A caçada a Woody Allen

A caçada a Woody Allen

Como entender o sentimento anti-Woody Allen que vai se consolidando no cinema americano? Jeffis Carvalho e Miguel Forlin analisam o caso.

Estado da Arte

26 Janeiro 2018 | 12h01

Por Jeffis Carvalho e Miguel Forlin

O macarthismo – famigerado movimento político nos anos 1950 que deu origem à “caça às bruxas” de artistas do cinema americano acusados de serem comunistas ou simpatizantes – acabou em 1957, mas suas consequências nefastas ainda foram sentidas por mais de uma década. O Código Hays, implantado em 1930 pelos próprios produtores de cinema para regular a conduta de comportamento moral nos filmes de Hollywood – leia-se autocensura – foi implodido simbolicamente em 1967, com o lançamento de Uma Rajada de Balas (Bonnie & Clyde), de Arthur Penn.

Cinquenta anos depois, Hollywood reedita uma caça às bruxas e, ao mesmo tempo, aplica uma espécie de novo Código Hays. Se este estabelecia como deveriam se comportar os personagens nos filmes, agora, na sua nova versão, impõem-se normas de conduta para os próprios artistas em suas vidas pessoais. Se naquele os acusadores passaram à história como pessoas infames por sua covardia, agora as delatoras automaticamente ganham as páginas de jornais e sites e são aclamadas como heroínas, tornando muitas vezes indiscerníveis as necessárias denúncias de casos de assédio e intimidação no ambiente profissional de paranoias e fracassos pessoais e amorosos.[1] Resultado: perseguição, censura, condenação pública e banimento.

O que é a indicação preliminar, e em várias categorias, de Roda Gigante, o último e grande filme de Woody Allen, ao Framboesa de  Ouro – o jocoso prêmio aos piores do  ano no cinema, senão um resultado direto dessa onda? O que são as doações de cachês de atores e atrizes que com ele trabalharam recentemente a movimentos como o “Time’s Up”, deflagrado após o sucesso da campanha nas redes sociais #MeToo – dois bem-vindos movimentos contra assédio sexual de atrizes? Atores e atrizes que antes se sentiam privilegiados quando escolhidos para atuar nos filmes do cineasta agora protestam de forma ridícula, chegando mesmo a pedir desculpas ao público por trabalharem com Allen? Tudo isso porque tomam como fato a acusação de abuso que teria sido cometido pelo cineasta – acusação que foi descartada como infundada tanto pelo New York State Child Welfare quanto pela Child Sexual Abuse Clinic of the Yale-NewHaven Hospital – feita por sua filha adotiva Dylan Farrow e sua ex-mulher Mia Farrow durante o traumático processo de separação dos dois em 1992.[2]

Vivemos tempos estranhos. Talvez, tempos muito, muito sombrios para a arte e para a vida. Quando estourou o escândalo das denúncias de assédio contra o produtor Harvey Weinstein – e, na esteira dele, as acusações envolvendo Kevin Spacey – o próprio Woody Allen alertou para que se tomasse cuidado com o perigo de se promover uma nova caça às bruxas, declaração pela qual foi logo cobrado a dar explicações.

Uma coisa são histórias de assédio, intimidação e chantagem denunciadas por mais de uma dezena de atrizes  contra Harvey Weisntein, e corroboradas por várias outras. Outra bem diferente é passar, de repente, a se acreditar em todas as acusações contraditórias contra Woody Allen desde sua rumorosa separação de Mia Farrow e seu envolvimento e posterior casamento com Soon-Yi Previn, a filha adotiva de Mia e seu ex-marido, o maestro francês André Previn.

Pesam acusações de assédio das atrizes que trabalharam com o cineasta? Há histórias de abuso ou constrangimentos nos bastidores de seus filmes? Houve, em algum momento, alguma outra denúncia, como sói ocorrer com abusadores? A resposta é não. E, no entanto, Woody Allen, torna-se uma persona non grata no cinema americano (há riscos reais de que seu novo filme seja engavetado pela Amazon, por exemplo). Em vez do Oscar, um grande filme como Roda Gigante quase concorreu ao prêmio de pior do ano. E Woody, em sua trajetória em Hollywood, pouca gente se dá conta, tem mais indicações pessoais ao prêmio da Academia do que a recordista entre as atrizes Meryl Streep. Sob sua direção, cinco atrizes foram premiadas com o Oscar. Diane Keaton (Annie Hall) e Cate Blanchet (Blue Jasmine) na categoria de melhor atriz; Dianne Wiest (duas vezes, Hannah e suas irmãs e Tiros na Broadway), Mira Sorvino (Poderosa Afrodite) e Penélope Cruz (Vicki Cristina Barcelona) na categoria de melhor coadjuvante.  Atrizes que interpretaram grandes personagens femininas, papeis escritos por Allen com toda complexidade da alma feminina. As mulheres de Allen, em seus filmes são figuras poderosas – ou que se descobrem poderosas no final dos filmes – e complexas.

A celeuma colocando a vida de Woody Allen naquela curva que cruza a sua persona privada com sua obra artística e seus filmes – ponto que nos interessa aqui – é também, e principalmente, resultado de um controverso ensaio publicado pelo jornalista Richard Morgan no The Washington Post. Morgan teve acesso ao farto material doado pelo cineasta à Princeton University (o qual contém inúmeros textos e ideias que foram se acumulando ao longo dos anos). No infame artigo que escreveu sobre o cineasta, não só cometeu um erro amadorístico de análise crítica ? confundindo a persona com sua obra e processo criativo ? como também fez o absurdo de reduzir todos os filmes de Allen (são mais de 50) a uma constante “objetificação das mulheres”.

Em suas próprias palavras: “O filme que ele está montando agora, A Rain Day In New York, sobre um triângulo amoroso de pessoas com idade de faculdade, poderia se chamar, como qualquer um dos seus filmes, Uma Mulher é Objetificada Por um Homem”. Nos arquivos, também há uma série de anedotas e escritos que, apesar de se tratarem de descrições literárias e piadas (sim, Allen sempre foi um comediante), sob a ótica excessivamente sensível de Morgan, são provas incontestáveis de sua misoginia e obsessão por garotas adolescentes.

O que realmente chama atenção é a afirmação de que todos os filmes do diretor contêm uma objetificação da mulher. Nessa análise reducionista e pseudo-psicológica, Morgan esquece que Allen é um artista cuja filmografia está repleta de temas que fogem completamente do assunto (como Deus, religião, identidade, filosofia etc.) e que mesmo nos longas em que relacionamentos com mulheres mais jovens são uma realidade, objetificação é o que menos existe.

Em Manhattan, por exemplo, a personagem Tracy, interpretada por Mariel Hemingway, é uma adolescente que atrai o protagonista em razão de sua vitalidade e juventude, características que se opõem ao pessimismo e rabugice de Isaac (Allen). Porém, ela é abandonada quando ele conhece uma mulher da mesma idade e mais culta. Se a história terminasse nesse ponto, ainda assim não se trataria de uma objetificação, uma vez que tanto Isaac quanto Tracy aprenderam e ganharam algo com o parceiro. No entanto, ela não se encerra nesse momento e, depois de vários acontecimentos (spoilers a seguir), o protagonista descobre que está profundamente apaixonado pela jovem, de tal modo que está disposto a esperar uma viagem que ela fará para ficarem juntos no futuro. Vale também lembrar que todas as dores e lamentações de Tracy são abordadas com densidade e respeito, ela nunca se mostra fútil, ou manipulável. Pelo contrário, Allen a concebe como uma garota inteligente, sensível e até mesmo madura para sua idade. Tracy não é, definitivamente, uma mulher objeto pronta a atender aos desejos e delírios de um quarentão.

Na sua outra obra-prima, A Rosa Púrpura do Cairo, de 1985, Woody Allen faz duas coisas que comprovam os equívocos da análise de Richard Morgan. A primeira é se reservar o papel de roteirista e diretor do filme, atuando apenas por trás das câmeras para deixar brilhar a sua estrela e então companheira Mia Farrow – em um dos seus dois mais importantes desempenhos no cinema. A segunda é fazer da personagem de Mia – a garçonete Cecília – uma mulher oprimida que, ao ser surpreendida pelo inusitado de ser reconhecida na enésima sessão a que assiste a um filme – pelo protagonista do filme (Jeff Daniels) – provoca nele a decisão de sair da tela e falar com ela na vida real.

A partir daí, Cecília se permite viver plenamente a fantasia de um romance que a liberta do violento e errático marido (Danny Aielo). Allen vai além, e o final feliz do filme não é Cecília ficar com o seu novo amor – o que não acontece – mas é continuar indo ao cinema de uma forma mais livre. Pelo jeito, não há anotações, textos, esboços, argumentos de Allen que possam fazer Morgan perceber o quanto Woody Allen “empodera”– para usarmos o neologismo da moda – a mulher. E que essa mulher seja, inclusive, encarnada por Mia Farrow.

Que o humor e o lirismo de Woody Allen em matéria de sexualidade, forjados como foram na América puritana pré-revolução sexual, assombrem, choquem ou escandalizem jornalistas como Morgan, ou mesmo atores e atrizes, é revelador de nossos tempos e sintomático do caráter reacionário das críticas que o cineasta está a sofrer.

Jeffis Carvalho é jornalista, roteirista, crítico de cinema e consultor de comunicação.

Miguel Forlin é crítico de cinema e colaborador de diversas publicações na área

[1] Tanto o manifesto assinado por Catherine Deneuve e Catherine Millet, entre outras, quanto o episódio envolvendo o jovem comediante muçulmano Aziz Ansari indicam isso.

[2] Nesse sentido, o impactante relato de Moses Farrow, irmão mais velho de Dylan, é devastador: detalha como Mia Farrow treinou a jovem menina para que acusasse Allen, seu pai adotivo. Eric Lax, em seu novo livro, dedica um capítulo ao tema. Veja aqui .