Uma Nota de Rodapé – O papel dos professores na espetacular crise do ensino público brasileiro

Uma Nota de Rodapé – O papel dos professores na espetacular crise do ensino público brasileiro

Estado da Arte

01 Dezembro 2016 | 16h29

Por Heloisa Pait

No filme Footnote de Joseph Cedar aprendemos que um sábio só não pode invejar duas pessoas: seu filho e seu aluno. Essa proibição tortura um frustrado estudioso que vê seu filho despontar como intelectual popular. O filho também tem uma lei, mais conhecida, lhe atrapalhando a vida: como honrar um pai que não lhe reconhece o talento?

Estudantes nada cus-de-ferro organizam um cadeirado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Estudantes nada cdf’s organizam um “cadeiraço” na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Fonte: Última Instância)

Pouco sabemos dos afetos dos dois estudiosos. Há amor entre pai e filho? Já houve companheirismo? Já riram juntos? jogaram bola? O pai quis para o filho coisas maravilhosas? O filho o teve como herói? Não sabemos. Pois o filme é sobre obrigações. Papéis que devem ser cumpridos para sermos pai e filho. Aluno e professor.

Indeciso, ao final, sobre receber ou não um prêmio indevido, o pai hesita, atônito consigo mesmo. É o famoso Catch 22: se ele aceitar, deixa de ser pai. E de ser professor. Professor doutor, ele insiste, e não professor ginasial! Igualmente, o filho está impedido de clamar o prêmio, humilhando o pai. Fiéis a seus valores, não podem simplesmente catar o que bem entendem.

É exatamente nesse dilema ético, puxados de um lado por nossas obrigações para com os outros e de outro por nossos direitos, é nesse pico agudo, de culpa e desejo, que escalamos através do estudo incansável e do qual não conseguimos descer, é nesse ponto preciso em que professores e estudantes das universidades públicas brasileiras na verdade não se encontram.

E onde estão então? Quem tem crianças pequenas em casa já se deparou com um serzinho emburrado se enfiando no armário praguejando contra o mundo, seus brinquedos, seus pais. A angústia que dá. Pais modernos se agacham tentando tirá-los de lá pelo diálogo. Pais emotivos gritam e apelam aos deuses. Pais severos aguardam que a fome vença a birra.

O que tantos professores fazem hoje é apelar aos jovens que se enfiem até a alma nesse armário mofado, e não saiam mais, não leiam, não busquem seus pares, não explorem o mundo, não trabalhem, e finalmente não saiam da nossa casa que é o mundo de hoje, e não vão, com o que nós os ensinamos, construir o mundo de amanhã.

É assustador que tenhamos nos acostumado com esse estado de coisas. Parece que os mestres do país leram o belo ensaio “A crise na educação”, de Hannah Arendt, e seguem à risca tudo o que a assusta na confusão entre mundo adulto e o universo da educação.

Vá lá, tivéssemos nossas simpatias com enfiar-se no armário, teríamos ainda que cumprir nosso papel de ensinar e cobrar aprendizado. Invejássemos a rebeldia dos jovens e lembrássemos com nostalgia da nossa; em tempo algum poderíamos roubar dos jovens a rebeldia que é deles, abafando-a com nossas birras tão mais lamentáveis quanto mais fartas nossas cãs.

Os jovens estão é gritando que os tiremos de lá, com aulas bacanas, ideias modernas, oportunidades para uma vida produtiva e repleta de desafios. Com ensino, enfim. E nós lhes apresentamos pesadelos de corpos flagelados como se fossem teorias sobre o homem e Goyas xerocados como se fossem teoria social. O Apocalipse Curricular, visões irracionais em universidades que se apresentam como laicas.

Como passamos, especialmente em São Paulo, da rebeldia de Oswald ao stalinismo dos currículos? Da erudição de Mario ao português esdrúxulo de nossas teses? Em que cativeiro acadêmico queda sequestrada a delicadeza conceitual de Sergio Buarque de Hollanda? Expliquem-me como os ideais da Escola Nova se converteram em intolerância expandida a cada geração.

Em que momento o projeto progressista de Julio de Mesquita Filho se transformou na empoeirada repartição pública, máquinas de fax com seus lacres numéricos atravancando sonhos, projetos audaciosos que nunca foram? Quando foi ocupado por um varguismo sincero e militante, espalhando frustração e desesperança nos jovens paulistas?

Como assim, greves de quatro meses? Como assim resistir ao produtivismo? Como assim gritar contra o neoliberalismo, o golpe, a mídia, a hegemonia do inglês, as ciências exatas, o reitor, o governador, a modernidade e seu avesso? Em que, me informe o leitor, a ladainha de meus colegas é mais sofisticada que a da criancinha comunicando aos pais odiar todos os seus brinquedos?

Paremos de fazer chacota dos jovens cabeludos e de nos enganar: são eles os bons alunos, abraçando diligentes o pacote ideológico que lhes oferecem nas universidades públicas brasileiras. Assimilam os rituais do ódio, a demonização de grupos humanos, os dogmas todos, aprendem sim explicações fáceis e unívocas de todos os problemas brasileiros do Oiapoque ao Chuí.

Por vezes chocam os que fingiam acreditar que ódio propagado se controla.

Eles mesmos repetindo antigas lições, aprendem a falar mal dos militares, dos estadunidenses, dos evangélicos, dos jornalistas e golpistas. Que incluam na lista a gente da nação é questão de tempo. Então tiremos o foco deles. Não mandem a polícia, nem outros estudantes, desocupar escolas. Lembrem os professores e gestores de suas funções, inertes hoje como o foram durante o regime militar.

Não me entendam mal. Há coisas incríveis sendo produzidas nas nossas universidades, e é bom sempre lembrar ao generoso contribuinte paulista que há centenas de professores, talvez não milhares, que fazem jus ao seu suor, dando o mais de si na pesquisa, no ensino e nos serviços à comunidade. Há livros produzidos, teses inovadoras e jovens instruídos saindo de nossos campi.

Há acima de tudo, sutil e resistente, a mágica da sala de aula. O encontro entre jovens e adultos no qual se repetem rituais ancestrais de perguntas e respostas, cada qual em seu papel de transmitir e expandir o conhecimento herdado de outros que naquela sala não estão. O aluno que busca saberes no mestre, e o mestre que deposita em confiança aquilo que lhe foi dado – maravilhoso que isso persista.

Mesmo que pareça ser um resquício de uma tradição que se esgarça, fruto de um sólido laço humano e de um desejo de descobrir que não tem fim. Reformas serão necessárias para que os dirigentes da educação sejam lembrados de sua responsabilidade, que resumo: facilitar esse encontro mágico. Aqui apenas resgato o aspecto ético da relação entre gerações que a boa escola abraça.

Como os personagens do filme, examinemos nossas ações e responsabilidades, e nos angustiemos com seu descompasso. Armemo-nos de coragem para sair de armários escuros e subamos juntos naquele pico elevado e perigoso que é o dilema de seres éticos.

Heloisa Pait é socióloga e professora da UNESP.