Uma tradição esquecida: o ensaísmo humanista de Lourival Holanda

Uma tradição esquecida: o ensaísmo humanista de Lourival Holanda

Em Realidade Inominada (CEPE, 2018), o professor e crítico literário pernambucano Lourival Holanda retoma a tradição do ensaísmo humanista e afirma que “pedir à literatura toda clareza é jogar xadrez com a regra do dominó”.

Estado da Arte

26 Novembro 2018 | 20h00

por Eduardo Cesar Maia

Na ensaística de Lourival Holanda, como os leitores poderão conferir em Realidade inominada, os temas e perspectivas teóricas variam enormemente, mas as preocupações intelectuais se repetem como verdadeiras obsessões vitais: os limites da linguagem, o lugar desestabilizador do desejo, o discurso da ciência – sempre precário – sobre o que nos faz propriamente humanos, a importância organizadora da memória, a tensa e produtiva relação entre filosofia e poesia… Talvez todas essas recorrentes inquietações intelectuais pudessem ser reunidas num único Leitmotiv, que percorre todas as páginas deste livro: a ânsia de descobrir o que a linguagem revela, e o que ela esconde. Assim, a literatura e a crítica literária, compreendidas pelo ensaísta como um campo particular de observação e investigação do real, buscam o que está “além das palavras”, mas sempre através delas mesmas, sem nunca desprezá-las por suas limitações, numa operação árdua e conscientemente melancólica – por inesgotável e nunca definitiva.

Lourival Holanda mais de uma vez estabelece uma analogia entre o trabalho do crítico literário e o processo psicanalítico:  “A grande literatura condensa significações e sentidos no modo incomum – o poético. E o poético, como o simbólico, diz sempre uma palavra oblíqua. O analista buscará o saber desconhecido ali cifrado, a verdade do inconsciente que faz sua aparição através do significante. O crítico literário vai extasiar-se com essa feitiçaria evocatória do verbo, que alarga as possibilidades de dizer-se de uma cultura e desdobra as dimensões do homem”. Nessa perspectiva, o discurso literário é compreendido não como um espelho plano que pode refletir a exatidão do real em seus precisos contornos, mas como um espelho curvo, que mostra sempre outra coisa, uma realidade deformada, mas nem por isso menos real ou menos sugestiva: “O escritor, com antenas atentas, capta e cripta o encoberto e o esquecido. Que, no entanto, subjazem no impensado da língua”.

A relação analógica com a psicanálise permite outros insights bastante sugestivos, que apontam para uma interessante retomada, no âmbito da crítica literária, da velha disciplina humanística da Retórica:  “Há, portanto, na estruturação do discurso poético uma reversão da sintaxe lógico-discursiva que pede um outro modo de abordagem. A prática analítica ou a crítica literária trabalham, ambas, enquanto descodificadores semióticos. No que Benveniste tem toda razão: o ponto de partida da análise é o mesmo da literatura: as figuras retóricas, as figuras de linguagem. O inconsciente sutilmente converte metaforicamente os símbolos, tira partido deles. Aí pode estar seu sentido – e sua dificuldade”. Lourival propõe em seus textos uma atenção redobrada às palavras, em suas possibilidades semânticas, evidentemente, mas também em suas dimensões formais, materiais – crítica estética e crítica de ideias convivendo no limite da harmonia e do conflito, como podemos ver nitidamente no excepcional ensaio sobre Euclides da Cunha ou nas referências ao Grande Sertão de Rosa, presentes em diversos momentos do livro.

E como procede na prática, em seus ensaios, o crítico Lourival Holanda? José Ortega y Gasset dizia que uma grande obra de arte literária – e seu paradigma não era nada menos do que o Quixote – deveria ser “tomada” como a cidade de Jericó: não com uma abordagem direta, um ataque frontal e definitivo, mas com amplos giros, com digressões, com aproximações e circunvoluções: “nossos pensamentos e nossas emoções devem ir estreitando-a lentamente”, propôs em suas Meditaciones del Quijote. Assim é o trabalho crítico e a proposta hermenêutica do ensaísta – suas aproximações – diante dos textos e dos autores que interpela. Não se trata de explicar o sentido da obra, ou de catalogar um autor num determinado movimento artístico ou projeto estético, mas de estabelecer pontos entre o texto literário e o grande texto da cultura, que tudo absorve e transforma. 

No ensaísmo crítico de Lourival Holanda a análise literária nunca pode se confundir com aula de anatomia: pois a anatomia é feita em corpos rígidos, cadavéricos, mortos. O texto literário – os grandes textos da literatura – são corpos vivos: mais vivos, em todo caso, do que as premissas teóricas que tentam uma e outra vez enquadrá-los, explicá-los, analisá-los de forma unívoca e definitiva. As aproximações do ensaísta a autores e obras como Milton Hatoum, o Grande Sertão: veredas, Álvaro Lins, Avalovara, Luiz Ruffato, Fogo morto ou René Char, entre muitos outros que aqui aparecem, dão-se através desse prisma ético-estético em que as ideias e as formas são tomados como elementos inseparáveis na análise literária: “O que um poema diz não pode ser, sem perda, dito de outro modo”; e isso pode ser aplicado à toda – grande – arte literária.

A crítica literária que o leitor encontrará neste livro se dá, invariavelmente, como um processo de abertura, de sugestão, de analogia – daí a escolha do gênero ensaístico como meio de reflexão e de comunicação, não havendo espaço para formulações dogmáticas ou para a aplicação de teorias totalizantes e monológicas. O literário aparece sempre como índice de uma limitação, de uma imperfeição, nossa e da realidade que podemos conhecer: “Literatura talvez seja uma busca dessa impossível palavra plena; ou: forma de exorcizar sua falta”. Por isso, as teorias literárias de pretensão “cartesiana”, que tomam como modelo a clareza e a exatidão, serão, para Lourival, sempre insuficientes diante do complexo e vivo fenômeno literário: “Pedir à literatura toda clareza é jogar xadrez com a regra do dominó”.

E a que tradição intelectual o autor se filia? Quem são os modelos do ensaísta? São todos nossos contemporâneos, diria eu – no sentido de que ninguém pode nos ser mais contemporâneo do que grandes pensadores humanistas como Baltasar Gracián, Montaigne ou Alfonso Reyes, que são tão atuais, sob um certo ponto de vista, quanto os bons exemplos do nosso tempo, como um George Steiner ou um Octavio Paz. É importante lembrar, por outro lado, que o crítico é professor universitário há décadas. Arrisco-me a dizer que o projeto crítico de Lourival Holanda assume um posicionamento de reação, em muitos casos, em relação às principais tendências acadêmicas e teóricas ainda em voga, mas sem desprezá-las. Trata-se, creio, de um projeto de redefinição e redimensionamento do velho ideal humanista, tão atacado pelas principais correntes teórico-filosóficas do século passado. Tal projeto se sustenta na consideração de que “A escrita literária é um modo de busca, de exploração, de interrogação”, ou seja, uma forma genuína de especulação e conhecimento do real. 

Ainda como elemento “humanista” da concepção de literatura que permeia os ensaios aqui coligidos, podemos falar da preocupação pedagógica (em sentido amplo, como paideia ou Bildung), que se traduz na pergunta “Como ensinar alguém a ser capaz de autoalteração?”, ou: como “modificar lucidamente a própria vida”? No fundo, Lourival acredita que a literatura pode transformar os indivíduos, ainda que não nos dê garantia alguma sobre se para pior ou para melhor. 

Outra advertência muito atual do crítico se relaciona ao que chamamos, talvez de maneira bastante imprecisa, de “literatura engajada”. Em certa medida, toda grande literatura supõe uma visão política, ainda que não seja esse seu principal objetivo enquanto forma artística. O problema, que inclusive parece ter voltado à ordem do dia, é a submissão da literatura às ideologias do momento ou aos projetos político-partidários. Diz-nos Lourival: “Desde o realismo socialista – que tomava como realidade seu desejo –, que pretendeu submeter a literatura aos ditames do Estado; passando pela literatura engajada que não veio sem danos à literatura latino-americana; hoje a arte, dentro de seus limites e consciente de sua função, tenta evitar as coerções partidárias”. Em resumo, assumir uma militância ou uma ideologia não pode ser uma forma de “desistência de si mesmo”.

 

Eduardo Cesar Maia é professor do curso de Comunicação Social (CAA) e do Programa de Pós-Graduação em Letras (Teoria da Literatura) da Universidade Federal de Pernambuco