Uma aula simples: o pragmatismo de Peirce e a clareza nas ciências sociais

Uma aula simples: o pragmatismo de Peirce e a clareza nas ciências sociais

A socióloga e professora da UNESP Heloisa Pait apresenta algumas das ideias fundamentais de Charles Sanders Peirce.

Estado da Arte

04 Agosto 2018 | 12h25

 

por Heloisa Pait

Em meus cursos, a uma certa altura, sinto a necessidade de dar uma aula sobre o pensamento de Peirce. Não que eu seja especialista no autor; o que sei dele vem do muito didático livro de John Sheriff, The Fate of Meaning: Charles Peirce, Structuralism and Literature. Mas a aula ajuda os alunos a organizarem seus projetos de pesquisa, determinando o nível de análise no qual estão trabalhando e conectando suas preocupações conceituais com o objeto empírico que está sendo analisado. Em outras palavras, Peirce nos ajuda a evitar o famoso samba de Stanislaw Ponte Preta, em que o compositor misturava todos os eventos da história nacional, e que nas ciências sociais aparece da seguinte forma: “O conceito de acumulação primitiva de Marx mostra que na cidade de Assis, interior de São Paulo…” Acompanhem-me, então, nesta pequena aula sobre níveis de análise nas ciências sociais, que deve servir também para nossas análises sociais e literárias do cotidiano cidadão.

Charles Sanders Peirce foi um dos criadores do Pragmatismo, uma escola de pensamento americano original surgida nas últimas décadas do século XIX. Faz tempo! Talvez vocês já tenham ouvido falar de John Dewey, o educador progressista traduzido no Brasil por Anísio Teixeira, ou de George Herbert Mead, o sociólogo, outros brilhantes pragmatistas. Ou até de  William James, o irmão do conhecido escritor. Mas não importa. A ideia aqui não é jogar nomes no ar, e sim usar, no melhor estilo pragmatista, as ideias de Peirce.

Em linhas bens gerais, os pragmatistas enfatizam o uso que fazemos das palavras e das ideias – o significado que damos a elas. Evitam, portanto, rodar em falso como os filósofos mais viajantes, ou cair num objetivismo que também é, em última instância, ideológico e dogmático. Na sociologia, por exemplo, Mead analisará as várias facetas do indivíduo a partir das relações sociais que ele estabelece. Não há um “eu” a priori, nem um social com vida própria, mas sim um jogo de relações onde tanto o “eu”, que ele chamou de “I” quanto o social, o seu “me”, se constroem. Do mesmo modo, nem as ideias, nem a realidade têm autonomia plena. As ideias ganham força quando “fazem sentido” numa certa realidade ,e esta por sua vez se constrói numa malha simbólica. Enfim, é meio óbvio mesmo.

Muito ligada à tradição americana (e provavelmente inglesa), a ideia de diálogo como elemento construtor da realidade é fundamental para os pragmatistas. Para nós brasileiros, isso também é um pouco óbvio, mas a ideia não tem tanto destaque, acredito, para a filosofia continental… Se para o semiólogo Saussure o significado das coisas está suspenso, precariamente ligado a palavras que se chocam umas com as outras como num vagão lotado, para os pragmatistas o significado é dado em cada situação real, em cada encontro lingüístico entre pessoas (e não entre signos). Isso abre espaço para uma noção temporal de significado, desenvolvida por Peirce, que vou tentar explicar aqui com um exemplo concreto.

Imaginem que uma menininha de 2 anos, aprendendo a falar, ganha um livrinho de papel duro, com desenhos coloridos. E que, vendo adultos “brincarem” com objetos semelhantes, ela vira e revira o tal livro, dando-lhe um nome: “Buko!”, emprestando o radical do inglês e a pronúncia do português. O que aconteceu? Ela inventou uma palavra? Não completamente, pois o novo vocábulo remete a palavras ouvidas anteriormente, que ela fundiu de um modo próprio. Ela inventou um objeto? Também não, pois o livro foi produzido por adultos que tinham em mente exatamente o “estímulo à leitura”. Mas ela não foi completamente passiva: sua alegria em dar um nome para o livrinho e seu entusiasmo em revirar o livro foram atos dela apenas. Para falarmos em termos como os da filósofa Hannah Arendt, a criança se inseriu dentro de uma teia humana, a partir de vários atos simbólicos: a compra do livro, os hábitos de leitura da casa, mas também sua própria iniciativa.

Então, nesse ato aparentemente ingênuo, nessa curta sentença de duas sílabas, a menina já dizia algo assim: “Sabem esse livrinho colorido que vocês me botaram nas mãos distraidamente? Pois é, a partir das línguas que falam meus pais, e que ainda aprendo como se fosse uma só, dou-lhe um nome – buko – que inventei eu, mas que qualquer um pode compreender. E ainda: sei por ver o ar compenetrado de todos quando brincam com seus bukos e depois desandam a falar coisas mil, que esses são brinquedos mágicos, de onde saem histórias. Daí minha felicidade quando o viro de cabeça pra baixo e torno a virar, pois fico na expectativa de todo um mundo de bukos!”

Em outras palavras, por mais simples que seja um ato linguístico, ela já traz em si toda uma vivência, todo um uso social, um significado particular. Esse todo complexo Peirce separa em 3 elementos principais: o objeto – o livrinho –, o signo – “buko” – e o interpretante – quem dá (ou o processo pelo qual se dá) significado ao par anterior. Mas a história não pára aí. Digamos que alguém, passando pela sala, repare na menininha envolvida com seu livro e diga: “Olhem só ela brincando com o livrinho.” A cena toda passa a ser o objeto (a menina e seu livro), enquanto a frase exclamativa é o signo e o interpretante quem a proferiu. E assim por diante, não? Se eu estiver lembrando da cena, uma década depois, eu mesma, junto com a menina e seu livro, passo a ser o objeto, enquanto esses parágrafos todos são os signos: uma aula de semiótica. Agora, vai que a menina resolva ler esse texto! Qual o significado que dará a tudo isso?

Sim, é um processo infinito. Mas diferentemente do always-already de Derrida (toujours-dejá no original, e parece que já-sempre em português), não é um processo puramente linguístico. Existe algo visceral nesse processo recorrente de vivenciar através de signos e dar significado à experiência (sobre isso, veja o traduzido artigo de Peirce sobre signos. Nesse sentido, mais próximo da visão pragmatista da linguagem estaria Merleau-Ponty (e talvez Bergson), para quem a linguagem emerge dos sentidos, ou de psicanalistas como Hanna Segal ou Wilfred Bion, para quem o ato de simbolizar tem profunda carga emocional. E mesmo de Lev Vigotski, um pensador brilhante apesar da canonização pela esquerda brasileira, que o fez mais soviético que o terror stalinista o forçou a ser .

E agora, de volta a nossas pesquisas! Em que nível de análise você está trabalhando? Você pode estudar um fenômeno concreto (que seria o livrinho em si). Por exemplo, a taxa de conclusão no ensino médio entre jovens paulistas. Pode avaliar qual o impacto que ela tem sobre a renda ou quais os fatores que determinam essa taxa, como a escolaridade dos pais. Para saber essas coisas, você deve ir atrás dos dados estatísticos apropriados. Mas você também pode querer estudar as percepções da conclusão e da evasão entre adolescentes de uma determinada comunidade (a menina olhando o livrinho). Aí a taxa em si passa a ser apenas um pano de fundo e seu objeto agora são as percepções, que você vai extrair com entrevistas, enquetes ou observação participativa.

Você também pode querer entender como a conclusão ou evasão aparece na imprensa local, ou como ela é tratada pelas organizações comunitárias (a mulher passando na sala). Lembre que não é por que você está tratando de percepções e representações que a realidade foi pro espaço. As taxas, mais ou menos precisas, continuam descrevendo um fenômeno concreto. Na sua avaliação do tratamento da imprensa você deverá contrapor os dados com a representação (mesmo estudando a menina ou a mulher terá que levar o livrinho em conta). Para complicar mais a sua vida, pode ser que o tratamento da imprensa negativo desanime os educadores, mas pode ser que ele estimule alguma política pública. Se você quer examinar esse tipo de relação complexa, deve ter claro exatamente o que quer estudar; só a partir daí vai poder definir como vai fazer isso.

Por exemplo, se você perguntar a uma professora se ela acha que seu trabalho é útil você vai saber um pouco sobre a relação dos docentes com seu trabalho. Mas não adianta perguntar a essa professora como a mídia a retrata; para isso você precisa analisar os jornais (imaginei agora a menina o olhando confusa, sem saber o que você observa…). Como no mundo social tudo se relaciona com todo o mais, integrados que estamos numa rede simbólica gigantesca, a tendência de cairmos em raciocínios circulares é forte. Por exemplo, a percepção dos professores pode acabar influenciando a própria evasão escolar, mas a evasão é real, não está na cabeça dos professores. E cabe a você contar ao leitor quais as formas pelas quais uma coisa determina outra, se é que o faz, e como você descobriu isso.

No emaranhado simbólico que vivemos, onde um signo numa situação é objeto em outra, e um objeto de uma situação pode ser o interpretante lá adiante, é importante, e bem difícil!, manter o foco no seu objeto e elaborar perguntas que possam ser úteis para melhor descrevê-lo. Fazer isso numa linguagem simples e clara vai ajudá-lo a descobrir ligações legítimas e rechaçar as espúrias entre esses vários níveis de análise. Agora, mãos à obra! Veja o que, em suas reflexões, é o objeto (o que você vai examinar), o que são os signos (os conceitos que usa para falar deste objeto) e o que, finalmente, vai dizer sobre ele, pois você também é parte integrante dessa corrente simbólica (o interpretante). E reservemos o casamento de Tiradentes com a Princesa Leopoldina e a aliança de D. Pedro II com José de Anchieta para a generosa sátira nacional!

Heloisa Pait é socióloga e professora da UNESP.