvenil brasileira e uma incrível pensadora do livro no Brasil, faleceu na madrugada deste domingo, dia 22 de outubro, por conta de uma embolia pulmonar, na cidade onde nasceu, Belo Horizonte. Nos deixou tristes e surpresos e também uma quantidade de livros e reflexões que atingirão muitas gerações de leitores, educadores e artistas. Além do reconhecimento em diversos prêmios que elevam junto o livro ilustrado brasileiro, Angela nos fez pensar o encontro da literatura infantil com o objeto livro a partir do mais puro desejo de experimentar. Esta possibilidade de lidar com algo ainda não feito ou tocar em questões pouco exploradas a fascinava e quem mais receberia isso melhor do que milhares de crianças leitoras?

“A obra dela ensinou a gente a ler de um modo diferente”, diz Odilon Moraes, outro de nossos principais autores da literatura infantojuvenil brasileira mas aqui como um grande pesquisador do livro ilustrado e, por consequência, da obra de Angela. “O objeto livro era sempre pensado depois e ela o coloca, já nos anos 80, como protagonista e transforma tudo (texto, imagem e objeto) em experiência literária”, afirma Odilon em encontro n’ A Casa Tombada para grupo de alunos do curso de pós-graduação O Livro Para a Infância, em São Paulo. Odilon e outros dois artistas – Fernando Vilela e Stela Barbieri – são os curadores de uma exposição sobre livro ilustrado no Sesc Santo André, a Linha de Histórias – O Livro Ilustrado em Sete Autores, que fica até dia 26 de novembro no espaço e dá destaque para a obra de Angela. Na mostra, os homenageados falam um da obra do outro, como Eva Furnari, que define assim, a amiga: “É uma verdadeira artista. Desbrava versos e imagens. Reinventa tudo sempre. Às vezes, aparece com a delicadeza das minúsculas fadinhas dos bosques. Outras vezes, vem com o punho em riste para falar de injustiças”.

Formada na Escola de Serviço Social da PUC/MG, começou sua carreira como artista visual após uma temporada em Edimburgo, onde frequenta o curso de artes gráficas. Ela contava que nesta época o País vivia um “renascimento da literatura infantil”. Foi quando conheceu, por exemplo, a obra de Maurice Sendak, autor de Onde Vivem os Monstros. “Fiquei extremamente impressionada quando li pela primeira vez. Essa sagacidade de dividir o texto nas páginas que o Sendak tinha me impressionou muito e eu acho que me ajudou a pensar no meu próprio trabalho”, contou Angela em entrevista ao livro Traço e Prosa (Ed. Cosac Naify), de Odilon Moraes, Rona Hanning e Maurçio Paraguassu. Em dezenas de livros, Angela focava-se nas possibilidades da relação das linguagens de texto, imagem e projeto gráfico. “Há em suas obras uma tentativa imensurável de atar a imagem e a escrita, de modo que esta junção possa originar um pensamento múltiplo e aberto. O sujeito é levado a perceber que mesmo na ausência da escrita, em algumas passagens, existe a presença de uma voz que instaura um incompleto. É uma narrativa visual. Não incompleta. A poesia presentificada cumpre sua tarefa em apresentar um conjunto de signos que buscam incessantemente um significado”, escreveu Tamires H. Lacerda Camerlingo, em artigo para o curso de pós-graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

A cada livro de Angela, seja sozinha ou com algum parceiro em texto, sabíamos que havia ali algo a nos surpreender. Fascinada pelo ato de fazer livro, a autora mineira era também muito questionada sobre as intenções e caminhos do processo criativo. No mesmo Traço e Prosa, Angela nos define. “Os livros da gente são como sonhos. A gente os entende depois”.

Confiram nossos destaques de sua vasta arte deixada por aqui.

Cântico dos Cânticos, Cosac Naify (1992/2013) – Uma releitura do texto bíblico, o livro é composto por uma série de iluminuras que dialogam com artistas como Escher. Evocando muitas emoções – paixão, perdas, sonhos, realidades – a edição propõe uma leitura circular: ao virar das páginas, o leitor assiste ao encontro e desencontro de um casal, mas pode ser lido também de trás pra frente ou ponta-cabeça.

De Morte, RHJ (1992) – Neste reconto folclórico, Angela narra com humor a história de um velho que diante da possibilidade de três pedidos antes de morrer, trapaceia e engana a morte. O experimental fica por conta de uma decisão da autora de deslocar uma página do livro à direita na prega do grampo, de forma que no início provoque um estranhamento, como uma página cortada, e, mais pra frente, a abertura de uma aba dá o impacto necessário para o final da história.

Cenas de Rua, RHJ (1994) – Nesta narrativa só com imagens, a autora exibe um cotidiano de uma criança vendendo algo no farol de uma grande cidade. A fragilidade é exposta de várias maneiras, gerando diversas interpretações do leitor, por meio das intensidades das cores e dos traços e, sobretudo, de algo característico da obra de Angela: o uso da dobra da página na narrativa e provocando um movimento dos personagens ao virar das páginas.

Indo Não Sei Aonde Buscar Não Sei O Quê, RHJ (2000) – Um menino “muito zonzo” de tanto falar a mesma resposta “sei não” Seinão vira seu apelido. Um dia, desafiado a “ir a não sei onde buscar não sei o que” para conseguir a mão da princesa em casamento, o rapaz não se dá conta do sarcasmo e sai a caminhar e chegar até o inferno e conversa com o próprio capeta. Na simplicidade, aproveita sua jornada e garante uma virada na história que, ao leitor, também garante uma interessante reflexão.

João Felizardo – o Rei dos Negócios, Cosac Naify (2007) – publicado originalmente no México, a autora inverte a lógica do conto tradicional em que o homem troca de posses até ficar “sem nada”, ao questionar os valores do objeto. Sem moralismo ou pieguice, Angela mostra uma intensidade reflexiva e um convite ao desapego.

A Visita dos 10 Monstrinhos, Companhia das Letrinhas (2009) – Um livro para aprender números, letras, brincar de ler e… e lidar com alguns monstros, tarefa tão importante para todos os leitores! Esta brincadeira de “importâncias” se dá a partir de divertidas rimas e situações inesquecíveis.

ABC Doido, Melhoramentos (2010) – Aqui a intenção também é brincar. Adivinhas se misturam a um jogo de propor vocabulários, a partir de um abecedário que começa a ser “ensinado” pela letra Z. Mas isso é só o começo de uma série de nonsenses e diversão.

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