Somos as falsas viúvas do museu, ou queremos mesmo uma reforma cultural no Brasil?

Somos as falsas viúvas do museu, ou queremos mesmo uma reforma cultural no Brasil?

Como podemos reconstruir mais do que um Museu? Como podemos reerguer nossa imagem de uma cultura nacional plural e compartilhada? Isabelle Anchieta analisa alguns caminhos.

Estado da Arte

08 Setembro 2018 | 14h00

Museu Nacional do Rio de Janeiro: Corpo de Bombeiros deve levar mais de dois dias para fazer rescaldo do incêndio Foto: Marcos Arcoverde/Estadão

por Isabelle Anchieta

Os brasileiros choram a perda do seu mais antigo museu. Era um dos mais importantes, sem dúvida. Muitos sequer o conheceram. Alguns têm lido isso como uma atitude hipócrita ou, nas palavras de um ministro, seríamos suas ‘falsas viúvas’. No entanto, falta uma leitura mais cuidadosa do contexto para compreender a comoção nacional. O Brasil vive, desde 2013, uma pronunciada e avassaladora mudança de mentalidade social. Os brasileiros estão hoje mais próximos dos vingativos e canibais tupiniquins do que da imagem dos cordiais e apáticos cidadãos que o século XX nos legou. Tudo é devorado ideologicamente. E isso é bom (e ruim) ao mesmo tempo.

Um aumento da temperatura política ateou fogo no debate social. Mesmo os que sempre reclamaram da apatia nacional estão assustados diante da violência. A paciência parece ter se esgotado. A corrupção, a impunidade, os privilégios, a má distribuição dos recursos públicos, e toda uma pletora de males saídos de uma caixa de Pandora que os brasileiros conhecem muito bem, fazem fundo ao acontecimento. É nesse ambiente convulsionado e apaixonado que se dá a “tragédia anunciada” com o incêndio do Museu Nacional. Mas, ao que tudo indica, ela não queimará a nossa última esperança.

A nova paixão nacional não se restringe mais ao futebol ou às novelas. Há uma cidadania em curso − ainda que imatura e violenta. As pessoas acompanham, cobram e se engajam. Os investimentos em cultura têm sido, há algum tempo, alvo de discussão, especialmente se concentrando na crítica a um dos mecanismos de financiamento, a lei Rouanet. Não propriamente a distribuição de dinheiro, mas os critérios de seleção são postos à prova. Questiona-se (com razão) por que os recursos são destinados a artistas consagrados e não aos novos talentos − que possuem poucas alternativas. Por que se investe em shows populares que cobram entradas e não em museus e bibliotecas públicas? Questiona-se por que construímos novos espaços e abandonamos a manutenção dos que já existem e carecem de atenção?

A desconfiança dos brasileiros nunca esteve tão aguçada. A impressão (quase sempre verdadeira) de que a corrupção perpassa as escolhas, mais do que o mérito em si da obra e do artista, é a tônica da crítica aos investimentos culturais do país. Indício de que é preciso refundar no país uma ideia de cultura nacional − definindo parâmetros claros e objetivos para os investimentos públicos que estejam para além dos interesses partidários, ideológicos e econômicos. Essa é mais uma das reformas necessárias: a Reforma Cultural.

Engana-se quem pensa que os brasileiros não se interessam por sua cultura e por seus espaços culturais. Nunca se venderam tantos livros de história nacional como nos últimos dez anos. Os espaços culturais (em grande medida financiados pela iniciativa privada) florescem em diversas capitais e são, sim, muito prestigiados. Belo Horizonte é um bom exemplo disso. O Circuito da Praça da Liberdade, a Estação Cultural (complexo arquitetônico que abarca uma sala de concertos para a Orquestra Filarmônica) e Inhotim registram uma considerável frequência de público. Tanto que a capital mineira e Curitiba possuem os maiores índices de visitação a espaços culturais do país. 38% dos entrevistados disseram ter visitado algum museu na cidade, segundo pesquisa do Datafolha junto ao JLeiva em 2017. A pesquisa intitulada “Cultura nas capitais: como 33 milhões de brasileiros consomem diversão e arte” é a maior já realizada sobre os hábitos culturais dos brasileiros e seus resultados desmistificam muitos estereótipos nacionais. Perguntados sobre a prática cultural preferida, a leitura aparece em primeiro lugar. Um terço dos entrevistados respondeu que, sim, que conhece um museu de sua cidade. 66% deles disseram ter interesse em ir, mas alegam a falta de tempo para o lazer cultural.

Há um público potencial e o modelo de sucesso de alguns espaços merece atenção e replicação. Portanto, não parece que nosso problema seja a indiferença dos brasileiros. Muito pelo contrário. Com velocidade considerável, cresce o interesse pela cultura nacional e pela cultura em geral. O aumento de público nos museus é sintoma disso.

Por isso, ao se comoverem com a tragédia do Museu Nacional, os brasileiros − inclusive os que não o conheciam, tomando a perda como ainda mais sentida − revelam um desejo de mudança. Compreenderam que a cultura é o que dá rosto e significado a um país. A “teia de significados que nós próprios tecemos”[1]  e que é preciso recompor o que foi destruído, sob o risco de perdermos os laços (ainda que ambíguos) que nos unem e dão sentido a nossas vidas em comum.

A cultura não pode ser tomada como um item menor das nossas prioridades. Muito pelo contrário. Sempre me perguntei se poderíamos obter os resultados social e econômico que tanto almejamos por uma via não tão convencional. Em outras palavras: se a Cultura fosse prioridade no país? Para muitos, isso parece um caminho ilógico. Não é. O fato é que “nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós”[2]. A prova está na história. Nos esporádicos momentos em que apostamos em nossas particularidades culturais, o país floresceu social (e economicamente), visto que a cultura no Brasil é o centro de propulsão para os demais. Quem não entender isso, não entenderá o Brasil.

Como bem dizia o poeta Tom Jobim, “O Brasil não é para principiantes”. E será apenas ressaltando nossa vocação criativa, artística e intelectual, que a roda do país Tupiniquim girará. Importar o modelo de uma cartilha econômica padrão que começa cortando pelo que julga superficial sob a aparência de controle das contas é o caminho mais rápido para a nossa degradação. Uma estratégia que acaba por sufocar e limitar o que temos de melhor e o que pode nos impulsionar intelectual e economicamente.

Acrescentaria, no entanto, à frase do poeta um esclarecimento: isso não significa que devemos estar sob a condução dos malandros. No sentido mesmo de compreender que é preciso ler a complexidade do país, sem que recaiamos na velha armadilha populista de sermos conduzidos por algum salvador da pátria. É preciso retomar o controle dos bens culturais públicos pelo público, implementando modelos de governança que incluam a participação da sociedade civil e da iniciativa privada antes que seja também tarde demais para os outros espaços culturais e, assim, para nós.

O Brasil ainda tem muito a perder. Mas também tem muito para tecer em comum e assim ‘ser’. Essas duas temporalidades estão relacionadas. Abraçar nossas ambiguidades históricas é um caminho para entender, criticar, valorizar e potencializar uma identidade particular que aqui se forjou. Uma identidade constituída por uma mescla cultural que tanto enriqueceu nossa produção artística e humanística. Atravessados por muitos continentes, os brasileiros são vestígio e potência. Violência e cordialidade. Mas somos hoje, sobretudo, um país em crise e que pode usar a oportunidade do caos para compreender (ou não) a centralidade da cultura para a recomposição de sua face.

 

Isabelle Anchieta é doutora em Sociologia pela USP, mestre em Comunicação pela UFMG, premiada como Jovem Socióloga pela ISA/UNESCO.

 

[1]Conceito de cultura definido originalmente por Weber e desenvolvido por Clifford Geertz, no livro A Interpretação das Culturas, LTC. 2012.

[2]Oswald de Andrade, Manifesto Antropofágico, 1928.