Wolfianas n° 5 – Guerra Cultural à brasileira (I)

Wolfianas n° 5 – Guerra Cultural à brasileira (I)

Já podemos dizer: 2017 foi o ano em que as "guerras culturais" entraram para a dieta política brasileira. Eduardo Wolf, que prepara livro sobre o assunto, analisa o tema neste ensaio em três partes.

Estado da Arte

18 Dezembro 2017 | 15h00

Por Eduardo Wolf

Não é absurdo afirmar que 2017 foi o ano em que o Brasil viveu o que os americanos chamam de “guerras culturais”. Até muito recentemente, muito pouca gente – aqueles que acompanham de perto o debate político e intelectual do mundo anglo-americano – conhecia a coisa pelo nome. E, de fato, mesmo esses conheciam mais o nome do que a coisa: no Brasil, à exceção de alguns episódios (a proibição a Je vous salue Marie, do cineasta Jean-Luc Goddard nos anos 80; o encerramento da exposição “Erótica” no CCBB do Rio de Janeiro em 2006), não se pode dizer que havia algo semelhante às guerras culturais americanas pela simples razão de que não havia mais do que um lado nos debates culturais do país. Esse lado atendeu, desde meados dos anos sessenta, pelo nome de “esquerda”.

É certo que “esquerda”, ao longo dessas mais de cinco décadas, é termo que comporta um variegado de significados: a velha tradição marxista; variedades de nacionalismos e irredentismos; os sarampões pós-estruturalistas e pós-modernistas que teimam em não nos deixar; e, é claro, mais recentemente, um conjunto algo incompreensível de coisas a que se chama de “estudos culturais” ou “multiculturalismo”. Ainda assim, dificilmente se poderia dizer que, no período que se estende de meados dos anos de 1960 até o início da década de 2010, houve qualquer coisa remotamente similar a uma cultura ou a uma forma organizada de vida intelectual expressiva que fosse liberal ou conservadora – exceções são, ora, exceções; a hegemonia nos campos da cultura e das ideias foi da esquerda.

Breve esboço de arqueologia

Se estamos falando de “guerras culturais”, é porque agora há mais de um lado nesse conflito. E essa é a primeira novidade: há aproximadamente uma década, começou a se gestar, sob a forma de uma resposta à hegemonia da esquerda, um difuso interesse em temas, escritores, pensadores, economistas e artistas que, em um sentido ou outro, poderiam ser identificados como liberais ou conservadores. Para quem cresceu e foi educado nesses últimos vinte e cinco anos, a identificação automática entre “vida cultural/intelectual” e “esquerda” foi naturalizada, mas as coisas nem sempre foram assim.

Quando publicações, colunistas, professores e editoras surgiram no Brasil trazendo o pensamento e as obras de autores como Edmund Burke, Ludwig von Mises e Eric Voegelin (além de contemporâneos), bem como analisando a cultura, a política e a sociedade por lentes outras que as da esquerda – valendo-se do pensamento trágico ou do antirracionalismo político de Michael Oakeshott, por exemplo –, ficou sinalizado com alguma clareza que o jogo cultural e intelectual mudaria. Era o caso da revista Dicta & Contradicta, formada por jovens intelectuais que ainda escrevem muito e em diversas frentes por aí, como Martim Vasquez da Cunha e Joel Pinheiro da Fonseca, e da qual fizemos parte meus colegas de Estado da Arte Marcelo Consentino, Leandro Oliveira e eu; era o caso de colunistas então despontando no cenário nacional, como João Pereira Coutinho, Luiz Felipe Pondé e Reinaldo Azevedo (reunidos por Marcelo Coelho, em artigo na Folha de São Paulo de 21 de janeiro de 2009, sob a rubrica “doutores do pessimismo”); e era o caso, ainda, das publicações do Edson Filho, à frente da É Realizações, divulgando obras como as de Russell Kirk, Roger Scruton e Roger Kimball.[1]

Nunca saberemos exatamente como teria sido a mudança na vida mental brasileira tivesse essa transformação ocorrido uma década antes, quando a internet engatinhava por aqui e o senso comum supunha, com razão, que o lugar natural desse debate de ideias, desse confronto de visões, fosse a Universidade ou os espaços concedidos à época ao alto jornalismo. Nunca saberemos, pois essas alterações ocorreram concomitantemente a outras tantas na sociedade brasileira, uma delas, justamente, a popularização da internet e, na sua esteira, das redes sociais. E eis a segunda novidade: pouco a pouco, formou-se um novo tipo de público que, dispensando os filtros tradicionais oferecidos pelos esquemas institucionais da Academia e do jornalismo convencional, engajava-se na leitura desses autores, no consumo desses livros, no acompanhamento do trabalho desses colunistas e, com isso, ao mesmo tempo, incidiam sobre os conteúdos do debate cultural e político brasileiro, ampliando o alcance de pautas e autores liberais e conservadores, e transformavam, como atores ou espectadores do processo, a forma pela qual esses conteúdos eram difundidos e o modo como se dava, de fato, o debate.[2]

Quer dizer, foi no mundo sem mediações da internet e das redes sociais – sem a regulação do circuito tradicional de editores dos grandes jornais e revistas, sem as seleções que essa tarefa de edição impõe, sem os regramentos institucionais que a academia e seus processos acabam empregando – que o retorno de autores e temas conservadores e liberais, consagrados ou recentes, efetivamente ganhou público e teve vida continuada no Brasil. Em pouco tempo, surgiram diversos sites e blogs com o mesmo espírito, algumas outras revistas fora do star system dos intelectuais da esquerda paulista passaram a existir (ainda que brevemente) e outras tantas editoras que passaram a publicar autores identificados como mentores dessa “onda conservadora”, expressão que, em virtude da hegemonia da esquerda, incluía tudo o que dissesse respeito a “liberalismo”. Blogs, sites, leitores nas redes sociais a repercutir, novos comunicadores em canais de Youtube e mídias assemelhadas: eis o meio em que se propagou em grande escala a mensagem dessa virada de referenciais e de mentalidade na cultura e na política.

O meio, como diz o adágio, é a mensagem. Já nos primeiros anos da década de 2010, para uma grande parcela do público, as análises de um youtuber passaram a contar tanto quanto, se é que não mais que, um estudo acadêmico ou um relatório de uma instituição de referência; textões em uma rede social como o Facebook assumiram, para esse público, a grandeza dos grandes panfletos escritos pelos antigos hommes de lettres e intelectuais públicos, intervindo em matérias de interesse de grandes segmentos da população; o Twitter se tornou o cenário preferido de intensas guerras de opiniões que, ali como no Facebook, eram abertas à manifestação de uma massa de pessoas que antes teria como opção de participação no debate público apenas a seção de Cartas à redação dos jornais e revistas. O potencial de alcance, a velocidade da propagação e o caráter democratizador dessa mudança do meio só poderia ter consequências significativas para a mensagem.

Uma comparação

Se a análise acima estiver correta, então os mecanismos de difusão das ideias conservadoras e liberais no Brasil desses últimos anos influenciaram o seu modo de assimilação. Ler os caudalosos volumes de escritos políticos de John Adams ou as análises em história econômica do Nobel Friederich Hayek é uma coisa; ler textos nas redes sociais ou acompanhar youtubers fazendo propaganda dessas ideias é outra. Ingressar no circuito acadêmico e jornalístico tem certas consequências que já conhecemos – um autor, um conjunto de autores ou uma determinada abordagem torna-se objeto de interesse, passa a ser estudado, multiplicam-se os estudos e as reflexões a seu respeito, diferentes abordagens vão emergir desse processo e, em algum tempo, mais de uma geração já se apropriou daquele universo intelectual, tomando-o como seu, encontrando-o com facilidade nas livrarias e nos suplementos literários e culturais e mantendo-o vivo na circulação corrente das ideias do tempo. Há, em uma palavra – e a despeito de todos os defeitos que se possa apontar a esse circuito –, um adensamento mediado da recepção das ideias em questão. Difundir-se primordialmente por meio das redes sociais e de outras mídias digitais, com as especificidades desse meio e desse público, tem efeitos muito distintos, ainda agora não de todo conhecidos por nós, sejam os positivos, sejam os negativos.

Permito-me uma comparação. Em seu “Literatura e Cultura de 1900 a 1945”, o crítico Antonio Candido observou um fenômeno semelhante ao que creio estar analisando. Ao descrever o período a partir de 1930, em que verificava um aumento considerável de potenciais leitores (o analfabetismo cairia de 84% para 57% da população, por exemplo), de editoras e de escritores, Candido constata que esse público, no entanto, “ia sendo rapidamente conquistado pelo grande desenvolvimento dos novos meios de comunicação”. Em conclusão que não oculta certa melancolia, o autor de Literatura e Sociedade afirma:

“Antes que a consolidação da instrução permitisse consolidar a difusão da literatura literária (por assim dizer), estes veículos [rádio, cinema, quadrinhos] possibilitaram, graças à palavra oral, à imagem, ao som (que superam aquilo que no texto escrito são limitações para quem não se enquadrou numa certa tradição, que um número sempre maior de pessoas participassem de maneira mais fácil dessa quota de sonho e de emoção que garantia o prestígio tradicional do livro. E para quem não se enquadrou numa certa tradição, o livro apresenta limitações que aquelas vias superam, diminuindo a exigência de concentração espiritual.”

Creio que vivemos algo análogo a essa situação com o fenômeno da internet,[3] das redes sociais e das novas mídias digitais. Em um momento em que o mundo das ideias se alarga, com a reintrodução de clássicos do pensamento liberal e conservador desde há muito esquecidos, além de novos autores, o público – potencialmente imenso – vê-se seduzido e conquistado por um suporte que em nada parece favorecer, para quem não se enquadrou numa certa tradição, a leitura, a reflexão e a análise tal qual a supunham esses mesmos clássicos e novos autores. Triunfam, em seu lugar, a irritação fácil, a violência anônima e a verborragia pseudo-doutrinária que se disseminam muito mais rapidamente pelas redes sociais, angariando mais seguidores e alimentando o ciclo.

Foi nesse meio que uma nova leva (mais do que uma geração) de atores no novo debate público brasileiro passou a ler os debates sobre a vida política, cultural e social no Brasil através de uma chave interpretativa completamente nova por aqui. De fato, foi em blogs, sites independentes e sobretudo nas redes sociais que começou a ganhar corpo no cenário brasileiro a ideia de que o que vivemos, em verdade, é o capítulo tropical das guerras culturais que os americanos já vinham lutando há algumas décadas. [CONTINUA].

Eduardo Wolf é doutor em filosofia pela USP, tradutor e editor do Estado da Arte. É curador-assistente do Fronteiras do Pensamento

[1] Este é apenas um breve ensaio apresentando um primeiro apanhado de informações sobre o tema das “guerras culturais” e não tem pretensão de ser exaustivo. Outros muitos indivíduos (Olavo de Carvalho sendo o mais destacado), institutos e publicações poderiam ser invocados para complementar o quadro. Contudo, o propósito aqui é apenas um esboço da mudança no clima cultural da época e seus efeitos até agora.

[2] Foi nesse cenário, portanto, que antigos think tanks e novos institutos de orientação liberal ou bem ampliaram seu alcance, ou bem foram surgindo. O mesmo se deu com o surgimento, cada vez mais forte desde 2013, do jovem movimento liberal brasileiro em suas diversas roupagens.

[3] Essa analogia, creio, não se restringe de modo algum ao público interessado em temas e autores conservadores. O fenômeno, assim parece-me, é mais amplo, e ocorre igualmente com novos consumidores de ideias à esquerda no espectro ideológico – para não falar da validade da análise para o universo literário, aquele que tinha em mente Antonio Candido.