Cidades, ruas, viadutos, prédios e vizinhos na literatura infantil
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Cidades, ruas, viadutos, prédios e vizinhos na literatura infantil

São Paulo e outras cidades, reais ou imaginárias, são cenários e personagens. A vida corre nos bairros, nas ruas e também nas casas e nos apartamentos. Confira 5 livros deliciosos

Bia Reis

09 de maio de 2019 | 16h00

Crédito de todas as fotos: Bia Reis

Nasci, cresci, vivo, trabalho e respiro São Paulo, esta cidade imensa que se esparrama e pulsa com seus 12,8 milhões de habitantes. São Paulo e outras cidades, reais ou imaginárias, aparecem como cenários, mas também personagens de livros infantis (ou não), feitos para leitores de todas as idades. Nesta caminhada, te apresento cinco livros que adoro e que tratam da minha cidade e de outras também.

Para começar a desvendar esta capital tão insana e diversa, sugiro um passeio pelo livro Prédios de São Paulo Para Crianças, publicado pela Gaps Editora no ano passado. A obra nasceu do desejo dos autores – o designer italiano Matteo Gavazzi, que mora por aqui desde 2010, o ilustrador Daniel Almeida e a jornalista Tatiana Engelbrecht – de aproximar as novas gerações do centro paulistano e de suas histórias. Não é lindo?

Um mapa ilustrado na primeira página dupla do livro identifica e localiza 20 prédios históricos e sugere dois roteiros para quem quer desvendá-los. É uma ótima deixa para caminhar pela região e apresentá-la às (muitas) crianças que (infelizmente) não a conhecem, por inúmeras razões.

Quem guia os leitores pelos prédios históricos é Miro, um cão atrevido e de faro infalível que descobre tudo o que a cidade tem de legal, como ele próprio diz. Ao percorrer as construções, Miro fala de quem é o projeto e quando ele foi inaugurado, conta como chegar e descreve o entorno. Há informações históricas e curiosas. O texto é solto e divertido, e os desenhos – você vai ver! – fisgam os leitores.

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Que tal conhecer o Mosteiro São Bento, o Edifício Martinelli (e a Casa Mathilde, que fica pertinho), o Edifício Altino Arantes (conhecido como Banespão), o Banco Francês e Italiano, o Centro Cultural Banco do Brasil, a Catedral da Sé e muitos outros? Livro para inspirar e, depois, nos fazer caminhar.

E já que estamos no centro histórico, vamos dar um pulo no Elevado João Goulart, que já foi Elevado Costa e Silva, mas é mais conhecido por todos como Minhocão. Aqui, a parada se faz com Um Viaduto Chamado Minhocão, do escritor Gil Veloso e do arquiteto Paulo von Poser, lançado pela editora Dedo de Prosa em 2015.

Com poesia e traços sintéticos, Gil e Paulo apresentam aos leitores essa polêmica estrutura de concreto que modificou profundamente a parte do centro por onde corre: “Para muitos sou estorvo, para outro solução. Derrubar ou tombar? Eis a questão. Quer motivos pra me conhecer? Eis, aqui estão”.

Os autores contam sobre a história do Minhocão, como era e como é, falam dos dias em que vira parque, acolhe criança e adulto, artistas e esportista, vive festa. Há quem vá para correr, para andar de skate ou de bicicleta…

… como A Menina que Parou o Trânsito, livro de Fabrício Valério, com ilustrações de Bruna Assis Brasil, lançado pela V&R em 2016. A história é acumulativa, dessas que se desenrolam com repetições. Nela, Fabrício e Bruna contam o que acontece quando uma menina de bicicleta para o trânsito em uma rua em uma grande cidade.

O guarda apita para a menina, o homem atrasado acelera seu carro, o motorista de ônibus funga, o taxista mal-humorado grita, o motoqueiro apressado acelera… e muitas outras coisas acontecem.

Nas ilustrações, Bruna mistura fotografia e desenho com habilidade ímpar. A cidade parece atual, com suas calçadas e prédios, mas os veículos são antigos. E adoro os detalhes: a dupla de pequenos pássaros pretos que acompanha a menina, o gato que pula na cabeça de uma mulher quando o motorista de ônibus freia, os personagens desenhados em folhas quadriculadas.

A cidade acontece nas ruas, grandes ou pequenas, cheias ou vazias, arborizadas ou cinzentas. E o nosso olhar para elas as definem e também nos definem. Aqui, caminhamos mais um pouco, até chegar à Rua das Amoreiras, na altura do número 52, onde mora o menino Luís Rodolfo, do livro Nunca Acontece Nada na Minha Rua, escrito e ilustrado pela norte-americana Ellen Raskin (1929-1984), lançado no fim de 2018 pela Amelì Editora.

Nunca Acontece Nada na Minha Rua é um livro ilustrado, tipo de obra em que palavras e imagens contam a história e em que é preciso fazer a leitura das duas e interrelacioná-las. E esses são os meus preferidos

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Neste livro, Ellen trabalha com o espaço da página dupla. Em todas elas, Luís Rodolfo aparece sentado na calçada de sua rua e ao fundo estão os casarões com suas escadas e árvores. As imagens, em preto e branco, vão ganhado cores com o virar das páginas e o transcorrer da história.

Por meio das palavras, o garoto sonha com aventuras que, segundo ele, acontecem em outras ruas. Fala de desfiles de bandas de música, casas mal-assombradas, caçadores, leões e tigres ferozes, piratas e tesouros enterrados, índios, monstros e astronautas. Mas em sua rua, diz Luís Rodolfo, é diferente: nada acontece.

As imagens, porém, desafiam o leitor – o que se passa ao fundo é bem diferente do narrado por Luís Rodolfo. Repare nas pequenas histórias paralelas contadas só por meio das imagens – há crianças arteiras pregando peça nos vizinhos, amigas brincando na calçada, o início de um incêndio, com resgate e reforma!, e até um assalto.

E porque a vida nas cidades também ocorre dentro de casa, no espaço privado, chegamos ao ponto final deste post, com o livro Os Vizinhos, da escritora e ilustradora israelense Einat Tsarfati, recém-lançado pela editora Pequena Zahar. Nele, uma criança pequena, com mochila e guarda-chuva de sapo, nos leva para dentro de seu prédio de sete andares.

Com ela, subimos os andares, mas logo na porta já percebemos, pelas caixinhas de correspondência, o quão diferentes são. A primeira porta, cheia de fechaduras, guarda um luxuoso apartamento de ladrões. A segunda, sempre com pegadas de lama, é a morada de um velho caçador e seu tigre de estimação. A terceira, com uma roda do lado de fora, é a casa de uma família de acrobatas.

E assim vamos subindo, encontrando portas e descobrindo (e nos surpreendendo com) seus moradores. Até que chegamos à casa da menina, que em comparação com as outras é tão…

As ilustrações de Einat são fundamentais para a história e são deliciosas, cheias de detalhes a serem explorados pelos leitores em todos os apartamentos.

Agora que cheguei em casa, vou ficar mesmo por aqui.

*

Serviço (em ordem alfabética)

A Menina que Parou o Trânsito
Autores: Fabrício Valério e Bruna Assis Brasil
Editora: V&R
Preço médio: R$ 36 (capa dura)

Nunca Acontece Nada na Minha Rua
Autora: Ellen Raskin
Tradução: Dani Gutfreund
Editora: Amelì
Preço médio: R$ 37 (capa dura)

Prédios de São Paulo Para Crianças
Autores: Matteo Gavazzi, Daniel Almeida e Tatiana Engelbrecht
Editora: Gaps
Preço médio: R$ 80 (capa dura)

Um Viaduto Chamado Minhocão
Escritor: Gil Veloso
Ilustrador: Paulo von Poser
Editora: Dedo de Prosa
Preço médio: R$ 35

Os Vizinhos
Autora: Einat Tsarfati
Tradução: George Schlesinger
Editora: Pequena Zahar
Preço médio: R$ 54,90 (capa dura)

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