Trump e a ressaca do dia seguinte

Trump e a ressaca do dia seguinte

Estado da Arte

09 de novembro de 2016 | 13h57

por Felipe Massao Kuzuhara

Donald Trump deu um tapa na cara de todo mundo. Até ontem, muitas pesquisas e análises apontavam o grande favoritismo de Hillary Clinton. Mas ele venceu. Contra o Partido Democrata, contra a mídia, contra uma grande parcela de seu próprio partido, contra os valores que convencionalmente são defendidos no debate público, contra as minorias, e contra os fatos. Dito de outra maneira, Trump venceu a corrida presidencial mesmo tendo de enfrentar o atual governo americano (Obama), o complexo midiático-cultural (uma enorme quantidade de jornais e publicações formalmente apoiou Hillary, assim como artistas, celebridades do esporte e outros famosos), os figurões republicanos (George Bush e Mitt Romney, por exemplo), e apesar de ter insultado mulheres, muçulmanos, judeus e latinos, ou rejeitado valores como cooperaçãoo, igualdade, humildade, e respeito. Apesar de tudo isso, Donald Trump venceu, e o fez legitimamente, na América.

Donald Trump: surpresa para o establishment político e midiático

Donald Trump: surpresa para o establishment político e midiático

Nesse momento de choque, reações em relação à notícia sobre Trump tentam juntar os cacos da derrota. Elas apontam para a catástrofe moral associada à vitoria de Trump, e para os possíveis culpados pela derrota de Hillary Clinton. Ela, que sempre foi vista como uma candidata relativamente frágil, dado o potencial de escândalos que poderiam surgir de sua vida pessoal ou ainda simplesmente por sua falta de carisma. Além do mais, teriam seus estrategistas errado no foco de campanha, ao mirarem seus esforços nos estados errados? Esses detalhes que dão conta do presente parecem ser irrelevantes agora porque somos forçados a olhar para o futuro, além de Obama.

Fica dificil prevermos o que Trump fará assim que assumir a presidência. Suas retórica inflamada e irresponsável venceu e conduziram seu partido a uma maioria no congresso americano. Mas seu palavrório deixa de lado qualquer discussão aprofundada sobre como governar – a não ser que voce acredite seriamente que erguer um muro entre os Estados Unidos e o México faça parte de uma política mais séria.

Para mim, esse palavrório vazio seria precisamente a chave-mestra para compreendermos o fenômeno Trump. Porque ao falar de maneira agressiva, confiante, mas politicamente vazia , Trump ocupou o papel simbólico de um bufão. Isto é, ele passou a operar o papel de alguém competindo pela presidência ao mesmo tempo que ridicularizava todo o embate politico. “Levem-me a sério porque nada mais pode ser sério”, pareceu ser seu mote de campanha. Foi nessa toada que Trump derrotou não apenas Clinton e o Partido Democrata, como também todo o modo tradicional de se fazer política no Partido Republicano.

Ao encarnar esse bufão, ou esse ente ambíguo entre o escárnio leviano e a ameaca de ser seriamente perigoso, Trump passou a ganhar o trabalhador daquela porção dos Estados Unidos mais profundo e desiludido, distante das grandes cidades e cansado de esperar por um governo ou sistema político que possam lhe representar. Rindo de si mesmo e dos outros, Trump conseguiu os votos do eleitorado e conquistou sua vitória de maneira fascinante.

Tudo isso torna muito difícil saber o que esperar de uma administração Trump. Afinal de contas, seu eleitorado exige respeito e representação, mas tudo o que Trump ofereceu ate agora foram palavras de fúria ao vento, significando nada.

Felipe Massao Kuzuhara é economista, mestre em teoria psicanalítica e doutorando pelo Birkbeck College (Londres) em Psicologia Social.