Clássicos ganham versão em quadrinhos
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Clássicos ganham versão em quadrinhos

Bia Reis

29 de setembro de 2012 | 00h36

A matéria que fiz hoje para o Caderno 2 é sobre literatura em quadrinhos – as adaptações feitas de obras clássicas para a linguagem HQ.

Abaixo, segue uma das entrevistas que fiz para a matéria, com o escritor e roteirista Ivan Jaf, autor do lançamento Dom Casmurro, da Editora Ática. Além de adaptar Dom Casmurro, Jaf transpôs para os quadrinhos histórias O Cortiço, O Guarani, A Escrava Isaura e Memórias de um Sargento de Milícias. Também adaptou obras de Edgar Alan Poe, Julio Verne e E.T.A. Hoffmann, entre outros.

Por que adaptar textos clássicos para a linguagem de quadrinhos?
Um livro não se torna um clássico à toa. No mínimo há nele uma história que penetra forte no nosso imaginário e passa a ser uma tendência natural que ela seja constantemente adaptada pelas novas gerações a novas formas. Mas a melhor resposta a essa pergunta é: Por que não?

Qual é o maior desafio na hora de adaptar para os quadrinhos um texto clássico?
Clássico ou não, no meu caso é manter as intenções do autor. Penso que estou a serviço dele, de seus personagens. Minha regra básica é: posso cortar, mas não posso acrescentar. Adaptações não são espaços para que eu coloque minhas próprias ideias. Para isso tenho meus livros e roteiros originais. Para que isso funcione sem sofrimento basta manter um critério: só adaptar de sua autores e obras que admiro.

Como foi o processo de adaptação? Como foi a parceria com o Rodrigo Rosa?
As parcerias entre roteiro e arte nessa coleção da Ática partem do editor, Fabrício Waltrick, que tem o dom de acertar sempre. Eu e o Rodrigo Rosa já fizemos três HQs juntos e nosso trabalho flui com uma naturalidade espantosa. Ele tem uma habilidade impressionante para mostrar os sentimentos dos personagens olhares, além de acrescentar detalhes e humor em cada quadro. É uma pessoa que claramente gosta do que faz. Mas nada disso daria certo se não contássemos com o amparo dos editores, revisores, diagramadores… Estão todos lá na ficha técnica.

Você acha que a leitura de quadrinhos aproxima o leitor do texto original ou o afasta de vez?
O que afasta de vez o leitor de um autor é o esquecimento. Quando uma obra é adaptada, seja para que formato for, o autor está sendo lembrado e colocado em circulação. Isso fatalmente renovará o interesse pelo que escreveu e fará com que seus originais sejam procurados. Depois de morto vou torcer para que meus livros sejam muito adaptados.

Você acredita que a experiência de leitura seja igual ou diferente?
A experiência de leitura de uma HQ é diferente da de um livro, como é diferente a forma de percebê-lo através de um filme ou uma peça de teatro. Cada justamente essa diferença que se procura usufruir nas adaptações. Essas novas formas de leitura não afetam o original. Ele continuará sempre lá, preservado em seu formato, sem correr nenhum perigo.

A densidade do texto clássico é mantida quando se passa para o quadrinho?
Depende da adaptação e do conceito de densidade. Muitas vezes a densidade está na ideia, ou na atmosfera, e não na sintaxe. É claro que a linguagem o e estilo do autor não pode ser mantidos integralmente em um outro formato, e nem é esse o objetivo da adaptação. Com apenas um desenho se pode mostrar a paisagem que José de Alencar leva cinco páginas para descrever com palavras, mas isso não impede que o leitor a sinta densamente.

O que há de diferente no texto que vc adaptou? Os detalhes são mantidos?
HQ são imagens sequenciais então, apesar de tentar interferir o mínimo possível, sou obrigado a narrar a história original de uma forma diferente, seguindo meu plano de montagem pessoal. Mas nunca coloco personagens novos nem crio situações que não existiam. Quanto aos detalhes, em um livro eles são infinitos, e estão inclusive nas entrelinhas. Muitos deles passam para o roteiro. E o Rodrigo costuma resgatar muitos outros.

Em que aspecto você acha que a nova obra ganha e perde?
Numa adaptação bem feita, só ganha. Conheço os argumentos contra adaptações, mas verifico que eles só se aplicam aos “clássicos” e não a um Tolkien ou a um Harry Porter, por exemplo, ou a qualquer livro atual. Então a dificuldade de aceitar uma adaptação pode estar acontecendo por um excesso de respeito, prejudicial ao juízo, que faz esquecer que Machado de Assis não lançou clássicos no seu tempo. Somos nós que classificamos suas obras assim hoje em dia. Eu só adaptei Dom Casmurro porque tenho certeza que o Machado aprovaria.

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