Dez histórias escritas por autores indígenas e a mobilização Amazônia Chama
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Dez histórias escritas por autores indígenas e a mobilização Amazônia Chama

Companhia das Letrinhas lança 'Nós - Uma Antologia de Literatura Indígena', que dá voz a autores indígenas. Conheça também a campanha que reúne escritores e ilustradores em favor da floresta

Bia Reis

06 de setembro de 2019 | 10h00

Novidade: Antologia de literatura indígena

‘Nós’, da Companhia das Letrinhas. Crédito das imagens: Bia Reis/Estadão

Histórias de amor entre pessoas e também entre bichos, sobre a origem do açaí e o surgimento do peixe-boi, e também sobre tempos em que os homens não interferiam no curso da natureza. Essas e outras narrativas estão em Nós – Uma Antologia de Literatura Indígena, que acaba de ser lançada pela Companhia da Letrinhas, com organização e ilustrações de Mauricio Negro. A obra reúne dez histórias narradas por escritores indígenas, “legítimos herdeiros de diferentes etnias, que oferecem uma oportunidade de desatar alguns desses ‘nós'”, como Mauricio escreve no prefácio intitulado Nós. Mas, Afinal, Nós Quem?.

O organizador da antologia conta que a seleção de histórias, apesar de sair pela Companhia das Letrinhas, não foi pensada para crianças. “Mas a literatura indígena é acessível, democrática e rica em imagens, o que facilita a leitura. E o aspecto da ilustração é essencial – ela devolve um pouco da tridimencionalidade que se perde quando pegamos uma história da tradição oral e a ‘achatamos’ em um livro”, conta Mauricio. Nós é literatura para leitores de todas as idades.

Os dez capítulos seguem a mesma estrutura: uma ilustração em página dupla faz as vezes de abertura, seguida pela história, um texto sobre o povo que a conta, um glossário e uma pequena biografia dos escritores. “Colocamos um glossário para as pessoas entenderem certos termos, mas às vezes nem ele era suficiente. Às vezes faltava um parágrafo prévio de explicação, e então eu ia fazendo a mediação (com os escritores)“, relata Mauricio, sobre o processo de feitura do livro.

Ao longo da antologia, sempre que uma palavra é escrita pela primeira vez na língua original, ela aparece em caixa alta, com negrito e uma fonte diferente. A tradução vem logo na sequência e também está no glossário. A estratégia coloca o leitor em contato com as palavras na língua original, mas também garante a compreensão. Mauricio destaca ainda o trabalho de preparação conjunta com Antônio Castro, da Companhia das Letrinhas, que apontou pontos controversos, obscuros. Um cuidado para deixar a obra, de fato, acessível a todos.

O texto que abre a antologia é Amor Originário, escrito por Aline Ngrenhtabare L. Kayapó e Edson Kayapó, do povo mebengôkré kayapó. Os escritores narram uma história de amor entre Panhonka e o guerreiro Bepkaety. Logo no início, o leitor descobre que durante as noites de lua cheia os homens e as mulheres se encontram pela aldeia para se conhecer e, quem sabe, namorar. Panhonka gosta de Bepkaety, um guerreiro com cabelos longos e escuros, pele dourada, conhecido por ser um excelente pescador e um habilidoso líder da aldeia – ele conduz reuniões comunitárias, media conflitos e sonha em se tornar médico para ajudar seu povo. Mas Panhonka acha que seus sentimentos não são correspondidos. Até que em uma festa, com ajuda de amigas, tem a chance de mostrar o seu amor.

Na história, a passagem do tempo é marcada pelas fases da lua. Com delicadeza, os autores exaltam as características de Bepkaety: ele se destaca na pesca, mas também pela conversa e por ser capaz de mediar as divergências na aldeia, além de ser estudioso e sonhador. Mas as dificuldades também são relatadas. Para continuar estudando, por exemplo, o guerreiro tem de sair da aldeia e se afastar da família. O leitor é apresentado à caça, à pintura corporal e também à Festa da Mandioca, que dura cerca de um mês e é cheia de diversão.

Para fazer as ilustrações, Mauricio lançou mão da monotipia, uma gravura em matriz utilizada apenas uma única vez. “É uma opção com um processo de confecção mais ágil do que a gravura tradicional e pouco menos controlável, o que acho bom. Às vezes acabo sendo surpreendido, é menos racional”, afirma o ilustrador.

O livro traz uma ilustração por conto, “em preto, do jenipapo e do carvão, e em vermelho alaranjado ou laranja avermelhado, do urucum”, conta Mauricio. “É uma imagem síntese com várias camadas de leitura, é o elemento essencial. Optei por representar uma referência pautada de cada povo, com consideração pelos sinais e símbolos, e com licença poética amarrada à própria história. Cada imagem é uma capa.”

Serviço
Nós – Uma Antologia de Literatura Indígena
Organização e ilustrações: Mauricio Negro
Editora: Companhia das Letrinhas
Preço: R$ 44,90

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Mobilização: Amazônia Chama

Ilustração de Roger Mello. Crédito: Reprodução

Amazônia Chama é o nome do projeto que o Instituto de Leitura Quindim lançou nesta semana em defesa da floresta. A iniciativa busca mobilizar escritores e ilustradores do mundo inteiro, que foram convidados a enviar suas criações com a temática da Amazônia para a plataforma digital amazoniachama.com ou amazonshouts.com. O espaço também está aberto para a inclusão de dados de livros, vídeos e trabalhos acadêmicos sobre o assunto.

Idealizado por Volnei Canônica e Roger Mello, criadores do Instituto de Leitura Quindim, localizado em Caxias do Sul (RS), o projeto terá seu acervo disponibilizado para uso público de escolas, bibliotecas, instituições e também para o público em geral.

Já se engajaram na iniciativa artistas como Alfredo Soderguit (Uruguai), Anabella López, André Neves, Ciça Fittipaldi, Daniel Munduruku, Gilles Eduar, Isol (Argentina),  Issa Watanabe (Peru), Ivan Zigg, Javier Zaballa (Espanha), Malfada Milhões (Portugal), Mariana Massarani, Mauricio Negro, Piet Grobler (África do Sul), Ricardo Azevedo, Roger Ycaza (Equador), Rosana Rios, Roseana Murray, Rosinha, Socorro Acioli e Walcyr Carrasco.

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