Retrato do leitor quando jovem: Gilberto Freyre, Jorge Luis Borges e o “Ulysses”

Retrato do leitor quando jovem: Gilberto Freyre, Jorge Luis Borges e o “Ulysses”

Como Jorge Luis Borges e Gilberto Freyre receberam a publicação de "Ulysses", de James Joyce.

Estado da Arte

09 Julho 2018 | 18h00

por Cláudio Ribeiro

 Em 1922, a livraria e editora parisiense Shakespeare and Company, de Sylvia Beach, publicou o romance Ulysses, de James Joyce. O escritor irlandês, já reconhecido pelo talento impresso em Chamber Music (1907), Dubliners (1914) e A Portrait of the Artist as a Young Man (1916), dava ao público uma obra que rapidamente se tornaria objeto de grandes polêmicas. Algumas, recheadas de juízos moralizantes; outras, de avaliações estéticas entusiasmadas. Nenhuma insossa. Em todo caso, urgia ler Ulysses. E escrever sobre ele.

Entre os jovens intelectuais que se arriscaram a tal empresa, dois teriam seu nome projetado a nível mundial, posteriormente —ainda que trilhassem caminhos diversos. Nem um nem outro era europeu. O primeiro, brasileiro do Recife; o segundo, argentino de Buenos Aires: Gilberto Freyre e Jorge Luis Borges. É sabido que ambos tiveram um vívido interesse pela cultura anglo-saxã, e que também se comprometeram com a renovação da vida cultural de seus países, procurando assimilar tudo o que se produzia de inovador desde fora. Daí, certamente, o interesse imediato pelo livro de Joyce. E é digno de nota o fato de seus respectivos ensaios sobre Ulysses terem sido publicados em datas muito próximas: o de Freyre, em dezembro de 1924; o de Borges, em janeiro de 1925. Mas esta não é a única similaridade.

O ensaio de Freyre veio a lume numa quinta-feira, dia 11 de dezembro de 1924, no Diário de Pernambuco (então dirigido por Carlos Lyra Filho), sob o título de “James Joyce: o criador de um ritmo novo para o romance”.[1] O futuro autor de Casa-grande & Senzala não perdeu a oportunidade de assinalar que “ao livro formidável que é Ulysses, conheci-o em Oxford, onde sua atualidade intensa era a inquietação de certos chás.” Mas, continua Freyre, “não obstante o puritanismo ter conseguido de algum modo abafar-lhe a influência, o livro vai vencendo”, posto que “até sob as bananeiras do Rio já se vai pronunciando o inglês fácil do nome de Joyce. O inglês das suas obras, é que será o difícil de soletrar.” O recado tinha endereço certo: o também jovem Sérgio Buarque de Holanda, que havia anunciado no primeiro número da revista carioca Estética, de setembro de 1924, a futura publicação de um comentário crítico (de sua lavra) a Ulysses.

Como já observou João Cezar de Castro Rocha, em texto publicado no número 9 da revista Dicta & Contradicta, Sérgio Buarque confessou que teve contato com Ulyssespor intermédio de Paulo Prado, que trouxe de Paris um exemplar do livro[2]. Ainda que Sérgio não tivesse, por esses anos, a mesma vivência cosmopolita de Freyre, personalidades como Manuel Bandeira já diziam dele coisas como: “Sérgio era o meu indicador de leituras, o meu revelador de Joyces e de Essenines, o meu mentor para a seção de literatura modernista.” Essas palavras de Bandeira foram impressas nas páginas de O Jornal, do Rio de Janeiro, no dia 26 de dezembro de 1926. O irônico: Freyre, conterrâneo de Bandeira, escreveu primeiro sobre Ulysses, mas quem teve a prerrogativa de apresentar Joyce ao grande poeta foi justamente aquele que repousava “sob as bananeiras do Rio”.

Jorge Luis Borges, por sua vez, deu a seu ensaio um título tão singelo quanto objetivo: “El ‘Ulises’ de Joyce”. Publicado na revista Proa, em seu ano 2, número 6, de janeiro de 1925, o texto (que posteriormente foi incluso no volume Inquisiciones) tinha como acréscimo a tradução da última página do livro, feita pelo próprio Borges. Certo de não haver, até então, outra publicação em língua espanhola que tratasse de Ulysses, o escritor portenho principia o ensaio deste modo: “Soy el primer aventurero hispánico que ha arribado al libro de Joyce: país enmarañado y montaraz que Valéry Larbaud ha recorrido y cuya contextura ha trazado con impecable precisión cartográfica (N. R. F., tomo XVIII), pero que yo reincidiré en describir, pese a lo inestudioso y transitorio de mi estadía en sus confines.”[3]

Apesar da modéstia com que termina a frase, Borges demonstra ter conhecimento da trajetória do livro. Em 7 de dezembro de 1921, Valéry Larboud palestrou sobre Joyce aos “Amis des Livres”, em Paris. Falou basicamente de Ulysses, que ainda não havia sido publicado pela Shakespeare and Company. O texto da palestra apareceu, depois, no tomo dezoito da Nouvelle Revue FrançaiseN. R. F.)[4], ao qual Borges faz referência.

Quanto a Freyre, o “novo ritmo” que ele assinala ter sido dado por Joyce ao romance dizia respeito à conjunção entre “arquitetura gótica” e “pensamento escolástico”, que amalgama o conteúdo e a forma de Ulysses. Pergunta-se Freyre: “Onde foi buscar James Joyce um sentido arquitetônico tão fora do tempo, ou talvez tão antecipado ao tempo, pelo seu ritmo gótico e pelo seu fôlego épico?”. A resposta: “Nasceu com ele. Mas a eurritmia da educação por certo que o desenvolveu. Educou-se o romancista irlandês num colégio de padres. De padres jesuítas. Na filosofia tomista, portanto. A qual se aproxima da arte como da vida com um critério ao mesmo tempo arquitetônico e melodioso: o de integritas e o de consonantia.” Aqui Freyre antecipa em algumas décadas os argumentos sobre a harmonia dos contrários, desenvolvidos por Erwin Panofsky no último capítulo de sua famosa obra.[5]

Se para o autor pernambucano, Joyce adaptou ao romance, além de alguns preceitos da escolástica, o ritmo da arquitetura medieval, sendo Ulysses “tão complexo como uma catedral”, Borges, curiosamente, faz observações bastante similares. O autor portenho não deixa de ressaltar que a Joyce “lo han educado los jesuitas; sabemos que posee una cultura clásica, que no comete erróneas cantidades en la dicción de frases latinas, que he frecuentado el escolasticismo (…)”,  e que, além disso, “ha compuesto canciones, cuentos breves e una novela de catedralicio grandor: la que motiva este apuntamiento.” A “novela de catedralicio grandor”? Ulysses, claro. Borges subscreveria o remate de Freyre: “romance duma amplitude que perturba. Às vezes parece que é pouco chamá-lo um livro.”

Não consegui precisar como e quando exatamente Borges teve contato com Ulysses. Mas é provável que ele o tenha adquirido durante a segunda viagem que fez à Europa, entre 1923 e 1924, na companhia de familiares. O itinerário principal foi Londres, Paris e Madri. Tendo permanecido por mais tempo nesta última cidade, Borges chegou a travar contato com os colaboradores da prestigiada Revista de Occidente, comandada pelo filósofo José Ortega y Gasset[6], e em cujo número 17, de novembro de 1924, saiu o longo ensaio “James Joyce en su laberinto” de Antonio Marichalar. O escritor portenho não foi, portanto, o primeiro hispânico a escrever sobre Joyce. Provavelmente soube com atraso do texto de Marichalar. O irônico: no mesmo número da revista, foi publicado um ensaio do próprio Borges, “Menoscabo y grandeza de Quevedo”, também incluso, posteriormente, em Inquisiciones.

Mas a anedota com Marichalar não foi privilégio de Borges. Numa outra quinta-feira, dia 2 de abril de 1925, Freyre publicou no mesmo Diário de Pernambuco uma nota intitulada “Acerca de James Joyce”. Tratava-se justamente de um comentário sobre o ensaio “James Joyce en su laberinto”. Freyre abre a nota lamentando o fato de o número 17 da Revista de Occidente ter demorado tanto a chegar em Recife. Mas não tarda a destacar o fato de Marichalar, em seu exame, ter feito a mesma analogia que ele: “Antonio Marichalar tem quase a mesma comparação no seu artigo: ‘de ella (da obra de Joyce) irrumpe la flora más arbitraria que brota petrificada de las catedrales. Pletórica de símbolos, de emblemas, de significaciones, la obra de Joyce encierra un mundo exaltado y grotesco.” Finaliza a nota dizendo que “a coincidência é honrosa. Mas diante dela, eu penso nessa melancolia que é o ‘escrever na areia’ de que fala o velho Brandes.”

O tempo, no entanto, mostraria que nem Freyre nem Borges teriam seus escritos desmanchados por águas rasas. A ousadia dos dois jovens os levaria a erigir suas próprias catedrais que, como a de Joyce, seguiremos habitando.


Cláudio Ribeiro 
é Mestre em História pela Universidade Federal de Goiás.

NOTAS

[1]Esta e as demais referências a periódicos dos anos 1920 podem ser encontradas na Hemeroteca Digital Brasileira, cujo endereço é http://memoria.bn.br/hdb/periodico.aspx.

[2]Cf. ROCHA, João Cezar de Castro. “Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre: Raízes de uma rivalidade literária.” In: Dicta&Contradicta, n. 9 [jul./2012, organização Guilherme Malzoi Rabello]. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: IFE, 2012, p. 23 et seq. Neste ensaio, Castro Rocha aborda outros aspectos importantes da rivalidade literária entre Sérgio Buarque e Gilberto Freyre.

[3]Cf. BORGES, Jorge Luis. Inquisiciones/ Otras Inquisiciones. Buenos Aires: Debolsillo, 2012, pp. 21-25.

[4]Cf. MONNIER, Adrienne. “Joyce’s Ulysses and the French Public”. Tradução de Sylvia Beach. In: The Kenyon Review, Vol. 8, No. 3 (Summer, 1946), pp. 430-444.

[5]Cf. PANOFSKY, Erwin. Arquitectura Gotica y Pensamiento Escolastico. Tradução de Julia Varela e Fernando Alvarez-Uría. Madrid: Las ediciones de La Piqueta, 1986, p. 61 et seq. Esta obra foi originalmente publicada em 1951.

[6]Cf. VÁZQUEZ, María Esther. Jorge Luis Borges – Esplendor e Derrota (Uma Biografia). Tradução de Carlos Nougué. Rio de Janeiro: Record, 1999,  pp. 80-82.