No Dia Nacional do Livro Infantil, conheça 15 obras brasileiras incríveis!
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No Dia Nacional do Livro Infantil, conheça 15 obras brasileiras incríveis!

Entre os escolhidos há prosa e poesia, livro ilustrado, livro-imagem e também informativo. Na lista estão obras que tratam de medos, falam da infância, resgatam histórias clássicas e abordam questões importantes, entre outras

Bia Reis

18 de abril de 2019 | 06h00

18 de abril é o Dia Nacional do Livro Infantil! Para festejar a data, escolhi 15 livros feitos para crianças e jovens – mas não só para eles, para todo mundo que gosta de literatura :o) – por escritores e ilustradores brasileiros contemporâneos.

Procurei variar bastante. Há prosa e poesia, livro ilustrado (tipo de obra em que texto e imagem narram a história), livro-imagem (aqueles que contam a história apenas com imagens) e livro informativo. Na lista estão livros que tratam de medos, que falam da infância, que resgatam histórias clássicas e que abordam questões importantes, entre outros. Também listei intencionalmente autores importantes e conhecidos no universo da literatura infantil e juvenil brasileira, mas que dificilmente figuram na lista dos mais vendidos.

O que os 15 livros têm em comum? Texto, ilustração e projeto gráfico incríveis!

Abaixo, você encontrará uma resenha do livro citado, com informações sobre o (s) autor (res), editora e preço médio, que, sim, pode variar bastante dependendo do lugar onde você esteja. Há também duas imagens: da capa e de uma página interna, para você conhecer um pouco mais sobre a obra.

Por fim, uma última observação. Livro não tem idade! Crianças de todas as idades e adultos podem curtir a leitura, mergulhar na história e se apaixonar pela literatura brasileira.

Ah se você quiser saber por que 18 de abril é Dia Nacional do Livro Infantil, clique aqui.

Vamos nessa?

** Crédito de todas as fotos: Bia Reis

ESTANTE DE LETRINHAS
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ABCDinos
Escritores: Celina Bodenmüller e Luiz E. Anelli
Ilustradora: Graziella Mattar
Editora: Peirópolis
Preço: R$ 38 (capa dura)

A primeira coisa que chama a atenção em ABCDinos projeto gráfico – é um livro quadrado, pequeno, desses que dá para levar para qualquer lugar. Tem capa dura e um papel mais grosso. Uma lindeza.

Como o próprio nome sugere, este livro traz uma relação com o alfabeto – apresenta uma série de dinossauros em ordem alfabética. As informações sobre eles são garantidíssimas: Anelli é paleontólogo. Criador da Oficina de Réplicas da Universidade de São Paulo (USP), se dedica a produzir material didático na área de paleontologia.

O leitor descobre cada dino por meio de uma estrofe de poema. O livro mistura poesia com informação. Ao fim de cada página dupla, onde há o poema e a ilustração do dino, existe um pequeno texto explicativo sobre a espécie em questão.

Os desenhos de Graziella Mattar são divertidos e coloridos. No final, há um mapa do mundo com a localização de todos os dinos relevados, e três deles são brasileiros.

 


Abrapracabrasil!
Autor: Fernando Vilela
Editora: Brinque-Book
Preço médio: R$41,30

Misture uma cabra, um jacaré e uma lâmpada mágica. Você imagina o que pode acontecer?

Para o artista plástico e autor de literatura infantil Fernando Vilela, cabra, jacaré e lâmpada mágica deram um livro: Abrapracabrasil!

A história é uma continuação de um outro livro do Fernando, o Abrapracabra!, em que cabra e jacaré viajam pelo mundo. Agora, os dois amigos partem em uma viagem pelo Brasil, explorando cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Recife e lugares como Inhotim, o museu de arte a céu aberto em Brumadinho, Minas Gerais, e uma aldeia indígena na Amazônia.

Fernando, que escolheu lugares que já conheceu e que lhe encantaram profundamente, escreveu a história em forma de poesia e de um jeito muito engraçado.

Para fazer as ilustrações, o autor trabalhou com várias técnicas. Fez os desenhos com lápis e uma tinta preta chamada nanquim. Também usou a xilogravura, uma técnica de impressão antiga, e carimbos. Depois, no computador, ele aplicou as cores.

 


A Caligrafia de Dona Sofia
Autor: André Neves
Editora: Paulinas
Preço médio: R$ 42,50

“Dona Sofia era uma professora aposentada que durante toda a vida se dedicara a ensinar. Ela conhecia os segredos, os sonhos, as sensações e as emoções que as palavras dos poetas despertam no coração de cada um. Agora, cultivava flores em seu jardim, para serem vendidas na cidade, garantindo assim algum dinheiro, além do que recebia de sua fraca aposentadoria. Sentia-se feliz ligando com as flores, e mais ainda quando abria um livro e mergulhava em suas letras. Lia romances, contos, crônicas e, principalmente, poesias.”

A Caligrafia de Dona Sofia é uma história clássica nas salas de aula das crianças que estão em processo de alfabetização. Mas é também muito mais do que isso. É um texto que trata a escrita com poesia e afeto, muito afeto, uma história construída com palavras e ilustrações por André Neves, um dos grandes autores brasileiros.

Como o trecho acima diz, Dona Sofia é uma professora aposentada. Ela mora no alto de uma colina e tinha uma casa diferente de todas as outras: as paredes eram decoradas, de cima a baixo, com poesias! Sofia tinha uma linda caligrafia e escrevia versos na sala, no quarto, na cozinha, no banheiro e onde mais tivesse um espacinho.

Um dia, quando não havia mais um lugar sequer para escrever, Sofia começa a fazer cartões poéticos decorados com flores para distribuir para os moradores de sua cidade. Neles, escrevia versos de seus poetas preferidos.

Quem entregava os cartões era Seu Ananias, o único carteiro que havia por ali. Certa vez, Sofia escreve um cartão para Ananias, que se surpreende: “Quem já viu? Escrever uma carta para o próprio carteiro!”. Ananias é apresentado, então, a Casimiro de Abreu. Sofia volta a escrever para o carteiro, que se encanta com as poesias, e, nas visitas à professora aposentada, passa a ler tudo o que encontra pelas paredes.

Esta aberta a porta da curiosidade, do interesse! Sofia aproveita a deixa e apresenta novos poetas. E lhe dá um caderno de caligrafia – o carteiro já havia confidenciado que sua letra era muito feia. Questionada sobre o segredo de ter uma caligrafia tão linda, ela responde sem titubiar: “É preciso praticar bastante, mas além de uma letra bonita, o mais importante é compreender o sentido do que escrevemos. Aí fica fácil. Quando queremos, seu Ananias, podemos criar coisas lindas, de quem nem imaginávamos ser capazes!”.

Ao longo das páginas, André introduz seus leitoras num universo de poetas e escritores. Estão lá textos de Fernando Pessoa, Gonçalves Dias, Bartolomeu Campos de Queiroz, Goethe, Leo Cunha, Roseana Murray, Garcia Lorca, Cruz e Sousa e muitos outros.

 


A Cozinha Encantada dos Contos de Fadas
Autora: Katia Canton
Estampas: Juliana Vidigal e Carlo Giovani
Editora: Companhia das Letrinhas
Preço: R$ 49,90

Na cesta de Chapeuzinho Vermelho havia bolo e vinho, ou biscoitos e manteiga, dependendo de quem conta a história. Pele de Asno se revelou princesa ao esconder uma joia real dentro de um bolo. Barba Azul, para seduzir as mulheres com que casava – e que matava depois –, costumava servir deliciosas receitas. Já a Pequena Vendedora de Fósforos sonhava com uma ceia de Natal que nunca pode experimentar.

Vocês já perceberam como os contos de fadas estão ligados à comida? Essa relação tão íntima entre histórias e alimentação é o eixo do delicioso A Cozinha Encantada dos Contos de Fadas, da escritora e artista plástica Katia Canton.

Pesquisadora dos contos de encantamento, Katia conta na introdução do livro que antigamente a vida era muito difícil e, por isso, os camponeses criavam histórias orais para “entreter, encantar e fazer sonhar”. A luta pela sobrevivência, por segurança, comida e abrigo era constante. Era comum, por exemplo, que os pais tivessem de escolher quais filhos criar e abandonassem os demais, como em João e Maria. Mas, na hora de inventar o desfecho para a trágica história, havia magia, e as crianças encontravam uma casa feita de doces e acabavam com a bruxa má.

Em A Cozinha Encantada dos Contos de Fadas, Katia escolheu 16 histórias escritas pelo francês Charles Perrault, no século 18, pelos irmãos Grimm, na Alemanha, e pelo dinamarquês Hans Christian Andersen – ambos no século 19. Além de contá-las e apresentar as diferenças que existem entre as versões dos diferentes escritores, Katia escolheu receitas que se relacionam com as histórias. Para Chapeuzinho Vermelho, ela mostra como fazer um milk-shake de morango e pãezinhos de queijo; para Pele de Asno, bolo de brigadeiro; para Cinderela, salada de frutas requintada; para o Gato de Botas, salmão real com batatas assadas, etc.

Cada capítulo é aberto por uma estampa diferente, que remete ao conto, delicado trabalho de Juliana Vidigal e Carlo Giovani. Além de escrever, Katia fez as ilustrações dos personagens e do preparo das 23 receitas que acompanham as histórias. Repare também nos detalhes: pequenas colheres marcam o número das páginas, bordas coloridas enfeitam cada capítulo.

 


A Raiva
Autores: Blandina Franco e José Carlos Lollo
Editora: Pequena Zahar
Preço médio: R$ 54,90 (capa dura)

Em A Raiva, Blandina Franco e José Carlos Lollo falam desse sentimento tão comum e que, muitas vezes, foge do controle, não é? No livro, a raiva começa pequena, como uma coisa à toa, quase sem motivo. Mas ela começa a crescer, a se alimentar de outras coisas e a se incomodar com tudo.

“Até que tudo, tudo mesmo, alimentava aquela raiva. Se as pessoas estavam dançando ou se estavam sentadas conversando. Se estavam apaixonadas ou se praticavam algum esporte.”

Um dia, a raiva sai totalmente do controle e…

Nas ilustrações, a raiva é concreta: uma pestinha vermelha que toma corpo e forma. Os outros desenhos são em preto, branco e cinza, um contraste muito legal.

 


Bichológico
Autora: Paula Taitebaum
Editora: Piu
Preço médio: R$35 (capa dura)

“Era uma vez um gato chinês. Era uma vez um gato chinês. Com olhos bem azuis porque era siamês. E orelhas levantadas em sinal de altivez. Era uma vez um gato chinês vampiro. Com bigodes longos como um longo suspiro. E sobrancelhas vermelhas de tanto dar espirro.”

Em Bichológico, primeiro aparece o gato chinês, depois o macaco português, o elefante holandês, o cão polonês e, por fim, o coelho escocês. Para cada um desses bichos, Paula Taitebaum conta uma história, em forma de poema, e cria desenhos com formas geométricas recortadas e coladas.

O tal do gato chinês tem bigodes longos e sobrancelhas vermelhas de tanto espirrar, mas vira um caipira com nariz que parece alvo de mira e uma franja pontuda cor de safira.

O texto tem ritmo e bom humor!

Quer que eu desmanche e conte outra vez?

 


Carvoeirinhos
Autor: Roger Mello
Editora: Companhia das Letrinhas
Preço médio: R$49,90 (capadura)

“A casa do menino não é uma casa. Quem disse que era? É um forno grande, redondo.
A minha casa é redonda, mas fica de cabeça pra baixo, presa na telha. Fiz a arquitetura dela girando a parede em volta do compasso do meu corpo. Foi sim, fiz com barro e saliva. A minha casa não é pra mim. É um ninho onde eu guardo um ovo, meu menino marimbondo.”

Em Carvoeirinhos, o narrador – um marimbondo – se depara com o personagem principal – um menino que trabalha numa carvoeria – no tanque de beber água. É ali que travam o primeiro contato, e a partir daí, o marimbondo passa a contar o que vê.

O inseto vê uma sequência de casas quase infinitas onde se coloca lenha para pegar fogo e virar carvão. Apesar de menino, ele já trabalha. Com as mãos pequenas, mistura barro e suor, e espreme a mistura nas paredes do forno. Me encanto com o jeito poético como Roger escreve (e descreve): “Lá dentro, o fogo se espreme, brigando com o barro molhado e brigando com a mão do menino. Só depois vou entender que não somos tão parecidos, eu e ele. A minha casa guarda um ovo, a casa dele abraça o fogo”.

Ao mesmo tempo em que narra suas próprias experiências e desafios, como a procura de uma lagarta para alimentar seu ovo, o marimbondo acompanha o menino e descreve seu trabalho e suas dificuldades, como quando precisa fugir dos fiscais.

O texto de Roger é poético, sensível e ritmado e as ilustrações, um deleite pra quem gosta de arte! O preto e o cinza dão o tom da história, que é entrecortada pelo rosa e pelo laranja fluorecentes, quentes como o fogo. No meio da história, páginas recortadas retratam a velocidade da brasa que vira fagulha, faísca, flama, língua labareda, incêndio e fogaréu. Surpreenda-se!

 


Coisa de Gente Grande
Autora: Patricia Auerbach
Editora: Sesi
Preço: R$ 44 (capa dura)

Coisa de Gente Grande é um livro pequeno, que cabe nas mãos, mas trata de um assunto importante: a infância. Nele, Patricia Auerbach solta palavras e faz associações com imagens de forma criativa e sensível. Mas, ao contrário do que o nome da obra sugere, os desenhos se referem ao universo infantil. Para “lugares”, Patricia aponta duas crianças escondidas numa caixa; para “canções”, uma festa de aniversário; para “bagagem”, uma mala de escola, e assim por diante. É poesia, em forma de texto e imagens.

 


Este é o Lobo
Autor: Alexandre Rampazo
Editora: DCL
Preço médio: R$ 27

Quer medo infantil mais universal que o do lobo? Ele costuma aparecer quando a criança tem por volta de 3 ou 4 anos e com algum frequência vem acompanhado de uma certa admiração. Foi justamente este personagem tão temido que o autor Alexandre Rampazo escolheu para protagonizar Este É o Lobo.

Com frases simples e curtas, Rampazo apresenta seu lobo várias vezes, intercalando com outros personagens que habitam os contos de fadas, como Chapeuzinho Vermelho, os Três Porquinhos e o caçador. Eles entram e logo desaparecem, deixando um vazio, um espaço, para o leitor preencher. Está criada a tensão.

O livro tem um projeto gráfico especial: é vertical. Traz na capa um lobo sério, grande e peludo, que encara o leitor. Os personagens ocupam o centro das páginas em branco. Rampazo trata da solidão que o lobo sente em decorrência do medo que os outros sentem dele. O “detonador” da história, conta o autor, foi um desenho que seu afilhado, Mateus, fez de um lobo que comia um menino. E se o lobo em vez de comer o menino só quisesse um pouco que atenção? Rampazo fala do lobo, mas também dos nossos medos e estigmas que colocamos sobre os outros.

 


O Alvo
Escritor: Ilan Brenman
Ilustrador: Renato Moriconi
Editora: Ática
Preço médio: R$ 49

Em O Alvo, o escritor Ilan Brenman e o ilustrador Renato Moriconi recontam um conto antigo, que remonta à comunidade judaica europeia, sobre a arte de contar histórias.

Numa pequena cidade da Polônia, no século 19, havia um velho professor que ensinava a quem quisesse aprender e que era procurado por toda a comunidade em busca de conselhos. As pessoas relatavam suas dificuldades e o mestre respondia às questões com uma história. Impressionava como a história sempre casava com o problema ou a dúvida levantada pelo sofredor.

Um dia, seus alunos perguntam como ele fazia para sempre contar a história certa no momento certo. Sábio, o professor responde com uma história, sobre um jovem que passara anos treinando arco e flecha até que, num campeonato, encontra um cercado de madeira com mais de cem alvos – todos com uma flechada bem no centro, na pontuação máxima. Como isso era possível?

O desfecho é lindo, faz pensar e nos deixa com vontade de reler o livro.

As ilustrações e o projeto gráfico são incríveis, super originais! O livro tem um buraco (um buraco mesmo!), que remete ao alvo. Em cada página dupla, Renato usa o buraco para compor seus desenhos.

 


Olavo
Autor: Odilon Moraes
Editora: Jujuba
Preço médio: R$ 39 (capa dura)

“Olavo era um menino triste.
Não por algo que lhe faltasse, nem qualquer chance perdida.
Olavo era simplesmente triste,
Como outros são felizes com a vida.”

É assim que Odilon Moraes apresenta Olavo, o menino protagonista dessa história. Numa manhã, Olavo é surpreendido por um pacote na porta de casa. De onde vinha? Quem tinha mandado? Por que estava lá? O que era? Não havia nenhuma informação.

O surgimento do pacote na porta de casa traz outra perspectiva para Olavo. Seu coração bate forte, seu corpo fica leve, o menino explode de contentamento. E o pacote continua fechado.

Quem nunca sentiu uma alegria tão grande que não se achava merecedor?

Olavo é um livro ilustrado, objeto em que tanto o texto quanto a imagem são responsáveis por construir a história. Aqui, tem coisas que Odilon conta com as palavras e outras, com as ilustrações. Então é preciso ler as duas e relacioná-las, uma delícia!

 


O Barco dos Sonhos
Autor: Rogério Coelho
Editora: Positivo
Preço médio: R$43,90

Livro-imagem ou HQ? Aqui está um livro difícil de categorizar!

De um lado, há um velho de óculos, bigodes brancos e chapéu. Ele mora numa casa pequena, bagunçada, recheada de mapas, num litoral qualquer. Ao seu redor existem pássaros. Do outro lado, há um menino de cabelos pretos e tênis. Ele também mora numa pequena casa, e em seu quarto existem barcos, globos terrestres, livros e um gato. Um oceano separa os dois, e garrafas lançadas ao mar e cartas os aproximam. Tão distantes e, ao mesmo tempo, tão próximos.

Os desenhos de Rogério Coelho são incríveis, dão um tom onírico à história e lançam uma série de questionamentos para o leitor. A comunicação entre velho e menino é sonho ou realidade? O tempo em que eles estão é o mesmo? Os dois são avô e neto ou passam a se conhecer por meio das correspondências?

A história pode ser dividida em três partes. A primeira, centrada no velho, apresenta em volta dos quadrinhos linhas curvas, como as ondas do mar, com predomínio do sépia. A segunda, focada no menino, tem linhas retas, concretas, sintonizadas com os prédios da cidade que representa. Aqui, a supremacia é de um azul melancólico. No desfecho, Coelho trabalha com as páginas duplas e as duas cores – sépia e azul – estão presentes.

 


Orie
Autora: Lúcia Hiratsuka
Editora: Pequena Zahar
Preço: R$ 54,90 (capa dura)

Orie, da escritora e ilustradora Lúcia Hiratsuka, é delicadeza pura em forma de livro. Delicadeza na história, no jeito de contá-la, no ritmo, nos desenhos.

Orie é a avó materna de Lúcia que imigrou para o Brasil no começo do século passado, quando tinha cerca de 20 anos. Viveu no País por mais de 80 anos e acostumou-se à vida por aqui. Gostava de fazer café e misturar a comida brasileira à japonesa. Nunca voltou à vila onde nasceu e passou os primeiros anos da infância e a adolescência. Orie morreu em 2007, aos 104 anos.

Da avó, a escritora herdou o gosto por contar histórias. Ela ensinava lendas japonesas e falava de sua vida no Japão. Foi uma das histórias da avó menina que Lúcia transformou em livro.

Na obra, Orie balança no barco para chegar à cidade com os pais, que trabalham com transporte de produtos. Ela sente o chacoalhar do rio e vê o vai e vem dos peixinhos e do remo de bambu que os ajuda a se deslocar na água. Orie se sente feliz entre os braços fortes do pai e os olhos macios da mãe. “O barco parece um ninho. Pai, mãe, Orie, que nem passarinho”, descreve Lúcia. A cidade está cheia de gente de vários lugares.

“Hora de olhar gente. Roupa, cabelo, calçado.
Hora de ouvir barulho. Trombeta, conversa, passos.
Hora de sentir cheiro. Fritura, perfume, fumaça.
Hora de brincar. Bola, peteca, máscara.”

No retorno, o cansaço faz a menina perceber o quão duro é o chão do barco, o quão comprido é o rio em que navega. O barco passa por uma ponte e, do alto, uma moça lança um lenço amarrado em laço. O fato, verdadeiro, é das histórias que Lúcia mais se lembra da avó contar. Gostava de detalhes, os guardava na memória.

E o barco continua indo e voltando, indo e voltando, indo e voltando…

A delicadeza do livro está no barco e no que ele tem de simbólico, no papel craft utilizado e na técnica empregada – o sumiê. “A ideia do craft veio por causa da terra, que me lembra a infância, por ter crescido em um sítio. Ele dá a sensação de aquecer”, contou a ilustradora na época do lançamento do livro, em 2014. A cor do papel faz branco e preto parecerem querer saltar das páginas. “Já o laranja, o amarelo e o azul ‘respiram’ a cor do craft.” Para os desenhos, Lúcia usou carvão, lápis carvão, grafite e pastel.

O livro recebeu o selo altamente recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) em 2015, foi premiado no ano seguinte pela própria Fundação, ganhou o Jabuti e também o Prêmio Crescer.

 


Plantou Palavra, Colheu Poesia
Escritora: Socorro Acioli
Ilustradora: Meg Banhos
Editora: Armazém da Cultura
Preço: R$ 42

As palavras que a escritora Socorro Acioli escolhe vêm do fundo da alma – bem do fundo, não há dúvida. São simples, diretas, profundas e transbordam emoção. Plantou Palavra, Colheu Poesia é prova disso.

Nele, Socorro narra a história de Francisco e Antônio. Francisco, conta a escritora, era o mais velho de uma grande família que saiu de longe, num trajeto quase sem fim, até aportar em Assaré. Antônio, morador do local, conhece Francisco e seu pai, também Francisco, nas indas e vindas do trabalho.

Antônio sabe que os dois deixaram um lugar distante em busca da felicidade e decide ajudá-los a encontrá-la. Convida, então, pai e filho para uma reunião em sua casa, para escutar versos e viola. As palavras de Antônio emocionam Francisco e mudam sua vida para sempre.

“Escutar a voz de Antônio fez o coração de Francisco bater forte por causa daquele jeito de dizer as coisas, como se fosse música. Era Antônio, arrumando as palavras, uma depois da outra, falando da vida de outro jeito. Do gado no pasto, da seca, da fome. Dos retirantes que saíam de casa indo sem saber para onde. Era poesia. Os versos de Antônio eram um espelho onde todos se viam mais fortes. Francisco, emocionado, queria entender a mágica daquela noite. Como é que se faz poesia?”

Encantado, Francisco inicia uma jornada em busca de uma resposta.

A escritora entregou para Plantou Palavra, Colheu Poesia referências de sua história. Para Antônio, deu suas lembranças de ouvir repentistas, inventando rimas de improviso, quando criança. E homenageia – de maneira não muito exposta, mas sugerida, como ressalta – Antonio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré.

Outro homenageado é o escritor João Cabral de Melo Neto e seu Catar Feijões. “Francisco olhava os grãos. Fazer poesia deveria ser algo parecido: escolher as boas palavras, tocar com as mãos, aquecer, temperar. E alimentar a alma”, escreve.

A caprichosa edição traz ilustrações de Meg Banhos, que revelam a visão e os sentimentos de Francisco. São feitas com recortes e colagens fotografadas. Em perfeita harmonia.

 


Vovó Veio do Japão
Autoras: Janaina Tokitaka, Mika Takahashi, Raquel Matsushita e Talita Nozomi
Editora: Companhia das Letrinhas
Preço médio: R$ 49,90

Quatro estações, quatro histórias e quatro receitas. Assim é Vovó Veio do Japão, escrito e ilustrado por quatro talentosas autoras de descendência japonesa. Neste livro, cada uma conta uma história inspirada em sua avó, com referências a uma estação do ano, recheada por afeto e culinária.

Ilustração de Janaina Tokitaka

Mika Takahashi assina Rio de Macarrão no Verão, em que conta sobre uma briga que teve com a irmã enquanto fazia origamis ensinados pela avó. É durante uma refeição, e sob os olhos da avó, que as duas selam as pazes. Talita Nazomi retrata Outono Colorido, em que fala de chá e um álbum recheado de folhas. Janaina Tokitaka escreve e ilustra Dia de Inverno com Iámen, em que descreve como a avó pedia sua ajuda para cozinhar e ao mesmo tempo entretê-la. Por fim, Raquel Matsushita faz Primeira Primavera, em que relembra um dia de brincadeira com o irmão na casa da avó seguido por histórias.

Adorei as ilustrações. Elas trazem, claro, o traço de cada artista, mas também formam um conjunto harmônico, coeso. É de encher os olhos!

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