O papel do ilustrador na literatura infantil
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O papel do ilustrador na literatura infantil

Você já percebeu que às vezes o nome do ilustrador está na capa do livro, junto com o do escritor, e que outras vezes ele só aparece dentro, nos crédito da obra? Você sabe por que isso acontece? Confira reflexões sobre o assunto, a opinião do curador do Prêmio Jabuti sobre autoria na literatura infantil e aproveite para conhecer o livro 'O Grande Pato'.

Bia Reis

22 de maio de 2019 | 07h00

EM DEBATE: ILUSTRADOR É AUTOR?

 

Você já percebeu que às vezes o nome do ilustrador está na capa do livro, junto com o do escritor, e que outras vezes ele só aparece dentro, nos crédito da obra?

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Na literatura infantil, a imagem tem as mais variadas funções. Muitas vezes, ela reforça o que o escritor acabou de contar. Outras vezes, ela própria conta uma parte da história. E há inúmeras outras formas da imagem e do texto se relacionarem. Pra mim, esse é um dos aspectos mais maravilhosos da chamada literatura infantil – a gente não sabe que tipo de relação entre as duas linguagem vai encontrar quando abre um livro.

A discussão do papel do ilustrador na obra é coisa séria no mundo da literatura infantil. No passado, esse profissional era contratado pela editora para fazer um serviço: produzir as imagens que acompanhariam um determinado texto. Hoje isso ainda acontece. Mas o processo todo se tornou mais complexo e com múltiplas possibilidades.

Muitas vezes, um escritor tem uma ideia e convida um ilustrador para criar junto o livro (e vice-versa). A maneira como essa história será contada – o que será dito por meio das palavras e o que será dito por meio das imagens – nasce das conversas entre os dois. Outras vezes, o autor tem a dupla habilidade – de escrever e de ilustrar –, e ele próprio consegue contar essa história sozinho, usando as duas linguagens.

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Em muitas editoras que trabalham com literatura infantil, a autoria da obra é clara – quando as ilustrações também contam a história, o ilustrador é autor da obra ao lado do escritor, e não apenas um prestador de serviço. Assim, seu nome deve aparecer na capa e também nas inscrições para premiações da área.

Essa discussão sobre autoria é recorrente e costuma voltar à tona quando importantes premiações divulgam seus editais. Foi sobre isso que conversei na semana passada com Pedro Almeida, curador da 61.ª edição do Prêmio Jabuti, o mais prestigioso da literatura no Brasil.

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Crédito: Divulgação/CBL

Pra começo de conversa, como é o Jabuti hoje?

A 61.ª edição do Prêmio Jabuti está dividida em quatro grandes eixos – Literatura, Ensaios, Livro e Inovação. E dentro de cada um deles há diversas categorias:

Literatura: (1) Conto, (2) Crônica, (3) Histórias em Quadrinho, (4) Infantil, (5) Juvenil, (6) Poesia e (7) Romance

Ensaios: (1) Artes, (2) Biografia, Documentário e Reportagem, (3) Ciências, (4) Economia Criativa e (5) Humanidades

Livro: (1) Capa, (2) Ilustração, (3) Impressão, (4) Projeto Gráfico e (5) Tradução

Inovação: (1) Fomento à Leitura e (2) Livro Brasileiro Publicado no Exterior

Neste ano, o Jabuti separou as categorias Infantil e Juvenil, que haviam sido unidas em 2018, o que desencadeou críticas de autores da literatura infantil e juvenil. Pedro conta que as categorias haviam sido unidas, assim como aconteceu com outras, com a intenção de valorizar ainda mais o prêmio. “Avaliamos a união das categorias e achamos que foi uma medida acertada. Levamos em consideração demandas internas e externas, e entendemos que a única que não precisava ter sido unida foi Infantil e Juvenil. No ano passado já se tinha percebido isso, mas não houve tempo hábil para rever a decisão. Agora elas estão separadas e têm critérios diferentes de avaliação”, afirma Pedro.

Pedro Almeida, no centro, com os representantes do conselho curador: à esquerda, Marcos Marciolino e Mariana Mendes, e à direita, Camila Mendrot e Cassius Medauar. Crédito: Divulgação/CBL

Com a separação, na categoria Infantil os jurados passam a observar: (1) inventividade e originalidade com linguagem adequara para o público-alvo, (2) obras que despertem percepções, emoções e sensações e (3) obras que multipliquem ou expandam a experiência leitora. E na categoria juvenil: (1) inventividade na criação de personagens e de universos que representem ou não a realidade, (2) representação das culturas juvenis e colaboração com a construção de identidades e (3) linguagem atrativa que estimule a circulação de literatura entre os jovens.

Sobre o debate na autoria do livro na literatura infantil, Pedro afirma que a discussão existe no mercado e que a editora – ou quem fizer a inscrição no Jabuti – “tem que trazer isso resolvido”.

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“O ilustrador entra em vários tipos de trabalho, mas nem em todos ele conta uma narrativa – às vezes tem autonomia, às vezes não. Dentro do livro infantil, há obras que nascem de uma conversa entre autor e ilustrador, e nesses casos seguramente o ilustrador deve ser tratado como autor. Em outros casos, a editora aprova o texto e a editora busca o ilustrador, e ele também tem participação fundamental. Há também momentos em que se chama um ilustrador para fazer um trabalho e ponto, e ele não precisa ser considerado autor do livro”, afirma o curador do Jabuti. “É uma questão que a gente não pode interferir (de quem é a autoria). Por isso, a editora, na hora de inscrever a obra, já tem de ter claro quem é o autor ou quem são os autores.”

O resultado da categoria Infantil do Jabuti de 2016 expõe o debate. O livro que ficou em primeiro lugar, Inês, é de Roger Mello e Mariana Massarani, dois autores que escrevem e ilustram. Apesar de Roger ter escrito e Mariana, ilustrado, o processo de produção do livro foi uma verdadeira parceria, com sugestões dos dois lados, conversa e muito diálogo em torno da obra. Os dois são autores, mas apenas Roger aparece como premiado na lista do Jabuti. Em segundo lugar foi premiado Lá e Aqui, de Carolina Moreyra e Odilon Moraes. Carolina é escritora e Odilon, ilustrador e escritor. O livro também foi feito em parceria. Os dois são autores – e os dois foram premiados.

Pedro destaca que os ilustradores são cada vez mais reconhecidos na literatura infantil e muitos puxam verdadeiramente a venda dos livros, independentemente do autor. “Já faz algum tempo em que os ilustradores são remunerados como autor, em especial nas editoras com foco no infantil, mas a discussão nas premiações é mais recente”, reconhece. “Hoje, no Jabuti, o ilustrador autor pode ser premiados duas vezes: na categoria Infantil ou Juvenil, se for também autor da obra, e na categoria ilustração.”

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Quis escrever sobre essa discussão porque recebo com muita frequência e-mails de leitores que me perguntam por que às vezes, no serviço de um livro, escrevo “autor” e às vezes “escritor” e “ilustrador”. :o)

NOVIDADE: ‘O GRANDE PATO’

Crédito: Bia Reis

E para acompanhar essa reflexão, quero apresentar para vocês o recém-lançado O Grande Pato, de Mariah Guidella (texto) e Erika Astronauta (ilustração e idealização), do Coletivo Jacaré na Porta. Escolhi este livro porque, além de adorá-lo, ele teve um processo de produção diferente do tradicional, mostrando que há caminhos tão variados quanto a nossa imaginação e criatividade permitirem!

Em O Grande Pato, a ilustração nasceu primeiro. Os integrantes do Coletivo Jacaré na Porta se perguntaram: e se tivéssemos que “escrever uma ilustração”, como seria? Erika, então, levou suas ilustrações para o grupo e, com base nelas, quatro textos foram escritos, debatidos e votados. Com 71% dos votos, o texto de Mariah venceu o pleito.

Crédito: Bia Reis

O livro conta a história de Parrulo, um pato que se acha o pato mais pato que pode existir. Na cabeça dele, só ele sabe o que é ser verdadeiramente pato e, por isso, vive dando lições aos patos mais novos. Até que surge um outro pato, menos rígido, mais leve, que mostra uma outra maneira de ser pato. Será que isso vai mudar a perspectiva de Parrulo?

A história fala de patos, mas fala também de nós. Temos uma única versão? Isso basta para viver?

Crédito: Bia Reis

Neste livro, você vai perceber que as imagens são fundamentais na história. Se você ler apenas o texto, não vai entender a narrativa, assim como se “ler” somente as imagens.

Além do processo, as ilustrações da Erika fogem do que encontramos normalmente nos livros infantis – ela brinca com a imperfeição, com o inacabado, expõe seu processo. Um pouco como a vida.

Por fim, um último aspecto interessante do processo de publicação do livro. Independente, a primeira edição foi financiada por uma campanha realizada no Catarse. Mas pouco antes de sair, a Renata Nakano, idealizadora e diretora do Clube de Leitura Quindim, conheceu a obra e já negociou um aumento da tiragem para que o título fosse distribuído aos assinantes, já que um dos objetivos do clube é ajudar a viabilizar projetos de editoras independentes e de coletivos. Mais uma vez, as caminhadas são tão variadas quanto a nossa criatividade permitir!

Serviço
O Grande Pato
Autoras: Mariah Guidella (texto) e Erika Astronauta (ilustração e idealização)
Edição: Coletivo Jacaré na Porta
Preço: R$ 35 (à venda na Amazon)

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