Ser correto é a nova revolução

Ser correto é a nova revolução

Estado da Arte

28 de novembro de 2016 | 14h00

Por Felipe Massao Kuzuhara

Passamos os últimos dias tentando compreender as consequências e o que representa o gesto tomado pelo nosso ex-ministro da Cultura, Marcelo Calero, aquele que botou a boca no trombone contra gente poderosa na vida política do Brasil, ao pedir demissão negando-se a ceder a pressões abusivas por conta de um empreendimento imobiliário na Bahia. Não cabe repetir toda a cronologia já que ela foi exaustivamente exposta pela mídia, até porque é mais no seu gesto e menos no apê em Salvador que há algo de importante e inovador na vida do país.

Um whistleblower pensa duas vezes antes de apitar (Fonte: Transparency International)

Um sujeito comum pensando duas vezes antes de fazer a coisa certa (Fonte: Transparency International)

Marcelo Calero tem de ser visto como uma novidade, como um tipo de figura pública que precisa ser valorizada na vida cívica do Brasil. Esta figura tem nome. Chamam em inglês de whistleblower ou “aquele que sopra o apito”, em uma tradução literal. Em outras palavras, Calero seria aquele que opta por expor algo nefasto, transgredindo dessa maneira o status quo de interesses poderosos e excusos em Brasília. Os exemplos recentes mais relevantes de whistleblowers são os de Julian Assange, editor-chefe do Wikileaks, e Edward Snowden, ex-funcionário da CIA. Ambos tornaram públicas informações como vídeos de guerra censurados, correspondências diplomáticas, assim como a existência de programas americanos de espionagem secreta, com invasão ilegal da privacidade alheia. No caso de Calero, ele denunciou o alto escalão do governo Temer ao expor toda uma maneira de operar, em prol de benefícios pessoais, por meio de abusos de poder e tráfico de influência.

Neste sentido, Calero não deveria ser comparado a um índio, ao Juruna, no combate ao homem branco como querem alguns. Ao contrário, o ex-ministro surpreende não por ser exótico, mas pelo fato de ter sempre feito parte do mesmo sistema que ele denuncia – ele que é diplomata de carreira, e ocupava um cargo público de grande destaque. Por isso mesmo é que Marcelo Calero tinha muito a perder, e no entanto resolveu denunciar – e gravar? – o que outros insistiam em manter em segredo. Se há algum reparo a ser feito em relação a seu gesto, muito pior são aqueles que tentam atacar Calero, ao invés de prestarem atenção no que ele revela. Nessa completa inversão de valores, seguiu por exemplo Aécio Neves, presidente do PSDB, como se fosse mais absurda e grave a denúncia do que o delito cometido por seu velho colega de política, Geddel Vieira Lima. Como se, na forma abusiva de uma chave de crachá, Aécio dissesse “você sabe com quem está falando?” E ele não foi o único, já que as autoridades políticas ficaram quietas ou resolveram apoiar o núcleo duro do governo Temer. Nada de apoiarem o óbvio ou o correto, como fez Calero. Trocando em miúdos, assistimos a uma pessoa, sozinha, tendo de enfrentar todo um grande sistema que se volta contra ela. Essa é a vida do whistleblower ou de quem denuncia: ser ignorado na aparência mas atacado nos bastidores.

A questão do whistleblower gera certo debate na Inglaterra. Nesse sentido, o que se constata é que há pessoas com a coragem de denunciar bancos, hospitais, empresas, e até governos. No entanto, mesmo que suas acusações sejam embasadas e justas, os whistleblowers tendem a ser rotulados de traidores, por muito tempo, até que se prove o contrário. Mais grave ainda, ao mexerem com interesses poderosos, atraem contra si a ira e a pressão de quem manda e desmanda. Nos relatos dos whistleblowers, vemos os abusos de autoridade silenciando suas vidas pois quem denuncia perde seu trabalho, debilita sua saúde, é jogado ao ostracismo, fica sem perspectivas de carreira, tem sua família desestabilizada, e sofre ameaça de morte. Pois o sistema, uma vez acusado, possui várias maneiras de se vingar sem que nós possamos ver our fazer quase nada. Em Londres, o psicanalista David Morgan já ofereceu acompanhamento psicanalítico para mais de duzentos pacientes whistleblowers. De sua experiência lidando com quem precisa de muito amparo emocional, ele nota algo perturbador para quem denuncia: aquilo que nós normalmente tomamos como simples fantasia ou paranoia – de perseguição, de medo de assalto, de morte ou acidente de um filho –, vira a realidade concreta de quem resolveu enfrentar, como o fez Marcelo Calero, um sistema poderoso. Em outras palavras, sua vida se transforma em um inferno a partir do momento em que você resolve lutar pelo que é correto.

Dado isso tudo, é preciso reforçar a impressão de que Marcelo Calero tem de ser visto como uma novidade, como alguém que tem de ser valorizado na vida cívica do Brasil, independentemente das motivações pessoais por trás de seu gesto. O fato é que ele topou correr riscos enormes ao expor para nós um pouco das entranhas do governo atual. Mais ainda, ele não fez isso porque foi preso e tentou com isso barganhar sua pena com os procuradores da Lava Jato. Ele não é um delator premiado, não cometeu nenhum crime, e não deve ser confundido como tal. Ele não fez nada de errado, simplesmente denunciou. E isso, no Brasil de hoje, é ser revolucionário, quando a norma é se calar, ser conivente, e abusado pelo poder. Calero choca por fazer o certo. Por isso mesmo que seu gesto não pode ser ignorado. Tem, sim, de ser levado a sério, protegido, e incentivado.

Nos Estados Unidos, onde há previsão e proteção legal para a figura do whistleblower, aquele que denuncia um sistema de corrupção recebe uma recompensa, em dinheiro, como proporção da multa aplicada sobre o ato ilícito descoberto. Já imaginaram Marcelo Calero recebendo um pedaço do apartamento de Geddel Vieira Lima como recompensa por sua atitude e coragem?! Já no Brasil, em tempos de tentativas de anistia de caixa dois e afins, vemos também um projeto de lei sobre abuso de autoridade. Ele é tocado a toda velocidade no Senado, não por acaso em um momento em que políticos dos mais diversos partidos querem liquidar a operação Lava Jato. Será que nesse afã, o presidente do Senado, Renan Calheiros, tenta dizer que somos todos iguais perante a lei? Ou será que ele pretende ajudar um sistema político a abusar mais, a manter ameaças às figuras cívicas emergentes do Brasil? Depois de Moro, temos Calero. Nunca antes fazer o óbvio e o correto foi tão transgressivo. Muito mais que qualquer black bloc destruindo o que vê na frente, na rua. Pois o whistleblower não se esconde atrás da máscara. Ele se expõe e busca a transparência. Para todos nós vermos, e termos a chance de reagir de acordo com a gravidade do que é revelado.

Felipe Massao Kuzuhara é economista e doutorando em Psicologia Social pelo Birkbeck College de Londres.