Rimas de Miguel Anjo – Quatro sonetos autobiográficos de Michelangelo Buonarroti

Rimas de Miguel Anjo – Quatro sonetos autobiográficos de Michelangelo Buonarroti

Estado da Arte

29 Janeiro 2017 | 13h00

I. Pintando o teto da Sistina

A Giovanni de Pistoia

Eu já fiz um bócio neste tormento,
como na Lombardia a água com sujeira
faz aos gatos lá ou onde queira,
um ventre que força o queixo num momento.

Um peito de harpia, a barba ao alento,
a memória pesa o crânio na traseira;
o pincel sobre a face qual goteira,
me faz, gotejando, um rico pavimento.

Os lombos na pança se me entraram,
e o cu contrapesa de garupa o dorso,
e passos sem os olhos movo em vão.

Adiante meus couros se estiraram,
esticando-os atrás me contorço,
qual um arco sírio em tensão.

Uma estranha ilusão
surge ao juízo que a mente porta,
qual numa zarabatana um tanto torta.

Minha pintura morta,
defende ora, Giovanni, e o meu valor,
não sendo um bom lugar, nem eu pintor.

 

Michelangelo - Sistina - Juizo Final - Autoretrato - Pele

 

II. O modelo e a estátua

A Vittoria Colonna (segunda versão)

Se bem concebeu a divina parte
o rosto e os atos de alguém, aquela
dupla força duma coisa vil modela,
dá vida a pedras, e não é força d’arte.

Nem de outro modo num rude encarte,
até que a pronta mão ao pincel apela,
de doutas visões a mais lúcida e bela,
prova e revê, e sua estória comparte.

Também de mim modelo de pouca estima
eu me pari, para de vós renascer
alto e perfeito, dama digna e supina.

Se ao pouco acresce e ao meu muito lima
vossa graça, que pena há de merecer
meu feroz ardor, se mo castiga e ensina?

 

III. Em Roma, no Pontificado de Júlio II

 

Aqui se faz elmo de cálice e espada,
e o sangue de Cristo se vende em pujança,
e cruz e espinho são escudo e lança;
e até de Cristo a paciência acaba!

Mas que não volte a esta parada;
iria o sangue seu às estrelas sem fiança,
em Roma à venda sua pele balança;
e a todo bem fecharam a estrada.

Se eu quisesse possuir um tesouro,
porque aqui minha obra foi partida,
à Medusa de branco cedia com’um mouro.

Mas se alto no céu a pobreza é querida,
quem se restaurará pro mundo vindouro,
se um outro sinal sufoca a outra vida?

 

IV. A morte de Cristo

 

Felizes tanto quanto turbados e tristes,
que tu sofresses, e não mais eles, a morte,
ficaram os eleitos, já que a tranca forte
do céu, da terra a nós com sangue abriste.

Felizes; porque, criados, os redimiste
do primeiro erro de sua mísera sorte.
Tristes; ao ouvir que com pena áspera e forte,
a servo dos servos na cruz te reduziste.

Donde vens, quem és, o céu sinalizou,
escurecendo seus olhos, turvou as águas,
tremeram os montes, e na terra abriu um abismo;

do tenebroso reino os Pais resgatou,
os anjos tortos mergulhou em mais mágoas:
gozou só o homem, renascido no batismo.

 

Tradução de Marcelo Consentino.

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