Ilustradores brasileiros questionam critérios de premiações
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Ilustradores brasileiros questionam critérios de premiações

Em carta aberta, Sociedade dos Ilustradores do Brasil questiona critérios utilizados pelo Jabuti e pelos prêmios da Fundação Biblioteca Nacional e da Academia Brasileira de Letras

Bia Reis

28 de julho de 2014 | 10h00

Imagine o texto de um bom livro infantil em uma folha de papel A4. Duro, sem ilustrações. Agora imagine o mesmo texto com desenhos caprichosos que não apenas repetem o que está escrito, traçam uma narrativa paralela, contam a história além da história. Assim, só de imaginar, fica claro que escritor e ilustrador são autores, não?

Para muitos autores, editoras, leitores e gente que vive o universo do livro infantil e juvenil, não há dúvidas sobre autoria e coautoria e a importância da ilustração em um livro destino a crianças ou jovens. Mas não é o que acontece em importantes premiações brasileiras. Em carta aberta divulgada na semana passada, a Sociedade dos Ilustradores do Brasil (SIB) questiona os critérios utilizados pelos prêmios da Câmara Brasileira do Livro (CBL), que organiza o Jabuti, e os da Fundação Biblioteca Nacional (FBN) e da Academia Brasileira de Letras (ABL). Clique aqui para ler a íntegra.

“A discussão ocorre há muito tempo entre os ilustradores, e sempre que há uma premiação o assunto volta à tona. Nós achamos que não somos creditados nos prêmios de maneira adequada”, afirma o ilustrador Mauricio Negro, do conselho diretor da SIB. “O olhar do público valoriza cada vez mais a ilustração. Falta agora as premiações reconhecerem nosso trabalho”, diz a ilustradora Ionit Zilberman, também da SIB.

A carta afirma que, “embora haja consenso em torno do mérito”, na prática são necessários alguns ajustes tanto em contratos assinados com editoras quanto nos critérios de análise crítica do livro. “A maioria concorda que uma obra literária contemporânea, quando ilustrada com generosidade, é fruto do enlace autoral entre duas expressões: a palavra e a imagem”, afirma a SIB. “A despeito disso, persiste um certo desconforto entre ilustradores e escritores com relação aos critérios seletivos aplicados (ou não aplicados) à ilustração por alguns dos mais consagrados concursos literários do país.”

Na carta, enviada aos representantes da Câmara Brasileira do Livro (CBL), que promove o Jabuti, à FBN e à ABL, os ilustradores afirmam que isoladamente já tentaram contato com as entidades para discutir os critérios, mas não obtiveram resposta. Por isso, decidiram agora pela carta aberta. “No mercado, somos vistos como coautores, mas infelizmente as premiações não refletem isso”, lamenta o escritor e ilustrador Alexandre Rampazo. A SIB destaca como contraponto positivo a premiação da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), que, na opinião da sociedade, “certifica obras em categorias bem estruturadas e com base em critérios mais assertivos e mais justos”.

JABUTI
No Jabuti, a SIB questiona três categorias: Melhor Capa, Melhor Livro Infantil e Melhor Livro Juvenil. Na melhor capa, os ilustradores querem assegurar que todos os colaboradores criativos sejam citados – e não apenas o designer responsável. “A participação autoral do colaborador (ilustrador) – muitas vezes bastante significativa – precisa ser registrada”, afirmam.

Na categoria Melhor Livro Infantil, o problema é ainda mais sério, pois somente o escritor é premiado. “O livro ilustrado remete à sinergia da canção popular. O texto está para a letra assim como a ilustração está para a música. Nos melhores momentos, uma dimensão é indissociável da outra”, defende a carta. “Fosse para julgar apenas o conteúdo do texto, o regulamento deveria solicitar aos concorrentes que submetessem ao júri tão somente o conteúdo de texto original.”
Na categoria Melhor Livro Juvenil, a SIB defende que, se a participação do ilustrador for significativa, que ele também seja premiado.

Para contornar tais problemas, a SIB sugere que as categorias sejam divididas da seguinte forma: Melhor Texto de Literatura Infantil (somente texto); Melhor Texto de Literatura Juvenil (somente texto); Melhor Livro Infantil (texto e ilustração); Melhor Livro Juvenil (texto e ilustração); Melhor Ilustração (ilustração de livro adulto); Melhor Ilustração de Livro Infantil (ilustração de livro infantil); e Melhor Ilustração de Livro Juvenil (ilustração juvenil).

FBN e ABL
Em relação ao Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional, a SIB questiona a ausência de pelo menos uma categoria relacionada à ilustração. Premia-se o escritor e o projeto gráfico, mas não o ilustrador.

Já o prêmio da ABL, afirma a carta, “contempla escritores de diferentes gêneros literários, inclusive os de literatura infantojuvenil, mas ignora a coautoria narrativa dos ilustradores”. “Tanto o escritor quanto o ilustrador merecem receber, quando devido, o Prêmio ABL de Literatura Infantojuvenil.” Neste caso, a SIB também questiona o fato de não haver separação entre literatura infantil e literatura juvenil, “como há tempos recomendam inúmeros autores e especialistas brasileiros e estrangeiros”.

RESPOSTA
Este blog procurou a Câmara Brasileira do Livro, a Academia Brasileira de Letras e a Fundação Biblioteca Nacional, oferecendo espaço para que elas se manifestassem sobre a carta aberta. A ABL e a FBN não se posicionaram. Abaixo, segue a íntegra da carta enviada pela curadora do Jabuti, Marisa Lajolo, professora de Literatura:

“Em primeiro lugar, obrigada pela contribuição que a carta aberta traz. Ela é muito sugestiva e não apenas para questões relativas ao Prêmio Jabuti, mas para uma reflexão mais aprofundada sobre livros, particularmente os destinados a crianças e jovens.

Livros são objetos que se alteram ao longo do tempo: do manuscrito ao impresso, ao pocket e ao ebook, a humanidade presenciou (e viveu como leitora) incríveis alterações naquilo que Fernando Pessoa definiu uma vez como “papéis pintados com tinta”. Particularmente os profissionais envolvidos com o mundo livresco têm de constantemente refazer as relações que com eles estabelecem.

A articulação de linguagens – a verbal e a visual – na realidade se faz presente em qualquer livro e é significativa, se acreditarmos que, por exemplo, capa, projeto gráfico e ilustração são também elementos produtores de sentido. Daí serem pertinentes as reflexões que a carta faz relativamente à possibilidade de prêmios destinados aos gêneros infantil e juvenil contemplarem a íntegra do objeto livro, e não cada uma das linguagens que o constituem.

Reiterando a afirmação que abre este texto, agradecemos as considerações da carta aberta: elas são extremamente oportunas e – quando pertinentes- estão sendo tomadas em consideração pela CBL nas discussões ora em curso sobre o Prêmio Jabuti.”

+++ A primeira imagem do post é do Rampazo e a segunda, da Ionit

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