Anthony Browne em ‘Vozes no Parque’: uma história e vários pontos de vista
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Anthony Browne em ‘Vozes no Parque’: uma história e vários pontos de vista

Bia Reis

18 de março de 2014 | 15h00

Vozes no Parque, do escritor e ilustrador inglês Anthony Browne, é daqueles livros que dá vontade de ler, reler… e reler de novo. A história, simples – um passeio ao parque -, é contata por quatro personagens, sob diferentes pontos de vista. Mas o mais interessante é como as ilustrações dialogam com o texto. Mais do que ilustrar a narrativa, Browne utiliza os desenhos para mostrar como os personagens enxergam a situação e o que pensam do lugar onde estão e dos animais com os quais interagem.

O livro apresenta duas famílias de gorilas, cada uma composta por um adulto, uma criança e um cachorro. Na Primeira Voz, o narrador é a mãe gorila, que vai ao parque com Carlos, seu filho, e Leopoldina, um cão labrador. Pelas ilustrações, percebemos que mãe e filho moram em uma casa grande e confortável. Parece outono – as árvores têm folhas vermelhas -, e a mãe está bem vestida: usa um longo casaco azul marinho, chapéu vermelho, botas pretas, lenço e colar de pérolas. Assim que chega ao parque, ela tira a coleira de Leopoldina e se queixa da aproximação constante de um vira-lata.

Mãe e filho se sentam em um banco do parque ao lado de um gorila que veste um macacão sujo de tinta e lê jornal. Os dois cachorros brincam e, de repente, a mãe percebe que Carlos não está mais do seu lado. Ela grita, se desespera e diz: “Há tipos assustadores no parque hoje em dia!”. A mãe então vê Carlos conversando com uma criança de “aparência muito malcuidada”, como ela descreve. Chama o filho e Leopoldina, e os três vão para casa em silêncio.

Na Segunda Voz, o narrador é o gorila pai – o mesmo personagem que aparece sentado no banco na primeira história. Ele e a filha, Manchinha, levam o cachorro ao parque. O pai tem a roupa suja de tinta e a família é mais simples. No caminho, os três passaram por um muro em que há dois quadros curiosos – em um deles, Monalisa parece chorar. Há lixo na rua.

Aqui, as árvores surgem sem folhas, e Mary Poppins voa pelo céu. O cachorro corre pelo parque e encontra Leopoldina. O gorila se senta num banco e procura emprego no jornal, quase sem esperanças de achar. No jornal, entre os anúncios, uma representação da obra O Grito, de Edvard Munch, revela angústia e profundo desespero. Chega a hora de ir embora. Manchinha anima o pai, e os dois seguem para casa conversando alegremente.

No caminho de volta, uma flor com grande caule toma o lugar do poste. O mesmo muro da ida aparece pintado, e os personagem saíram dos quadros e agora dançam – Monalisa tem uma rosa vermelha na boca. King Kong e Jane estão no topo de prédio, que agora é preto com luzes multicoloridas e janelas em formato de estrelas e corações. Dezenas de estrelas iluminam o céu e há até uma estrela-cadente.

A Terceira Voz é de Carlos, filho da mãe gorila da primeira história. O garoto conta que estava sozinho em casa, mais uma vez, quando a mãe o chamou para um passeio. Carlos conta que eles encontraram no parque um cachorro simpático, com quem Leopoldina se divertiu bastante. Na imagem, Carlos aparece sozinho, coberto pela sombra da mãe, olhando os cães brincarem. Galhos e postes ganham a forma do chapéu da gorila.

Os gorilas adultos se sentaram na ponta de um banco e as crianças, no centro. Manchinha convida Carlos para escorregar. “Era uma menina, infelizmente, mas fui mesmo assim”, conta Carlos, num comentário típico de meninos da sua idade. Carlos vê Leopoldina e Pedro brincarem como velhos amigos. Em um parque com nuvens acinzentadas, ele e Manchinha passam por esculturas engraçadas.

O contraste entre os dois é nítido. Carlos, mais tímido e desengonçado, usa calça e sapatos sociais, camisa e blusa de lã. Manchinha, mais solta e livre, veste calça jeans, tênis e blusa de lã. O menino então lembra de uma coisa que faz bem – escalar árvores – e ensina Manchinha. A mãe pega os dois conversando e diz que é hora de ir embora. Carlos obedece e se pergunta se Manchinha estará lá da próxima vez.

A Quarta Voz é de Manchinha. A menina conta que pai andava bem chateado, então ficou feliz quando ele a convidou a levar o cachorro, Pedro, ao parque. O parque de Manchinha parece ser o mais colorido: árvores ganham troncos de cores variadas e outras se transformam em grandes maçãs ou morangos. As nuvens são azuladas.

A garota conta que assim que a coleira de Pedro é tirada, ele vai na direção de um cão lindinho. Manchinha se queixa da dona do cachorro, que espanta Pedro, e a chama de chatonilda. Na imagem, a gorila parece enorme, como um monstro. Ela diz que conheceu um garoto, que no início parecia meio bobo e calado, mas depois ficou simpático. Os dois brincam muito e parecem felizes. Carlos dá uma flor para Manchinha, mas sua mãe o chama e ele vai embora, triste. Ao chegar em casa, a filha coloca a flor numa caneca da água e faz um chá para o pai.

A cada voz, Browne acrescenta elementos às histórias anteriores. Ao final, o leitor pode tirar sua própria conclusão sobre o que de fato aconteceu, apesar de o autor ser mais crítico com a postura da mãe gorila. Vejam as ilustrações com atenção: há detalhes incríveis em cada uma das páginas.

História. Nascido em Sheffield, na Inglaterra, Browne estudou na Escola de Arte de Leeds. Recebeu em 2000 o principal prêmio da literatura infantil, o Hans Christian Andersen. Também foi nomeado Children’s Laureate entre 2009 e 2011. Assim como em Vozes no Parque, outros livros do autor trazem gorilas como personagens. Ele costuma dizer que se encanta com o contraste que há entre a força bruta e a gentileza desses animais.

Serviço
Vozes no Parque
Autor: Anthony Browne
Tradução: Clarice Duque Estrada
Editora: Pequena Zahar
Preço: R$ 36,90

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