Um século e meio de Paul Claudel

Um século e meio de Paul Claudel

Estado da Arte

03 Novembro 2018 | 16h00

por Caio Morau

Poeta, dramaturgo, romancista, diplomata, exegeta das Escrituras, são tantas as facetas do francês nascido há cento e cinquenta anos na cidade de Villeneuve-sur-Fère, na região da Picardia, que se torna ingrata a tarefa de tratar em tão curto espaço a vida e obra de um dos maiores escritores do século passado.

Criado no seio de uma família burguesa com razoável estabilidade econômica, foi o irmão mais novo de Camille Claudel, reconhecida escultora, discípula e amante de Rodin. Em razão do ofício da filha mais velha, a família Claudel se mudou para Paris, centro de efervescência do mundo artístico.

Na capital francesa se deram os dois acontecimentos mais marcantes da juventude de Paul Claudel, ambos no decisivo ano de 1886. Em pleno verão europeu, surge o seu encanto pelas letras, ainda bastante jovem e estudante de direito, fruto do contato com as obras de Baudelaire, Verlaine e, sobretudo, de Rimbaud, por meio de suas Iluminações e Uma temporada no inferno. Entre os estrangeiros, confessa ter aprendido os segredos da arte com Shakespeare, Dante Alighieri e Dostoievski.

Ao final daquele ano, Claudel experimenta algo extraordinário, que deixaria uma marca indelével em seu modo de ser e pensar, com reflexos inegáveis em sua obra. Com apenas dezoito anos, Paul confessava ter perdido a fé, que lhe parecia irreconciliável com o mundo.

Refere em seus apontamentos que todos os grandes homens daquele final de século haviam se destacado pela sua aversão à transcendência e, nesse contexto, acreditava naquilo que cria a maioria das pessoas estudadas daquele tempo: este mundo seria um encadeamento rígido de efeitos e causas, que a ciência depois de amanhã iria desvendar perfeitamente.”

Era dia de Natal. Claudel se dirigia à Catedral de Notre-Dame para assistir aos tradicionais ofícios de vésperas. Ele próprio relata o que lhe sucedeu enquanto ouvia o canto do Magnificat:

Eu estava de pé dentro da multidão, perto da segunda coluna, à entrada do coro, à direita do lado da sacristia. E então ocorreu o acontecimento que domina toda a minha vida.Num instante, o meu coração foi tocado, e eu acreditei. Acreditei, com tal força de adesão, com tal elevação de todo o meu ser, com uma convicção tão possante, com tal certeza que não deixava espaço para nenhuma espécie de dúvida que, depois, nenhum livro, nenhum raciocínio, nenhum acaso de uma vida agitada puderam abalar minha fé, nem, a bem dizer, tocar nela. Tive de repente o sentimento dilacerante da inocência, da eterna infância de Deus. Uma revelação inefável.

Sua conversão misteriosa se assemelha àquela de outro grande escritor francês, André Frossard, relatada em seu “Deus existe – eu o encontrei”, vertido para o português por Carlos Lacerda em edição publicada pela Record, em que ganha a fé ao resolver entrar em uma igreja enquanto esperava por um amigo.

Procurando explicar o que lhe sucedera, Claudel confessa que a única comparação possível para entender o que vivenciou seria a de um homem que fosse abruptamente subtraído de seu corpo para ingressar em um outro absolutamente estranho, em meio a um mundo completamente desconhecido.

Contudo, o episódio na quase milenar Notre-Dame foi apenas o início de uma luta que iria travar ao longo de toda a sua existência, já que o “combate espiritual é mais duro que a batalha dos homens” e as suas opiniões e percepções acerca do mundo permaneciam inabaladas. Apenas no Natal de 1890 conseguiria encerrar a parte inicial de tão árdua batalha em que, docilmente, foi se desfazendo do que o apartava da fé que havia milagrosamente recebido.

Não tardou para que começasse a deitar no papel todo o influxo de experiências – vividas e lidas – que havia experimentado na mocidade, começando sua produção literária com a publicação de obras como Tête d’Or (Cabeça de Ouro), drama que revela o sofrimento e a desesperança de quem se vê confrontado com a efemeridade da vida.

Claudel, aos 83 anos, com um busto seu esculpido pela irmã Camille Claudel na adolescência.

Nos versos, é dono de um estilo absolutamente destoante de seus contemporâneos e predecessores. Otto Maria Carpeaux o considerava um herético terrível, fora de todas as tradições da poesia francesa, escrevendo um verso livre que lembra tanto Whitman como os versículos bíblicos.

Seus escritos estão preenchidos pela ordenação de todas as coisas ao Criador, cuja amizade havia recuperado naquele 25 de dezembro de 1886.

Ó meu Deus, minha alma suspira em direção à vossa!
Livrai-me de mim mesmo! Livrai a alma da condição!
Eu sou livre, livrai-me da liberdade!
Vejo muitas maneiras de não ser, mas existe apenas uma de ser
Que é ser em vós, que sois vós mesmo.

Aos vinte e dois anos, Claudel é aprovado em concurso para ingresso na carreira diplomática. Passa a viver em diversos países: Estados Unidos, China, República Tcheca e também no Brasil, tendo servido no Rio de Janeiro.

As exigências de sua carreira, segundo a crítica de Jacques Madaule, juntamente com sua adesão à fé, constituem o traço mais característico de toda a sua obra: o exílio. Mais intenso do que a distância de sua pátria, própria da condição de diplomata, é o exílio espiritual, que saboreia muitas vezes com profunda dor por crer e peregrinar nesse mundo longe da figura da Criança recém-nascida que conhecera em Notre-Dame. “Ele que fez meus olhos, não o poderei ver?”

Sua condição de exilado espiritual parecia exigir uma renúncia absoluta. Sentia, não sem angústia, que deveria se entregar sem reservas, ainda que desconhecesse o caminho. Considerou a possibilidade de se tornar monge beneditino, mas o abade o aconselhou a meditar mais sobre sua vocação. Acabou por se casar.

Uma década depois de seu casamento, chega ao Brasil em plena Primeira Guerra Mundial. Apresenta suas credenciais ao Presidente Wenceslau Braz em 1917 e dá início a um curto período de dois anos de intensas atividades políticas e literárias. Torna-se amigo de grandes intelectuais brasileiros, como Rui Barbosa, mas sua grande companhia nesse biênio não foi a de um brasileiro e sim a de um conterrâneo, o compositor Darius Milhaud, seu secretário na Embaixada Francesa.

Milhaud, que teve mais tarde discípulos como Burt Bacharach e que disse de Claudel que “o entendimento foi imediato, nossa confiança mútua absoluta”, deu contornos musicais a mais de uma dezena de escritos de seu chefe como o balé L’homme et son désir e a peça de teatro O anúncio feito a Maria.

Único entre os grandes poetas simbolistas franceses a ter guardado a fé, Claudel não hesitou em empregar os meios para assumir autenticamente o profundo chamado que recebera tão jovem. Sua obstinação em corresponder à graça exigiu um esforço hercúleo: “é humilhante sofrer a imposição da grosseira máquina corporal quando sabemos que fomos feitos para comandá-la.”

Colecionou inimizades em razão de seu estilo e pensamento que chocavam com o ambiente materialista de sua época, mas os seus escritos, um século e meio depois de seu nascimento, continuam dando testemunho da conversão de um homem – tarefa de toda uma vida – que, tendo descoberto a Beleza, andou sempre inquieto até encontrá-la, em sua plenitude, na eternidade.

Caio Morau, mestre em Direito Civil pela Universidade de São Paulo (USP) e Professor da Escola Superior de Direito, foi guia oficial da Catedral Notre-Dame de Paris.

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