Um apelo à civilidade: por menos rótulos e por mais respeito

Um apelo à civilidade: por menos rótulos e por mais respeito

Estado da Arte

29 de novembro de 2016 | 11h00

Por Daniela Goya-Tocchetto

Não, não está tudo acabado com a eleição do novo presidente americano. Tal afirmação reside numa confusão analítica entre causa e efeito. O presidente eleito é apenas um efeito. As causas já há tempos estavam em andamento — e não deixariam de existir no caso de uma vitória da candidata democrata. O que aconteceria nesse exercício contrafactual seria, provavelmente, apenas um falso alívio e um arrefecimento de debates que precisam ser travados entre todos os membros de nossa sociedade — em termos globais, e não restritos apenas a nacionalidades.

A polarização política não aparece agora como novidade no cenário internacional. Bem pelo contrário, os polos opostos do espectro político vêm se afastando nas últimas décadas — e o fenômeno está claro para todos. Com a crise de 2008, vimos um crescimento do ódio (seria ótimo outra palavra aqui, mas não há alternativa) na América Latina, na Europa e nos Estados Unidos. E, com a ascensão desse movimento baseado no rancor e no “desespero econômico,” o consequente fortalecimento do populismo e de valores ultraconservadores. Mas agora, com o resultado da última eleição americana, o país que por tantos anos representou os ideais de tolerância do liberalismo econômico e político entra de forma explícita e institucionalmente endossada nesse movimento. E a repercussão está a afastar ainda mais os tais polos opostos… o que está acontecendo com as pessoas?

As falaciosas dicotomias e o tribalismo moral estão assumindo formas monstruosas. E não, não é falta de educação. Há pessoas com um alto nível de educação dos dois lados desse engendrado embate. O conhecimento está de uma forma ou outra presente. Não há ignorância de fatos. Há o ignorar seletivo de fatos, a escolha pela renúncia às evidências científicas, o tal novo fenômeno da política, a dita “pós-verdade.” E, subjacente a tudo isso, a falta mesmo de respeito. Parece ser esse o núcleo do fenômeno: uma ausência de reconhecimento do outro enquanto animal humano com interesses e fraquezas, a exacerbação das identidades de grupo acima do que de comum possui o ser humano. Uma ausência completa de humildade mesmo.

Foto: Reuters

Foto: Reuters

A banalização de rótulos pejorativos como forma irônica de se referir a pessoas de posições políticas distintas deveria ser engraçada. Sinceramente, não consigo ver nada de engraçado nisso no nosso atual contexto. Em uma visão puramente consequencialista, o uso indiscriminado de rótulos simplificadores acarreta uma série de implicações negativas. Primeiro, os rótulos geram uma ultra-simplificação de posições políticas e econômicas que possuem uma infinidade de nuances e características que, devido à adoção dos rótulos, são progressivamente esvaziadas do debate. Além disso, os rótulos acentuam a divisão das pessoas entre grupos de identidade distintos — e, em face da nossa estrutura psicológica tribal, realmente não precisamos exacerbar essa tendência se queremos de fato viver num mundo globalizado que transcende fronteiras. Esse processo que se autoalimenta gera então um espaço de debate vazio de ideias e abarrotado de preconceitos.

Criamos e diariamente alimentamos esse espaço desprovido de virtudes cívicas que tornam o exercício democrático possível. Esse espaço atomizado e habitado por grupos de identidade dispostos não a debater ideias, mas a levantar bandeiras e se engajar no ataque recíproco. Na ausência de tolerância, de respeito e de “escutar com o intuito de entender o outro” não há espaço para a verdadeira troca de ideais. Não são as ideias que vencem por serem mais condizentes com os fatos, mas as versões manufaturadas de fatos que chegam vitoriosas após um processo de esgotamento de significado dos conceitos.

Sim, os americanos elegeram um político que de forma aberta e pública assumiu posições xenofóbicas, racistas, contrárias a consensos científicos etc. Mas o seu discurso de uma forma ou de outra representa a visão de mundo de uma parcela significativa da população. Não podemos ceder à simplificação de que essa parcela é homogeneamente racista e preconceituosa, pois essa simplificação é falsa. Mas existe um medo que parece ubíquo entre seus apoiadores: um medo do outro e um medo do diferente, e um medo enquanto resposta a mudanças econômicas e políticas que de fato excluíram o “branco pobre” como alvo de benefícios públicos—levando ao chamado “paradoxo do estado pobre e republicano.”

As camadas da população que antes participavam de forma integrada de uma classe média próspera se encontram agora marginalizadas pelos desenvolvimentos da economia e pela falta de representação política. Os republicanos de camadas pobres em grande parte descrevem um sentimento comum. Eles se sentem atacados pelos liberais (isto é, os progressistas americanos) com uma artilharia de estereótipos (racistas, homofóbicos, xenofóbicos, sem educação, sub-humanos); eles se sentem invisíveis, marginalizados, esquecidos; eles reportam trabalhar duro e não conseguir progredir (o salário real do trabalhador médio é o menor em 4 décadas).

De maneira alguma devemos fomentar o “medo” da competição com minorias e imigrantes no mercado de trabalho. A economia é dinâmica e o progresso não é fruto de políticas retrógradas e do fechamento de fronteiras—sejam elas internas ou externas. Mas existe uma necessidade de diálogo real e não apenas fictício que precisa ser atendida. Uma necessidade de baixarmos as armas da ironia, de baixarmos todos as nossas cabeças, de adotarmos uma postura de igualdade e de humildade, de voltarmos nossa atenção ao que temos em comum, de reconhecer no outro alguém com interesses e fraquezas, de alimentar o respeito e a civilidade entre os membros da nossa sociedade. Precisamos preencher novamente o debate público com ideias — se temos qualquer intenção de seguir caminhando em direção a um mundo pacífico e mais desenvolvido.

Daniela Goya-Tocchetto é professora adjunta de Filosofia no Charleston College (EUA).

Ouça no Estado da Arte – o cânone em Pauta: “Tolerância”

Leia no Teatro do Mundo: “Anatomia da Democracia” de Alexis de Tocqueville