SHAKESPEARIANAS, por J. Francisco Botelho: “Et tu, Brute?”

SHAKESPEARIANAS, por J. Francisco Botelho: “Et tu, Brute?”

Da Roma Imperial a Jorge Luis Borges, José Francisco Botelho nos conta a trajetória shakespeariana das palavras de Júlio César.

Estado da Arte

22 Setembro 2018 | 18h00

 

por José Francisco Botelho

Misteriosos, tortuosos, infinitos são os caminhos das palavras ‒ e das metáforas, e das expressões proverbiais; nenhuma imagem retórica nos cruza os lábios sem ter, atrás de si, uma história às vezes secreta de descoberta, desencontro, esvanecimento e estranhas ressurreições. Poucas obras legaram à posteridade tantas e tão ubíquas citações quanto a de Shakespeare; que eu saiba, nesse ponto específico, apenas a Bíblia se lhe compara.

Naturalmente, a maioria das contribuições shakespearianas deu-se na língua inglesa ‒ que mantém vivas, mesmo na fala quotidiana, linhas oriundas diretamente das peças do Bardo e aplicáveis às mais diversas situações.  It has seen better days (“já viu dias melhores), diz-se sobre um velho casaco, um automóvel usado, um casarão precisando de pintura; a expressão foi usada por Shakespeare em Timeu de Atenas e Como Gostais. A green-eyed monster (“um monstro de olhos verdes”), diz-se sobre o ciúme doentio; a imagem foi cunhada por Shakespeare em Otelo. Brave new world! (“Admirável mundo novo!”), exclama-se perante uma conjunção inusitada de circunstâncias, sejam elas promissoras ou desastrosas; a frase, que deu título a um romance de Aldous Huxley e a um álbum do Iron Maiden, foi inaugurada por Miranda em A Tempestade. Curiosamente, no entanto, uma das citações shakespearianas mais universalmente repetidas não está em inglês, mas em latim. São as palavras que Júlio César exclama ao perceber que seu amigo dileto, e talvez filho bastardo, encontra-se entre os conspiradores que o apunhalam: Et tu, Brute? Em inglês, a citação é sempre feita em latim, como no texto d’A tragédia de Júlio César, escrita em 1599; em português, transformou-se em Até tu, Brutus?‒ não deixando de fornecer uma certa animação classicista a brigas de botequim e manchetes de revista até nossos dias.

Tão célebre tornou-se a frase que muitas pessoas acreditam, com efeito, ter sido ela pronunciada pelo Júlio César histórico, nos verídicos Idos de Março de 44 a.C. As palavras, no entanto, não aparecem nas fontes clássicas. Nas Vidas de Plutarco ‒ obra que Shakespeare consultou na tradução inglesa de Sir Thomas North ‒, os momentos finais de Júlio César transcorrem num silêncio horrorizado: “César defendeu-se dos atacantes, correndo de um lado para outro, mas ao ver Bruto empunhando a espada, cobriu o rosto com o manto e parou de resistir”. Em Os doze Césares, de Suetônio, o ditador romano de fato dirige três derradeiras palavras a Bruto; mas ele as pronuncia em grego e não chama o mortífero amigo pelo nome: “E assim ele foi apunhalado vinte e três vezes, sem nada dizer, apenas soltando um gemido ao primeiro golpe; mas há quem diga que, quando Marco Bruto o atacou, César teria exclamado em grego: Kai su, theknon? Até tu, rapaz?, ou Até tu, meu filho?“.

É possível que a forma mais célebre da exclamação cesariana ‒ Et tu, Brute?‒ tenha sido criada pelo próprio Shakespeare ‒ antes de ATragédia de Júlio César, a frase já aparecera em uma versão primitiva de Henrique VI, parte 3, de 1591. Também há indícios de que as ínclitas palavras finais tenham surgido em 1581, na peça Caesar Interfectus, composta por um certo Richard Eedes e hoje perdida.

As palavras se corroem, se refazem, se entredevoram, mas o horror da confiança traída e a patética resignação ante o infortúnio são sentimentos que ‒ temo eu ‒ jamais envelhecerão. Em A Trama,  um dos contos de O Fazedor, Jorge Luis Borges utiliza a cambiante exclamação de Júlio César para ligar a antiga Roma ao pampa sul-americano:

Para que seu horror seja perfeito, César, acossado ao pé da estátua pelos impacientes punhais de seus amigos, descobre entre os rostos e as lâminas a face de Marco Bruto, seu protegido, talvez seu filho, e já não se defende e exclama: Tu também, meu filho! Shakespeare e Quevedo recolheram o patético grito. Ao destino agradam as repetições, as variantes, as simetrias; dezenove séculos depois, no sul da província de Buenos Aires, um gaúcho é atacado por outros gaúchos e, ao cair, reconhece seu afilhado e lhe diz com mansa condenação e lenta surpresa (estas palavras devem ser escutadas, não lidas): “Mas, tchê!” Matam-no, e não sabe que morre para que se repita uma cena.

José Francisco Botelho traduziu “Contos da Cantuária” (Chaucer) e “Romeu e Julieta” e “Júlio César” (Shakespeare) para a Penguin/Companhia das Letras, tendo vencido duas vezes o Jabuti na categoria de tradução. É escritor, jornalista e tradutor. Seu livro de contos A árvore que falava aramaico (Zouk – 2011) foi finalista do prêmio Açorianos.