Rubel, a psicanálise e a verdade

Rubel, a psicanálise e a verdade

Três relatos do músico e compositor Rubel e uma lição sobre a psicanálise.

Estado da Arte

18 Maio 2018 | 08h00

por Felipe Pimentel

Recentemente fui ao show do Rubel, este jovem e talentoso músico e compositor que lançou há pouco o disco Casas. Suas músicas são todas muito delicadas, ainda que, muitas vezes, mesclem tal delicadeza com frases mais fortes e com certos questionamentos – gerando uma ambiguidade muito bonita.

Sua voz é doce mesmo cantando as dores de um colegial, ou de um menino abandonado por um amor. Está alinhado com a nova e prolífica MPB: mescla ritmos, tendências e instrumentos em letras que procuram a leveza e a profundidade possível de nossos tempos – tudo isso acompanhado pelo trompete ou “flugelhorn” do Bubu (conhecido dos Los Hermanos).

Canta versos poéticos em rimas ABAB em mantras para São Jorge junto a Emicida com percussões e eletrônico. Esconde-se atrás do violão, mas ousou cantar uma música somente com o microfone, desnudado diante do público, apresentando unicamente seu corpo e sua voz. Não sem antes pedir licença para poder fazer isso, anunciando que está “treinando” cantar sem o violão. Desafina, às vezes, claramente por timidez e algum receio de empostar a voz. Muito bonito. No show, ele contou uma história muito relevante. Na realidade, eram três histórias, ocorridas na mesma semana, em sequência. Conto-as aqui com a autorização dele.

Primeira história. Rubel queria muito que Criolo participasse de uma das faixas de seu disco. Resolveu tentar a sorte. Uma amiga tentou marcar um encontro entre os dois. Entre muitos desencontros, ela informou que Criolo estava em determinado hotel e passou algumas coordenadas, e Rubel supôs que haveria um encontro formal. Ao chegar no hotel, descobriu que não havia nada combinado, na realidade, era somente uma chance de tentar a sorte. Criolo chegou cansado, entra no hall do hotel, e lá está Rubel, ainda mais nervoso dados os erros de comunicação todos. mas um erro de comunicação o fez supor que haveria um encontro formal. Ao chegar no hotel do músico, descobriu que não era bem isso. Ao abordá-lo, muito nervoso, mal conseguiu falar com o artista que tanto admirava. Resultado: Rubel sai frustrado por ter se atrapalhado diante dele.

Segunda história: Rubel se apaixona por uma mulher e começa a demonstrar para ela sua paixão. A sua mãe vem lhe alertar que isso pode não ser bem-sucedido nas relações amorosas (ciente de que o desejo está ligado diretamente à falta) e lhe aconselha prudência, discrição ou qualquer espécie de comedimento. Rubel se preocupa.

Terceira história: em um determinado show dele, seus irmãos vão lhe assistir, e ele desafina em uma música. Os irmãos cobram dele a desafinação. Rubel se chateia.

Por fim, chegamos à psicanálise. Rubel chega no seu analista e conta essas histórias, evidentemente incomodado porque o nervosismo dificultou a conversa com Criolo, a paixão e sua transparência traziam algum hipotético risco à relação e o provável nervosismo diante dos irmãos fez com que desafinasse, ficando decepcionado consigo mesmo.

O analista lhe diz que as histórias têm alguma relação entre si e pergunta se ele percebe. Ele comenta, com graça, que obviamente não, até porque essa tarefa cabia ao analista (está certo). O analista, então, lhe esclarece:

– Ora, você é nervoso, você ama demais e você desafina. Por que você está querendo ser outra pessoa?

Essa pergunta é uma lição perfeita sobre a psicanálise. Muitas vezes, os analistas precisam dizer essas coisas antipáticas para seus pacientes. Mas elas precisam ser bem entendidas. As nossas limitações, elas não são um destino. Fosse assim, a própria psicanálise não teria nada a oferecer senão aceitação. Pelo contrário, ela diz que podemos nos libertar de algumas amarras; mas é um caminho que não se faz sem as reconhecer. A verdade, na psicanálise, precisa ser vista para poder esvanecer; e é onde queremos ser outros que encontramos ela.

Corajosos, esses dois.

Felipe Pimentel é historiador e psicanalista.