SHAKESPEARIANAS, por J. Francisco Botelho: Fantasmas de Shakespeare

SHAKESPEARIANAS, por J. Francisco Botelho: Fantasmas de Shakespeare

Da visita de Odisseu ao Hades aos fantasmas de Shakespeare, José Francisco Botelho nos conduz pelo assombro da presença do Além nos clássicos shakespearianos.

Estado da Arte

04 Agosto 2018 | 16h00

Macbeth contempla o espectro de Blanquo no filme de Orson Wells.

 

por José Francisco Botelho

A literatura ‒ felizmente para nós ‒ sempre foi assombrada por fantasmas.

No livro XI da Odisseia, o personagem que dá nome ao livro desce ao mundo dos mortos em busca de Tirésias, célebre e finado adivinho, por recomendação da maga Circe. Para atrair as almas que vagueiam pelo Hades, Odisseu verte sobre o chão o sangue quente de um animal sacrificado. E lá vêm elas, as sombras do Além, guinchando como morcegos, multitudinárias, sequiosas de sangue; ao bebê-lo, recuperam o dom da fala e podem partilhar com os visitantes seu peculiar conhecimento sobre  passado e o futuro. Ao se deparar com o espectro do amigo Aquiles, Odisseu o saúda como o mais magnífico dos fantasmas; mas o filho de Peleu retruca, algo irritado: “Eu preferia ser um lavrador sobre a terra do que um rei no mundo dos mortos” (séculos depois, Milton colocaria essa frase, invertida, na boca de Satanás: “melhor reinar no inferno do que servir no céu”).

A passagem de Homero é um dos mais antigos tratamentos literários da complexa coabitação entre os vivos e os mortos ‒ que, apesar da separação metafísica, parecem obcecados em frequentarem-se mutuamente. Em certo sentido, contudo, o livro XI da Odisseia é o oposto do que geralmente esperamos em uma história de fantasmas: é o herói quem vai visitar os espíritos, e não o contrário. Na tragédia As Troianas, escrita por Sêneca no século I, o próprio Aquiles faz o caminho inverso: sua alma rancorosa sobe do Hades à Terra e aparece ao adivinho Taltíbio, exigindo o sacrifício da infeliz Polixena. Na obra Philopseudes, do século II, Luciano de Samosata conta a história de certa morada em Corinto, habitada pelo espírito violento de um homem assassinado no local, que não há de descansar enquanto não lhe exumarem os ossos ‒ relato precursor das histórias de casa assombrada que, em 2018, ainda parecem longe de sair de moda. Os antigos, como se vê, levavam muito a sério a fúria, o desagrado ou o simples desconforto dos mortos. Conta Ovídio, nos Fastos, que os espectros mal-intencionados, conhecidos como lêmures, rondavam as residências dos vivos nos dias 9, 11 e 13 de maio. Para exorcizá-los, o dono da casa deveria jogar feijões pretos na rua, clamando: Espírito de meus antepassados, ide embora!Além de sangue, os fantasmas sabidamente gostavam de feijões: comendo-os, saciavam-se e voltavam à mansão dos mortos.

Odisseu visita o Hades.

No cânone shakespeariano, ao menos três cenas essenciais envolvem nossos complicados vizinhos de logradouro cósmico.

O fantasma mais célebre da literatura ocidental sobe ao palco na primeira cena de Hamlet: é o Espectro do velho rei, que vem exigir vingança por seu próprio assassinato. Morto durante um cochilo no jardim, Hamlet Pai não teve tempo de confessar suas culpas ou receber os derradeiros sacramentos; por isso, o assassino ‒ seu próprio irmão, Cláudio ‒ não apenas lhe roubou a vida, como o condenou a uma temporada no purgatório. Quando finalmente encontra o filho face a face (Ato I, Cena V), o Espectro alude ao funesto cotidiano dos espíritos que chegam ao Além com pendências morais. Cito a já clássica tradução de Lawrence Flores Pereira:

 

Sou o espírito de teu pai,

Fadado por certo termo a andejar à noite,

E recluso de dia a jejuar entre fogos,

Até que os tetros crimes feitos em meus dias

Queimem e se depurem. Não me fosse interdito

Relatar os segredos da minha prisão,

Contaria uma história em que o mais leve verbo

Te gelaria o sangue e extirparia a alma,

Teus olhos saltariam como astros das orbes,

Teus cachos bem trançados se desprenderiam,

E cada um desses fios se ergueriam todos

Como cerdas hostis do arisco porco-espinho.

Mas esse eterno brasão não foi feito pra ouvidos

De carne e osso.

O fantasma do pai: cena do filme “Hamlet”, dirigido por Kenneth Branagh.

Também busca vingança o fantasma que vem atormentar Macbeth na peça escocesa. Ao entrar no salão do castelo para um banquete com os nobres, o sanguinário monarca se depara com o espectro de seu amigo Banquo ‒ que o personagem-título mandara matar algumas cenas antes. Shakespeare não coloca palavra alguma em sua boca, e tudo o que dele sabemos nos é dito pelas expressões de espanto do próprio Macbeth. Como ocorria entre algumas almas do antigo Hades, Banquo carrega as feridas que recebeu em vida: vinte talhos de punhal na cabeça, desferidos por um celerado a soldo do rei. Suas “melenas ensanguentadas” se balançam quando se vira para o amigo traidor e nele crava os olhos vítreos.  Macbeth, que jamais sentiu medo, depara-se com a nêmesis da má consciência. “Tudo o que os homens ousam, eu também ouso; ataca-me como um urso pavoroso das desolações russas, ou um rinoceronte eriçado de armaduras, ou um tigre da Hircânia, assume qualquer forma menos esta ‒ e meus firmes nervos jamais hão de tremer. Ou então retorna à vida e me chama para duelar nos ermos com tua espada; e se me vires tremer, podes dizer que sou uma criança de colo. Vai embora, sombra horrível, vai embora, zombaria irreal!” Banquo se retira, sim ‒ mas os lêmures sempre acabam voltando.

O Espectro do Velho Hamlet é verboso; o de Banquo é mudo; já o fantasma de Júlio César demonstra uma apropriada brevidade latina. Na Cena 3 do Ato 4, Bruto se prepara para dormir na tenda de campanha. Meses atrás, apunhalou seu melhor amigo no Fórum romano, movido por incontornável dever cívico; em alguns dias, enfrentará Marco Antônio e Otávio, vingadores de César, no campo de Filipos. Apanha um livro, acende uma vela e senta-se no catre para ler um pouco. De repente, a chama da vela torna-se tíbia ou azulada ‒ na Inglaterra elisabetana, isso era sinal de aproximações sobrenaturais. Recorto o diálogo seguinte, em minha própria tradução:

BRUTO:

Que estranha chama arde nesta vela!

Que é isso? Quem vem lá, quem se aproxima?

Eu acho que a fraqueza dos meus olhos

Formou esta monstruosa aparição.

Ela avança. És acaso um ser real?

És algum deus, um anjo, algum demônio

Que fazes o meu sangue congelar

E me eriças a ponta dos cabelos?

Fala comigo e diz o que tu és.

Fantasma

Teu gênio mau, oh Bruto.

Bruto

E por que vens?

 Fantasma

Dizer que nos veremos em Filipos.

Bruto

Bem; então, voltarei a te encontrar?

Fantasma

Sim, em Filipos.

Bruto

Certo: em Filipos te verei, então.

Será essa “monstruosa aparição” o espectro de César, uma ilusão gerada pelo remorso do próprio Bruto, ou, de fato, “um deus, um anjo, algum demônio”? Seja como for, ela vem anunciar o que todos os fantasmas nos repetem desde os tempos em que Circe nos enviou ao Hades: há certas dívidas que não podem ficar sem pagamento. Bruto morrerá em Filipo, tombando sobre a própria espada ‒ e quando o faz, é quase com alívio. “Agora, César, quieta a alma: não te matei com tanto gosto ou tanta calma.” O horror sagrado, que vai muito além da ameaça física, surge quando o fantasma traz no semblante aquilo que, no fundo, já conhecemos: a culpa, o desespero, o desejo obscuro, o império do passado sobre o presente, a inevitabilidade e o fascínio de nosso próprio fim. Falantes ou mudas, as assombrações mais veementes são as que andam sempre ao nosso lado.

José Francisco Botelho traduziu “Contos da Cantuária” (Chaucer) e “Romeu e Julieta” e “Júlio César” (Shakespeare) para a Penguin/Companhia das Letras, tendo vencido duas vezes o Jabuti na categoria de tradução. É escritor, jornalista e tradutor. Seu livro de contos A árvore que falava aramaico (Zouk – 2011) foi finalista do prêmio Açorianos.