‘Precisamos de uma leitura que nos aproxime daquilo que está à nossa volta’, defende vencedor do Prêmio Jabuti
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‘Precisamos de uma leitura que nos aproxime daquilo que está à nossa volta’, defende vencedor do Prêmio Jabuti

O paleontólogo Luiz Eduardo Anelli, em parceria com o paleoartista Rodolfo Nogueira, levou a estatueta na categoria Infantil e Juvenil com o livro 'O Brasil dos Dinossauros'

Bia Reis

30 Novembro 2018 | 11h00

Após 15 anos produzindo artigos científicos no Instituto de Geociências na Universidade de São Paulo (USP), o paleontólogo Luiz Eduardo Anelli cansou de escrever apenas para a comunidade científica. Os artigos científicos, admite, são duros e pouco acessíveis para o público em geral. “A gente (os pesquisadores) fala de coisas tão espetaculares, tão lindas, e as pessoas simplesmente não têm acesso, não conseguem ler”, afirma.

Foi neste momento, muitos anos atrás, que Anelli decidiu dar uma guinada na própria história e apostar na divulgação científica para crianças, com foco em seu objeto de estudo: a pré-história brasileira. No meio acadêmico, a decisão foi vista com reserva. Por que um pesquisador de uma das mais renomadas universidades do País deixaria o foco de seu trabalho para escrever para crianças?

Anelli com seu Jabuti/Acervo pessoal

Desde então, Anelli publicou 16 livros, que, estima, venderam cerca de 60 mil exemplares. Seu último lançamento, O Brasil dos Dinossauros (Editora Marte), em parceria com o paleoartista Rodolfo Nogueira, lhe rendeu, no início do mês, o primeiro lugar do Prêmio Jabuti na categoria Infantil e Juvenil, a mais importante premiação da literatura brasileira.

No livro, Anelli e Nogueira apresentam, em ordem cronológica, 27 cenas – começando por O Brasil Antes dos Dinossauros e acabando em A Nova Era dos Dinossauros, passando pelos períodos Paleozoico, Mezozoico e Cenozoico. A estrutura dos capítulos é semelhante: um texto de abertura seguido por uma página dupla que destrincha cena da vez, com ilustrações, mapas, gráficos, fotografias e linhas do tempo em detalhes.

Nesta entrevista, Anelli, de 54 anos, defende que as crianças tenham mais acesso a livros que tratem, como diz, do mundo. “Precisamos de uma leitura que nos aproxime daquilo que está à nossa volta: os animais, as plantas, a nossa riqueza natural”, diz o escritor, graduado em Biologia pela Universidade do Paraná, mestre e doutor pela USP, pós-doutor pela Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e livre-docente pela USP.

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O Brasil dos Dinossauros parece ser o resultado da pesquisa de uma vida. Quando, de fato, ele começou a ser feito e quanto tempo durou a produção?

Em 2010, uma produtora me procurou para fazer um documentário sobre os dinossauros brasileiros. Em 2011 e 2012, nos reunimos e escrevemos 13 capítulos para a televisão. Fizeram produção e procuraram financiamento por um ano, mas não rolou porque era muito caro. Um dia, em 2013, voltando da Serra das Confusões com um amigo dessa produtora, disse para ele: Vamos transformar esse documentário em um livro? Ele topou. Nós contratamos o Rodolfo Nogueira, um super paleoartista, que constrói tudo digital: ele faz ponto por ponto, folha por folha e, depois, cria uma escultura digital 3D em alta definição. Inicialmente seriam 50 figuras, mas estava ficando caríssimo – cada uma custa R$ 2,5 mil. Foi um trabalho que envolveu muita gente. A Ana Paula Picolli (coordenadora editorial) ia me dizendo para explicar melhor um trecho, falava que outras partes estavam sofisticadas demais, apontava o que faltava. Depois, tudo isso caiu na mão do Guedes (Alexandre Guedes de Oliveira, diretor de arte e diagramador), que foi o diagramador. Então o livro foi lançado no fim do ano passado.

Como você define o livro?

É um livro informativo, mas as aberturas que eu fiz para as 27 paisagens brasileiras são como se eu estivesse falando para uma multidão no Morumbi antes de um jogo de futebol, usando outras palavras. As outras duas páginas de cada cenário são uma leitura mais ou menos técnica de cada coisa: por que os dinossauros apareceram, por que eles eram daquele jeito, por que eles sumiram? Mas sempre tem uma abertura muito acessível e muito bonita também. Então, acho que é um mosaico de informação e literatura.

Imagem de O Brasil dos Dinossauros / Divulgação

Ao longo da sua carreira como escritor – são 16 livros publicados no total -, você desenvolveu um importante trabalho de divulgação científica junto a crianças e jovens. Como foi priorizar os livros para o público infantojuvenil em detrimento dos artigos científicos?

Uma vez, o cara que descobriu a cadeia de DNA e ganhou o Prêmio Nobel por isso disse que nada é mais enfadonho e chato do que os artigos científicos. A gente fala de coisas tão espetaculares, tão lindas, e as pessoas simplesmente não têm acesso, não conseguem ler. Eu vou fazer uma prova esses dias na USP (Instituto de Geociências, da Universidade de São Paulo) para a minha livre-docência e estou lendo os artigos (a entrevista foi feita antes da banca, realizada na semana passada). Meu deus, é um negócio! Quem consegue ler isso? Ninguém! Só as cinco pessoas que trabalham com isso. O livro acabou sendo uma mistura: é uma transição que eu faço de sair desse mundo acadêmico e falar com o público fora da universidade. É a fonte da cultura, da construção de um país, que eu estou fazendo nessa minha parte – tem outras pessoas fazendo a sua parte, esta é a minha – de falar para as pessoas: Olha, nós temos uma pré-história, tudo o que o Brasil é hoje, suas florestas, seus relevos, suas paisagens, tudo foi construído num mundo passado, de milhões e milhões de anos atrás. E as pessoas podem saber disso e se apropriar disso, e isso é uma forma de se apropriar do país, de você ter identidade com o lugar que você mora. Você vai para a América do Norte – eu fiz as contas para defender uma tese -, e lá eles têm pelo menos 600 museus sobre a pré-história local. E são aqueles museus enormes! O museu de Utah (nos Estados Unidos) custou US$ 1 bilhão, e é lotado de dinossauros, é um museu dedicado à história da pré-história do Estado de Utah. Os caras se apropriaram, têm milhares de títulos de livros, de documentários. Eu vou visitar as crianças, porque meus livros foram adotados lá, e elas sabem a história geológica de Utah. Você sabe a história geológica do Estado de São Paulo? Onde estamos, há 140 milhões de anos, era o centro do maior e mais seco deserto de dunas do mundo, como as dunas lá do Saara, e aqui dinossauros andavam e deixavam suas pegadas. Nós somos muito aculturados nessa área – e eu me incluo dentro disso, só sei porque sou estudioso da área. Mas temos a chance de conhecer nossa pré-história.

Imagem do livro O Brasil dos Dinossauros

O Brasil dos Dinossauros é um livro para qual público?

É um livro para todo mundo. Além das 27 paisagens, tem 250 figuras. Quando eu abri um livro desses na infância? Ele é super colorido, com bichos enormes, as crianças amam. Tem também informações (mais aprofundadas) para os jovens. E os adultos que compram o livro também amam. Acho que é um livro para todo mundo.

Você tomou a divulgação científica como missão, não é?

Eu tomei como missão transformar as informações científicas em conteúdo e forma acessíveis. Aqui na Geologia da USP, eu estudei durante 15, 20 anos os moluscos do período carbonífero do Norte do Brasil e da Antártica também. Depois de 15 anos, eu olhei as citações aos meus trabalhos – e é assim com todo mundo, não é só comigo – e sete pessoas lerem meu artigo. Eu pensei comigo: Eu posso ser mais útil, eu posso dar um pouco mais à sociedade que me financia. E comecei a escrever os livros e acho que é uma troca. Meus livros são os únicos livros da pré-história do Brasil. Nas escolas, você abre os livros na parte da pré-história e vê os dinossauros americanos, os homens da caverna peludos, com roupa de elefantes peludos, porque lá era frio, é o homem pré-histórico da Europa, e a gente ensina para nossas crianças, para nossas milhões de crianças, a pré-história dos outros. Percebi que poderia ser mais útil à sociedade que me paga para estar aqui. Eu acabei fazendo isso, foi uma trajetória dolorosa, porque eu fui deixando a pesquisa tradicional, um ambiente tradicional. Eu me tornei uma pessoa muito periférica, parecia que eu era invisível, e agora todo mundo reconhece a importância desse trabalho neste Instituto de Geociências, que é um local que fala sobre a história da terra, da vida, e nunca teve vocação para divulgação científica.

Antes de receber o Jabuti, Anelli se deparou com um em plena estrada/Acervo pessoal

Quantos livros você vendeu nesses anos todos?

O Dinos do Brasil (Editora Peirópolis) é meu best seller: vendeu cerca de 40 mil exemplares desde a publicação. O ABC Dinos (Editora Peirópolis) foi adotado no PNLD (Programa Nacional do Livro Didático), todas as escolas de São Paulo receberam ele. Juntando tudo, vendi cerca de 60 mil. Quando fui falar no TED, tinham 10 mil pessoas assistindo. Quando estava na frente, fiquei olhando, pensando: Metade (do público) são 5 mil, metade 2,5 mil, e fui cortando, cortando, até chegar em 600 pessoas. Naquele ano, um livro meu que tinha sido indicado para o Jabuti havia vendido, nas livrarias do Brasil, 600 exemplares. É incrível, né? Esses dias que tem Corinthians e São Paulo, Flamengo e Fluminense, eu vejo os caras dizendo: Nossa, tem 50 mil pessoas no estádio, no Maracanã. Isso é o que eu vendi de livros em 15 anos! As pessoas pagam caro pelos ingressos e em uma tarde lotam o estádio. É um retrato estranho de se ver: em uma tarde no estádio você reúne mais gente do que o número de livros que vendi na carreira toda.

E qual é a saída?

Precisam ser feitos programa de incentivo à leitura, precisamos estar nas escolas. Outra coisa que acho importante é que os cientistas precisam escrever os seus livros. Não adianta gente que não é cientista ficar escrevendo sobre dinossauros. A gente quase não tem literatura sobre o espaço, sobre mudanças climáticas, sobre nossa fauna e nossa flora para as crianças. Os cientistas podem escrever livros legais, curiosos, que tratem das nossas riquezas naturais, e isso temos muito pouco. Falta incentivo à leitura, programas do governo, programas com os autores, os novos autores. Temos aquela grande nave-mãe dos autores que faz uma sombra sobre um mundo inteiro. Eles fazem literatura ótima, ficcional, mas acho que nós também precisamos de uma leitura que nos aproxime daquilo que está à nossa volta: os animais, as plantas, a nossa riqueza natural. Sabe, cada árvore tem um nome. Nos Estados Unidos, as pessoas não falam “parei meu carro ao lado de uma árvore”, elas dizem “eu estacionei meu carro ao lado de um sicômoro”. Falta uma literatura que nos ajude a decifrar o mundo, a natureza.

E agora, com o Jabuti nas mãos, quais são os próximos passos?

Agora eu e a Celina (Boddenmuller, sua mulher) vamos passar uns meses numa fazenda nos Estados Unidos escrevendo, fazendo uns livros sobre arqueologia, sobre a história do mundo desde a formação do sistema solar. São livros para várias editoras. No começo do ano lançaremos pela Bamboozinho um livro sobre dinossauros para bebês, o Bebê Dino.

Capa do livro

Serviço

O Brasil dos Dinossauros
Autores: Luiz Eduardo Anelli e Rodolfo Nogueira (paleoartista)
Direção-geral e concepção: Edoardo Rivetti
Direção de projetos: Marcelo Arantes
Coordenação editorial: Ana Paula Piccoli
Direção de arte e diagramação: Alexandre Guedes de Oliveira
Pesquisa iconográfica: Tempo Composto
Tratamento de imagem: Robson Mereu
Ilustrações: Pietro Antognioni (de apoio) e Estúdio Gráfico (linhas do tempo)
Produção gráfica: Marcos Borges e Sérgio H. Almeida
Editora: Marte
Preço: A partir de R$ 149