Sexo, Balzac e Woody Allen – Lá vai outro romance

Sexo, Balzac e Woody Allen – Lá vai outro romance

Estado da Arte

05 Julho 2018 | 12h00

por Thiago Blumenthal

A piada talvez seja célebre para os iniciados em Woody Allen, ou em Balzac. Alvy Singer, o protagonista paranoico de Annie Hall, em sua primeira noite com Annie (Diane Keaton), lhe diz, após o coito, “well, as Balzac said, there goes another novel” – bem, como disse Balzac, lá vai outro romance. (Intelectualoides riem no cinema, sem entender nada. Mas riem. Porque doutos sempre gargalham. Quanto mais alto possível, melhor. Têm essa alegria de viver, esse êxtase catártico fake com qualquer arte ou com qualquer groselha que lhes pareça inteligente).

Na cena em que Allen acaba de copular com Keaton, a frase sobre Balzac recai perfeita, em um timing sublime. Ela, claro, não entende, caipira de Wisconsin, ou algo assim, que nunca pegou um Balzac pra ler na vida e está a se meter com psicanálise, como muitas garotas de meia-idade, na crise pós-casamento enfadonho – trocam o sexo por Lacan. É o que Keaton faz. E por isso não entende a piada também. Lacaniana demais, não sabe nada de sexo. Trocou o sexo por Lacan e por ácido lisérgico, ou alguma droga natureba californiana, que transforma qualquer vendedor de milk-shake em guru hindu.

O esperma era para Balzac a emissão mais pura do substrato cerebral, tanto que sempre que passava uma noite com uma encantadora madame ou uma mademoiselle em Paris, voltava chorando até a casa de um amigo no meio da madrugada: “J’ai perdu un livre”.

Woody Allen protagoniza um espermatozoide em Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo, mas tinha medo de perguntar.

Toda a motivação para escrever, ele que escrevia de maneira doentia, se perdia com aquele orgasmo perdido noite adentro. Há explicações biológicas e neurológicas para isso, mas vamos nos ater a um aspecto mais histórico, e curioso: essa relação nasce com a tradição chinesa. Ela pode até parecer um pouco exótica para a mentalidade ocidental, mas tinha alta conta entre os chineses, que recebiam um aprendizado formal em teoria e prática sexual taoista. O sexo esgotava a mente.

Um dos grandes biógrafos do romancista francês, Grahan Robb, aponta que em sua juventude Balzac se nutriu dos mais variados interesses de seu pai, dentre os quais a cultura chinesa. Aos quinze anos Balzac mesmo chegou a afirmar que “sabia que tudo que era possível sobre a China”.

Daí faz todo sentido a piada de Woody a Keaton. Alvy Singer, ele mesmo um escritor, sabia dos efeitos do sexo, como os antigos chineses, como Balzac.

Por uma cruel contradição Balzac escrevia para conquistar mulheres (e fama), e ao mesmo tempo procurava evitá-las para poder escrever seus livros. Acreditava com convicção que todo homem tem um estoque finito de “fluido vital” e o segredo de toda vida criativa era economizar essa energia. É disso que Woody está tratando aqui, em uma relação com Annie que o esgota intelectualmente, a ponto de, ao fim do filme, ele encenar uma peça medíocre baseada em sua história com a moça.

O que faz lembrar aquela velha piada, recuperada ao fim do longa-metragem. Um cara procura um psiquiatra e diz que seu irmão está louco, pensa que é uma galinha. Então o médico lhe pergunta por que não interná-lo? “Ora, porque preciso dos ovos.” Woody nos ensina que assim são nossos relacionamentos, absurdos, loucos. Mas continuamos porque, afinal, precisamos dos ovos. Balzac que o diga.

Thiago Blumenthal é fundador da editora Lote 42 e pós-doutorando em Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.