Um polímata iluminista russo: Mikhail Vassílievitch Lomonóssov.

Um polímata iluminista russo: Mikhail Vassílievitch Lomonóssov.

Estado da Arte

21 Abril 2018 | 15h06

por Rafael Frate

De todas as célebres figuras que o século XVIII deu à Rússia, uma foi considerada par de seus dois maiores nomes, os monarcas Pedro I e Catarina II, ambos com o/a Grande no título. Púchkin disse em um artigo que essa figura era “o singular companheiro da ilustração (prosveschênie)” russa entre os dois monarcas, adicionando que ele foi “nossa primeira universidade”. É difícil delimitar a área de interesses de Mikhail Vassílievitch Lomonóssov, o grande polímata iluminista russo. Química, física, engenharia, metalurgia, geologia, astronomia, geografia, história, artes plásticas, poesia. Todas essas foram áreas em que ele produziu, lançando os fundamentos de muitas dessas disciplinas no país de Pedro, o Grande e contribuindo para a organização e formação de suas principais instituições de ensino, como a Universidade de Moscou. Este breve panorama trata dessa figura, tão importante para a Rússia, quanto desconhecida fora dela.

I – O Imperador.

O século XVIII foi um dos mais decisivos na história da Rússia. O país viu no seu decorrer, mas principalmente no seu início, uma das maiores reorientações sociais já vistas na história da humanidade, promovida pela iniciativa de um tsar, depois imperador, que foi um de seus maiores monarcas. Exército, marinha, administração civil, inovações tecnológicas, cultura, uma nova capital e, inclusive, a língua russa, foram instituições que ou foram reformadas, ou foram criadas do zero no país pela mão de Pedro I, o Grande (1672-1725). O país viu, no decorrer dos quarenta e três anos em que reinou, uma revolução comparável à que ocorreria cerca de duzentos anos mais tarde e que poria fim ao Império Russo, fundado por ele.

A Rússia até 1721 era governada oficialmente por um Tsar. Esse era o título oficialmente adotado por Ivan IV, o Terrível, cerca de cento e cinquenta anos antes e que se tornou popularmente o título do monarca russo por excelência. Mas nesse ano, o Senado Governamental, instituição administrativa criada por Pedro em 1711 para governar em sua ausência, outorgou-lhe um novo título. O Tsar Piotr Piérvy se tornava Imperator Petrus Primus, Magnus. O país passava de um tsarado para um império. A mudança de título oficial foi um coroamento a todas as reformas ocidentalizantes promovidas pelo monarca no decorrer de seu reinado. A Rússia ingressava assim no teatro das grandes potências ocidentais.

Retrato de Pedro, o Grande

A guerra foi o principal impulso para a grande reorientação petrina. A primeira grande guerra do século XVIII, a Grande Guerra do Norte, travada contra a Suécia de Carlos XII, a maior potência militar da Europa Central de então, foi o pano de fundo para a total reorganização da máquina militar russa com a fundação de destacamentos de elite do exército e a criação do zero de uma marinha. É nesse contexto que, logo no seu início, em 1703, após a conquista de um trecho de terra na porção mais oriental do Mar Báltico, é fundada a cidade que serviria de capital e esplendoroso centro cultural de todo o império, São Petersburgo.

Mas talvez a esfera cujas reformas deixaram as marcas mais profundas foram a cultura e, mais especificamente, a língua da nação. Até então, a língua de cultura era um grande espectro linguístico estabelecido no século IX pelos apóstolos eslavos, os irmãos Cirilo e Metódio, chamada eslavônico eclesiástico. A língua, escrita em uma versão antiga do alfabeto cirílico, serviu até o século XVII como língua de cultura em diversas regiões da eslávia oriental, inclusive na velha moscóvia. As reformas de Pedro no alfabeto, introduzindo um novo tipo civil, mais simples, com a eliminação de diversas letras obsoletas e a demanda para que os novos livros publicados devessem ser escritos na chamada prostói iazyk – língua simples, próximo da língua falada, em que se eliminavam uma série de construções e expressões arcaicas do eslavônico, foram o impulso inicial na formação da Grande e Poderosa Língua Russa.

Na área da cultura, além da criação de um novo tipo de corte, com uma ocidentalização completa no vestuário e aparência (o monarca mandou seus súditos cortarem suas barbas, instituindo um imposto para quem quisesse continuar com elas), e da reorganização do aparelho burocrático do estado, com a criação da chamada Tabela de Patentes, Pedro divisou a criação de instituições de ensino que tirariam a Rússia de um atraso de mais de quinhentos anos. Uma dessas instituições, fundada oficialmente pela sucessora do Imperador, Catarina I, foi a Academia de Ciências, a primeira instituição de ensino superior de fato, nos moldes europeus do país. É nessa instituição que aparecerão os primeiros nomes da cultura russa moderna, de sua literatura e de sua produção científica.

A era petrina foi uma era de ascensão social para muitas pessoas, iniciando uma valoração por mérito individual em detrimento do status nobiliárquico. Um dos principais cortesãos de Pedro, Aleksander Miênchikov, era inicialmente um vendedor de tortas e a segunda mulher do Imperador, que viria a se tornar a Imperatriz Catarina I, era uma camponesa de origem obscura. É nesse contexto de tantas mudanças sociais que se desenrola a trajetória do filho de um pescador do extremo norte do país, que viria a se tornar a primeira universidade da Rússia.

II – O Polímata

Mikhail Vassílievitch Lomonóssov nasceu na aldeia de Michâninskaia, perto da cidade de Arkhângelsk, no desague do rio Dvina no Mar Branco, uma antessala do Oceâno Ártico, a mais de 50 km do círculo polar. O lugar, até a fundação de São Petersburgo e algumas conquistas de Pedro I no Mar Negro era o único acesso ao mar que a Rússia possuía, sendo a única via de comunicação por mar com os países da Europa Ocidental. Suas terras pertenciam diretamente ao estado, não sendo delegadas a senhores feudais como no sul do país, o que dava aos servos de lá maior mobilidade e liberdade de ação. Esses servos não presos à terra eram chamados pomorese ocupavam-se de várias atividades como a pesca, artesanato e comércio. Vassíli Dorofêievitch Lomonóssov era um desses camponeses que ganhou alguma prosperidade na pesca e comércio. Em 8 (19, Juliano) de novembro de 1711 nasce seu filho Mikhail de sua primeira esposa, Elena Ivânovna Sívkova, a filha de um diácono local, que não viveria dois anos do nascimento do menino.

O garoto aprendeu desde cedo o ofício da navegação, sempre tendo contato com a áspera e grandiosa beleza do norte da Rússia. A exuberância natural da região, com sua fauna, flora, recursos como salinas e reservas de âmbar serviu de primeiro alimento à sua curiosidade, que apenas pararia de crescer com sua morte e seria uma das mais inextinguíveis no século XVIII russo. Fenômenos como a aurora boreal davam ao garoto o maravilhamento com o real e a vontade de conhecer o porquê das coisas. As fontes para isso, no entanto, eram quase nulas e ele teve que se contentar com poucos livros além das escrituras. Dois desses livros eram uma antiga gramática do eslavônico e uma aritmética publicada na época de Pedro, o Grande, livros que, segundo as palavras de alguns biógrafos, foram os portões de sua ilustração.

A vontade por aprender não cessava, e ele, informado de que só poderia conseguir alguma instrução em Moscou, decide abandonar tudo em uma diligência comercial, fugindo do pai e de seus planos para ele, apenas com a roupa do corpo e seu pequeno tesouro que mantinha guardado, os dois livros. Chegando lá, passa por inúmeras dificuldades até se matricular em uma das únicas instituições que poderiam ser consideradas de ensino superior do país, a Academia Eslavo-Greco-Latina. Fundada nos anos 1680 por dois irmãos gregos, a instituição era o único lugar da Rússia em que se podia aprender latim, grego, rudimentos de aritmética e geometria, poética, filosofia e teologia. A chegada de Lomonóssov não foi sem dificuldades, pois em primeiro lugar apenas filhos de clérigos poderiam se matricular lá, o que o forçou a mentir sobre suas origens, e em segundo, ele chegava lá com dezenove anos obrigando-o a estudar latim com meninos de onze. Mas os entraves não pararam o jovem que fez os treze anos da Academia em cinco ganhando grande destaque. Logo depois disso, a recém-fundada Academia de Ciências requisitou os melhores alunos da instituição. Lomonóssov foi um deles.

A Academia de Ciências era parte de um projeto maior de Pedro, o Grande, que envolvia a fundação de um ginásio e uma universidade. Esse projeto não foi realizado em vida pelo imperador, e coube a sua sucessora, Catarina I, inicia-lo com a fundação da Academia em 1726. Lomonóssov passou dois anos lá como aluno. Logo depois, foram selecionados os três mais destacados a estudarem com uma bolsa na Alemanha. Lomonóssov foi um deles e logo encaminhou-se para a Universidade de Marburgo onde estudou sob o grande filósofo iluminista Christian Wolff, recebendo uma formação mais geral. É nesse momento em que ele conhece e engravida sua futura esposa, Elizabeth-Christina Zilch. Depois parte para estudar metalurgia em Freiberg, cidade da Saxônia e polo de mineração na Alemanha. Por desentendimentos com o professor, ele abandona a cidade e passa por diversas aventuras nas alemanhas de então, até ser mandado de volta para casa, onde logo ocuparia um posto como professor da Academia de Ciências.

Lomonóssov passaria o resto de sua vida lecionando lá, ocupando o posto de professor de química. Nessa matéria ele compôs diversos trabalhos, como os Elementos de Química Matemática, Reflexões físicas sobre as causas do calor e do frio, entre outros. Por sua insistência com a imperatriz Elizabete Petrovna, é criado o primeiro laboratório de química do país. Em carta endereçada ao grande matemático Leonhard Euler, faz reflexões sobre a conservação da matéria que antedatam as de Lavoisier. Além da química e física, Lomonóssov escreveria ainda muitos outros trabalhos em geologia, geografia, história da Rússia e outras matérias. No campo da astronomia é responsável por outro feito. Ao observar o trânsito de Vênus de 1761, o polímata notou em um artigo todas os detalhes do fenômeno, o que o levou a uma de suas maiores descobertas, a atmosfera do planeta.

Além disso, Lomonóssov foi o responsável pela fundação da primeira fábrica de vidros do país, dando ensejo a parte de seu gênio artístico, a produção de mosaicos. Foram ao todo 16 mosaicos maiores ou menores hoje espalhados pela Rússia celebrando diversos eventos, entre eles, a decisiva Batalha de Poltava, que definiu os rumos da Grande Guerra do Norte. O polímata também deu grandes contribuições para a fundação de instituições de ensino no país, como a reforma do ginásio da Academia e, a mais importante entre elas, a fundação da Universidade de Moscou, que hoje leva seu nome. Como o crítico Vissarion Belínski afirmou, Lomonóssov foi um gênio basilar, aquele sem o qual os grandes gênios da humanidade não floresceriam. Mas foi em outra área que talvez o polímata deixou seu maior legado. Por ela, Por ela, o mesmo Belínski afirmaria: “Lomonóssov é o Pedro, o Grande, de nossa literatura”

III – O Literato.

Lomonóssov foi o primeiro grande poeta da recém estabelecida língua russa. Não apenas isso, mas escreveu trabalhos teóricos para a língua que a fundaram definitivamente. A começar pelo primeiro, em 1739, quando ainda era estudante na Alemanha, compõe, juntamente com o primeiro poema da língua russa moderna, uma carta que lançaria os fundamentos teóricos para a composição de versos em língua russa. A Carta sobre a Composição em Versos Russos, estabeleceu definitivamente a teoria de que os poemas russos deveriam ser compostos observando-se o número de pés, e não sílabas, e que as rimas deveriam

alternar em masculinas e femininas (oxítonas e paroxítonas). O poema enviado, a Ode sobre a Tomada de Khotin, ilustra essas prescrições, e o esquema adotado, o tetrâmetro iâmbico, seria o metro canônico da maior parte dos poemas russos compostos posteriormente, incluindo o Evguêni Oniéguinde Púchkin. A ode é um panegírico à imperatriz Ana Ioânovna que celebra a tomada da fortaleza de Khotin dos turcos em uma das muitas altercações que o império russo teve com o otomano durante o século XVIII. O gênero da ode solene, escrito sempre em homenagem ao monarca reinante para ser declamado em uma audiência pública foi um dos mais praticados no século e teve em Lomonóssov seu poeta mais inspirado.

O polímata não compôs apenas odes em sua produção poética. Lá estão muitos gêneros da poesia classicista russa, como o épico, o poema didático, as paráfrases bíblicas, as meditações filosóficas e a poesia anacreôntica. Na épica, por exemplo, iniciou, compondo dois cantos seu Pedro, o Grande, que celebra os feitos do imperador. No gênero didático, compôs a Carta sobre o Uso do Vidro, poema epistolar endereçado a seu mecenas, o alto cortesão Ivan Chuválov, em que detalha a produção do vidro, bem como sua utilidade para diversas funções. As paráfrases bíblicas, gênero tradicional praticado entre os poetas eslavônicos do fim do XVII estão também entre pontos importantes de sua produção, como diversos poemas baseados nos Salmos e no Livro de Jó. Na poesia anacreôntica deu uma das mais engenhosas demonstrações no gênero em sua Conversa com Anacreonte, em que traduz quatro poemas da anacreôntica grega, respondendo com seus próprios, de modo a propor um credo poético em que ressalta o canto dos heróis e da afirmação da pátria. Não menos importantes são suas Meditações, a Noturna sobre a Aurora Boreal e a Matutina sobre a Grandeza Divina, em que o cientista se coloca na posição de observador maravilhado, no primeiro, com a aurora, e no segundo com o nascer do sol, trazendo diversas reflexões de seus estudos e investigações para a poesia.

Seus outros trabalhos teóricos também foram fundadores. É dele a primeira retórica, bem como a primeira gramática da língua russa. Na introdução da gramática, encontramos a célebre frase:“Carlos V, imperador romano, dizia que mais adequada para falar com Deus era
a língua espanhola, a francesa, com os amigos, o alemão, com os desafetos e o italiano,
com o gênero feminino. Mas se ele na língua russa fosse versado, então, certamente,
acrescentaria que por ela é adequado falar com todos eles, uma vez que teria encontrado
nela a magnanimidade do espanhol, a vivacidade do francês, a firmeza do alemão, a
delicadeza do italiano e, acima de tudo, a riqueza e a vigorosa concisão nas
representações das línguas grega e latina.”
É uma gramática prescritiva, mas que se presta perfeitamente à descrição da língua, que assentou as principais regras do russo, sendo que muitas delas valem para sua forma atual.

Já a retórica, também pioneira na língua, demonstrou todo o gênio do polímata como tradutor com uma pletora de exemplos retirados dos mais diversos autores latinos, gregos, franceses e outros (dentre os quais encontra-se Camões!), ilustrando pela primeira vez na língua as diversas lições que se encontram em suas seções sobre a Invenção, a Disposição e o Ornato. A última versão de sua Retóricafoi o trabalho mais popular de Lomonóssov e um dos livros mais vendidos do século XVIII russo, tendo ao todo sete edições, algumas com tiragens de 1200 exemplares. Por último, mencionemos a Introdução sobre a Utilidade dos Livros Eclesiásticos, em que se expõe a teoria da tripartição de gêneros de discurso em elevado, médio e baixo, de modo que o uso elevado deveria ser composto sobretudo de palavras provindas do eslavônico, como arcaísmos, portanto, oferecendo mais solenidade e pompa ao discurso, enquanto os outros teriam a predominância de palavras neutras e baixas.

Este é um breve quadro sintético, um resumo da vida e obra de um dos mais brilhantes e produtivos polímatas do século XVIII. É verdade que hoje em dia muito de sua produção científica não tenha gerado marcas que permaneceram e sua obra poética possa ser tida meramente como um item da história literária de um país e, embora com qualidades inegáveis, dificilmente desperte em um leitor moderno um interesse autêntico. Porém isso não importa. Como homem de seu tempo Lomonóssov cumpriu seu papel. Gênio basilar, ele foi um gigante que lançou as bases da ciência, língua e literatura russas e, por isso, merece ser lembrado e celebrado.

 

Rafael Frate é mestre em Língua e Literatura Russa pela Universidade de São Paulo. Atualmente, é doutorando em Letras Clássicas na USP

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