‘Eu Estou Aqui’: histórias de 12 crianças que deixaram seus países para recomeçar no Brasil
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‘Eu Estou Aqui’: histórias de 12 crianças que deixaram seus países para recomeçar no Brasil

Rosa é angolana e tomou banho com água quente pela primeira vez na vida quando chegou ao Rio. Mariam era apátria e por aqui conseguiu o registro de refugiada. Edwar, venezuelano, foi alfabetizado em português e se apaixonou por feijoada

Bia Reis

30 de setembro de 2019 | 08h00

‘Eu Estou Aqui’, lançamento da Editora Panda Books. Crédito das fotos: Bia Reis/Estadão

Eles fogem das guerras, da fome, da violência urbana. Deixam para trás tudo o que construíram, a família e os amigos e os sonhos, e embarcam rumo a uma terra desconhecida para refazer a vida. Atualmente, 68 milhões de pessoas, migrantes e refugiados, se deslocam anualmente pelo mundo, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU). E, nesse contexto, o desafio não é só de quem migra: é também de quem acolhe.

No Brasil, 3.876 dos 5.570 municípios têm migrantes, refugiados ou pessoas que solicitaram refúgio apenas no ano de 2018, de acordo com informações do IBGE divulgadas na semana passada. Sim, o atual ciclo de migração mundial nos influencia e está cada vez mais perto da gente – e das nossas crianças.

Nas escolas em São Paulo, muitas delas dividem a sala com bolivianos, chineses, haitianos, peruanos, americanos – essas foram as nacionalidades que mais entraram na capital paulista entre 2001 e 2017, indicam dados da Polícia Federal – e, mais recentemente, venezuelanos.

Uma série de livros para crianças e adolescentes sobre o tema vem sendo lançada por aqui nos últimos anos. Tem livros de leitura literária, como Para Onde Vamos, de Jairo Buitrago e Rafael Yockteng (Editora Pulo do Gato); A Chegada, de Shaun Tan (Editora SM); Migrar, de José Manuel Mateo e Javier Martínez Pedro (Editora Pallas) – falei sobre os três em uma coluna para a Rádio Estadão -; e Nina Tem Medo de Palhaço, de Walter de Sousa e Mariana Fujisawa (Editora Kapulama). E outros que abordam a questão contando histórias reais de crianças refugiadas, como Dois Meninos de Kakuma, de Marie Ange Bordas (Editora Pulo do Gato), ou migrantes, como o lançamento Eu Estou Aqui – Crianças que Deixaram seus Países para Começar uma Nova Vida no Brasil, de Maísa Zakzuk (Editora Panda Books). É sobre esse último que vou falar hoje.

Eu Estou Aqui reúne histórias de 12 crianças que migraram com suas famílias e recomeçaram a vida em São Paulo. Algumas vieram da América – Paraguai, Bolívia, Venezuela, Haiti e República Dominicana. Outras viviam na África, em países como Angola, Congo, Marrocos e Líbia. Há ainda uma palestina, uma síria e um sul coreano.

A garota Rosa, que migrou da Angola para o Brasil

Rosa é angolana e conheceu o chuveiro com água quente quando chegou ao Rio de Janeiro com a família, em 2013. Nascida na capital Luanda, a menina estava acostumada a tomar banho no tanque, com água fria. A família logo veio para São Paulo, onde mora na zona leste. Rosa tem uma rotina muito diferente da que teria na sua terra natal. Aqui, vai à escola de manhã e à tarde faz balé, culinária e bordado. Lá, estaria estudando à noite.

A palestina Mariam, nascida em Damasco

Mariam nasceu em Damasco e, por ser palestina, não tinha a nacionalidade síria. Era considerada apátria e morou num campo de refugiados. Migrou para o Líbano com a família e, depois, para o Brasil, onde foi acolhida por outras famílias palestinas. Aqui, conseguiu o registro de refugiada. Seu pai estudava Psicologia, mas não conseguiu concluir o curso e no Brasil trabalha com construção e numa empresa de esquadria.

O venezuelano Edwar, que chegou a São Paulo em 2017

Edwar é venezuelano e chegou por aqui em 2017 com a família. Trouxeram um pouco de dinheiro, roupas, bonecos, farinha panco e queijo cheddar. Ficaram os tios e o gato Misho. A crise econômica enfrentada pela Venezuela fez a família atravessar a fronteira até Roraima de ônibus, em uma viagem que durou dois dias. Depois, embarcaram em um avião até São Paulo. Para ter dinheiro para a viagem, venderam a casa e juntaram dinheiro por seis meses. Edwar foi alfabetizado em português, se apaixonou por feijoada e virou torcedor do Corinthians.

O livro começa com um mapa que mostra de onde vieram as crianças. Ilustrado com fotografias de Daiane da Mata, traz retratos coloridos e em preto e branco dos meninos e meninas. O texto de Maísa é simples e informativo. Em pequenos quadros, a escritora destaca uma particularidade que ajuda os leitores a entender determinado termo ou panorama. Na parte de Rosa, explica o que é guerra civil; no de Mariam, o que é uma nação sem território; no de Edwar, contextualiza o deslocamentos recente dos venezuelanos.

Livro termina com informações gerais sobre migrantes e refugiados

No fim, o capítulo Um Novo País, Uma Nova Casa trata da questão dos migrantes e refugiados de maneira mais ampla, chegando ao que prevê a legislação brasileira, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Convenção sobre os Direitos das Crianças e dos Adolescentes e à Convenção de 1951 relativa ao Estatuto de Refugiados. Tudo de maneira simples, acessível.

O texto de Maísa e as fotografias de Daiane aproximam o leitor das crianças migrantes – elas nos olham nos olhos, despertam empatia. Em tempos sombrios, Eu Estou Aqui é um livro urgente.

Serviço
Eu Estou Aqui
Escritora: Maísa Zakzuk
Fotografias: Daiane da Mata
Editora: Panda Books
Preço: R$ 41,90

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