Wagner Moura: “os cidadãos têm o direito de resistir”

Wagner Moura: “os cidadãos têm o direito de resistir”

Após a estreia na Berlinale de “Marighella”, seu primeiro filme como diretor, Wagner Moura conta em entrevista como chegou ao tema, fala sobre resistência em regimes autoritários e comenta as dificuldades que o longa deve enfrentar para ser distribuído no Brasil.

Estado da Arte

16 de fevereiro de 2019 | 14h51

Marighella. Brasil, 2019. Direção: Wagner Moura. Berlinale Mostra Competitiva. (© O2 Filmes)


por Camila Gonzatto

Com mais de duas horas e meia, Marighella debruça-se sobre os últimos anos da vida do escritor, político e ativista Carlos Marighella, morto pela ditadura militar no Brasil. A ênfase do filme recai sobre a atuação do protagonista na Ação Nacional Libertadora (ANL) – um dos grupos de luta armada ativos contra o regime. O longa-metragem foi construído como uma obra ficcional de ação, com câmera próxima aos personagens, muitas vezes na mão, planos rápidos e montagem ágil. “Não quero que o filme soe como algo do passado. Quero que as pessoas o sintam como algo que está acontecendo agora”, diz o diretor. Em uma mesa-redonda com jornalistas de vários países do mundo, Wagner Moura fala sobre Marighella.

Como você chegou ao tema deste que é seu primeiro trabalho como diretor?

A biografia de Marighella, de Mário Magalhães, tinha acabador de sair. Sempre fui fascinado não apenas pelo próprio Marighella, mas por histórias de resistência no Brasil: Malês, Canudos, demonstrações populares contra o Estado, contra ditaduras e regimes antidemocráticos. Mas me interessavam principalmente as resistências em torno da ditadura a partir de 1964, porque, em termos de tempo, são muito próximas a mim. Nasci em 1976. Minha geração, no entanto, é muito diferente daquela que lutou contra o regime. Cresci numa geração bem alienada. Essa geração que está indo para as ruas no Brasil agora é muito mais próxima da geração de 1964 do que a minha.

Quando começou esse projeto, você já se sabia que Jair Bolsonaro seria presidente do Brasil?

Não. Começamos em 2012 e filmamos em 2017 durante o governo Temer. Naquele momento, ninguém poderia acreditar que Bolsonaro se tornaria presidente do Brasil. Não quero que esse filme se torne uma resposta a um governo específico. O filme não é uma resposta a Bolsonaro, mas é, provavelmente, um dos primeiros produtos culturais do Brasil a se colocar abertamente contra o que Bolsonaro representa. Bolsonaro gravou um vídeo contra o filme, mesmo antes de ser presidente, dizendo que era um absurdo fazer um filme sobre esse “terrorista”. Mas o filme precisa ser maior que isso.

Como foi feita a adaptação para as telas do livro de Mário Magalhães?

O roteiro foi escrito pelo Felipe Braga, com minha ajuda. Para mim, sempre ficou muito claro que esse filme precisava funcionar como um longa-metragem de ficção, porque já há muitos documentários sobre Marighella. Por isso usamos as ferramentas do fazer cinematográfico: há no filme situações e personagens que não existiram na realidade, mas a alma do filme é bem calcada no que estudamos. Levamos realmente a sério a leitura do livro, estudamos profundamente o que aconteceu em 1964, convidamos ex-guerrilheiros para conversar com o elenco. Quando filmamos, sentimos que estávamos bem apoiados para falar sobre esse assunto, que é bem delicado. Muitos personagens, por exemplo, são amálgamas de pessoas. No filme, vemos dez personagens, mas eram centenas de guerrilheiros. Há alguns personagens baseados especificamente em pessoas reais. Tomamos muitas liberdades, mas muito embasadas. É claro que espero ser criticado pela direita no Brasil, mas também espero ser criticado por pessoas de esquerda, que assistirão ao filme e dirão que não foi exatamente isso o que aconteceu.

*Leia a entrevista completa e saiba mais sobre a Berlinale acessando o Berlinale Blogger do Goethe-Institut.
A cobertura da Berlinale 2019 é uma parceria entre o Goethe-Institut e o Estado da Arte.