Sobre polegares e poltrões: a sobrevivência de um insulto

Sobre polegares e poltrões: a sobrevivência de um insulto

Por que o gesto de morder o polegar resulta em uma peleja de espadas no início de “Romeu e Julieta”? José Francisco Botelho, Câmara Cascudo e Montaigne explicam.

Estado da Arte

23 Janeiro 2018 | 16h00

por Cláudio Ribeiro

Quando iniciamos a leitura da peça Romeu e Julieta nos deparamos logo com um diálogo cheio de trocadilhos e frases de duplo sentido entre dois criados dos Capuletos, Sansão e Gregório. Ao avistarem dois dos seus rivais da casa dos Montéquios, Sansão e Gregório discutem rapidamente um modo de provocá-los. Enquanto Gregório diz que fará uma careta quando passarem pelos sujeitos, Sansão revela a sua preferência por um gesto mais aviltante: “Nay, as they dare. I will bite my thumb at them, which is a disgrace to them if they bear it.” Na tradução de José Francisco Botelho: “Vejamos se têm coragem. Vou morder o polegar para eles; se aguentarem quietos, será um vexame”.[i]

Como se sabe, um dos criados dos Montéquios, Abraão, não “aguenta quieto”, posto que percebe o insulto. Após breve diálogo enviesado e cômico, tem início o combate de espadas.

Mas fica a pergunta: por que o gesto de morder o polegar, naquele contexto, foi tão ofensivo? Claro que é o caso de o editor ou o tradutor nos socorrer com uma nota explicativa. É o que faz José Francisco Botelho:

Morder o polegar era um gesto ofensivo — como, entre nós, mostrar a língua ou o dedo médio. Havia um modo específico de se praticar esse insulto; não bastava mordiscar o dedão, como um petisco imaginário; era preciso gerar um estalo audível, para que se chegasse ao desejado efeito de ultraje. Colocava-se, primeiro, o polegar dentro da boca, entre as mandíbulas, com a polpa para baixo; devia-se em seguida fazê-lo sair dali com relativa impetuosidade, batendo-lhe a unha nos dentes superiores. O ruído assim produzido era grave insulto, como se verá pela reação do criado dos Montéquios.[ii]

Como podemos perceber, é como se Sansão arrancasse o polegar com uma mordida. O ruído final soa como o estalo de uma amputação atroz. A pista que nos fornece Botelho é valiosa porque explica como se mordia o polegar com intuito ofensivo; dá-nos o pathos do gesto. Mas, para que a ambiência da cena fique mais vívida, a partir da descrição de tradutor, é necessário que aprofundemos nossa investigação.

Sigamos, pois.

No livro História dos nossos gestos, precisamente no verbete de número 148, intitulado “Morder o polegar era desafio”, o estudioso de cultura popular Luís da Câmara Cascudo nos diz que um grande médico do Recife, chamado Eduardo Wanderley, certa feita incitou-o a explicar o motivo de o gesto de Sansão atrair refrega. Eis a resposta de Cascudo:

Aqueles que em Roma temiam as agruras da vida militar decepavam os polegares, evitando empunhar espada ou lança. Era o Polleo truncus, polegar cortado, o poltrão. Crime contra a dignidade romana, segundo Suetônio e Amiano Marcelino. Epíteto de desonra e vilta, determinando desafronta imediata. Morder o polegar era alusão irônica à pusilanimidade e timidez covarde do apontado pelo gesto. Por isso, Sampson e Abraham foram às espadas na primeira cena do primeiro ato de Romeu e Julieta.[iii]

Segundo Cascudo, o que vemos na primeira cena do primeiro ato de Romeu e Julieta é, portanto, a “sobrevivência” na Verona shakespeariana de um gesto que remonta à antiga Roma. Ao morder o polegar, do modo como lemos da descrição da nota de Botelho, simulando arrancá-lo, decepá-lo ruidosamente entre os dentes, Sansão chama o seu rival de pusilânime, de poltrão. Num só gesto, toda uma carga semântica extraordinária. Abraão compreende a ofensa porque percebe a alusão à impossibilidade de um homem viril, um guerreiro, empunhar e manejar a espada, estando com o polegar amputado (Polleo truncus).

O mais interessante: Sansão, justamente quem opta por fazer o gesto indicador de covardia, de pusilanimidade, é ele próprio um pusilânime, um covarde. Por isso mesmo é alvo de chacotas do companheiro Gregório, nas falas anteriores a esta do encontro com os Montéquios.  Em outra nota, comentando tais falas, José Francisco Botelho deixa isso patente: “‘I strike quickly, being moved’ [eu logo ataco, se for provocado], diz Sansão; ao que Gregório replica ‘But thou art not quickly moved to stricke’ [mas você tarda a ser movido a atacar] . . .  as sucessivas bravatas são interpretadas, insistentemente (por Gregório), como sinais de pusilanimidade.” Sansão é o nome da personagem bíblica associada à força física, à virilidade. Ironicamente, Shakespeare nos dá um Sansão ao inverso.

Mas não paremos por aqui.

No livro II dos Ensaios de Michel de Montaigne, o capítulo XXVI intitula-se precisamente “Dos polegares”. Citando autores romanos como Tácito, Marcial, Horácio e Juvenal, Montaigne compila, neste texto, exemplos da correlação entre os polegares e o poder (militar e político) associado à virilidade.  Dois parágrafos contêm exemplos verdadeiramente impressionantes, sobretudo quando somados àqueles que Câmara Cascudo colheu de Suetônio e Amiano Marcelino, para fundamentar sua resposta ao médico Eduardo Wanderley.

Escreve Montaigne, na tradução de Sérgio Milliet:

Os romanos excluíam do exército quem ferisse o polegar, considerando que não teria força bastante para empunhar armas. Augusto confiscou os bens de um cavaleiro romano que decepara o polegar de seus filhos na primeira infância, a fim de isentá-los do serviço militar. Antes dele, o Senado, por ocasião das guerras sociais, condenara Caio Vacieno à prisão perpétua e à confiscação dos bens por haver voluntariamente cortado o polegar da mão esquerda com o objetivo de se esquivar à guerra.

Alguém, cujo nome esqueço, tendo ganho um vitória naval, mandou decepar o polegar de todos os prisioneiros para tirar-lhes a possibilidade de lutarem e manejarem o remo. Os atenienses fizeram o mesmo com os habitantes da Egina para despojá-los da superioridade nas artes marítimas.[iv]

Histórias de outras tradições, como a de Adoni-Bezeque, narrada em Juízes 1, 5-7, vão na mesma direção. Cascudo, que publicou em 1940 uma tradução de “Des Cannibales”, de Montaigne, era grande admirador dos Ensaios; certamente conhecia “Dos polegares” e pode ter se lembrado dos dois parágrafos citados acima, quando se pôs a meditar sobre o gesto do Sansão shakespeariano.

A ars combinatoria de William Shakespeare, como visto, exige de nós atenção redobrada, não apenas para cada fala de cada cena, mas para cada gesto, dada a obstinada “sobrevivência” dos mesmos.

Cláudio Ribeiro é Mestre em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e sócio da Editora Caminhos.

  • [i] SHAKESPEARE, W. Romeu e Julieta. São Paulo: Penguin Classics/ Companhia das Letras, 2016, p. 66.
  • [ii] Idem, p. 191.
  • [iii] CASCUDO, L. C. História dos nossos gestos. Belo Horizonte: Itatiaia/ São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1987, p. 124.
  • [iv] MONTAIGNE, M. Ensaios. São Paulo: Editora 34, 2016, p. 666.

Para saber mais: