Quando Wagner Moura encontra Marighella

Quando Wagner Moura encontra Marighella

Astier Basílio descreve um circuito de ironias, coincidências históricas, políticas e culturais na relação de Wagner Moura com o personagem Carlos Marighella.

Estado da Arte

01 de março de 2019 | 12h37

Seu Jorge e Wagner Moura durante a preparação do filme Marighella (Ariela Bueno/Divulgação)


por Astier Basílio

12 de dezembro de 2001. Nos Estados Unidos, estreava Abril Despedaçado, de Walter Salles, roteiro adaptado do romance escrito pelo albanês Ismail Kadaré, vertido para o cenário do Nordeste brasileiro, região de onde emigrara ao Rio de Janeiro, havia não muito tempo, um dos integrantes do elenco daquela produção, o baiano Wagner Moura.

Quando pela primeira vez o rosto de Moura era visto nos cinemas da América, haviam se passado apenas 12 dias de uma outra avant-premiere, esta, porém, bem mais modesta. Num escritório, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, era exibido o documentário Marighella – retrato falado de um guerrilheiro, de Sílvio Tendler, numa sessão com poucos convidados, entre os quais estava Clara Charf, viúva do homenageado, no mês em que se celebrava os 90 anos do nascimento dele.

Para fazer o filme, o cineasta investiu recursos próprios e recebeu 40 mil reais da Fundação Padre Anchieta, ligada ao governo de São Paulo, à época governado por Mário Covas, do PSDB. Estávamos nos últimos capítulos de uma era protagonizada por  seu colega de partido, Fernando Henrique Cardoso, presidente da República por duas vezes e em cujo mandato inicial, logo no primeiro ano, criara a Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, de onde,  em 1996, vieram os recursos para o pagamento de indenização de R$ 150 mil (em valores atualizados, R$ 794. 470,099)  para Clara Charf, viúva de Marighella.

Naquele mesmo 2001, quem sentava na cadeira do Ministério da Justiça era um tucano de plumagem igual a de Fernando Henrique e Covas, o ex-guerrilheiro Aloysio Nunes, que na juventude integrara o grupo da Aliança Libertadora Nacional (ALN), na condição de guarda-costas e motorista de Carlos Marighella, guerrilheiro cuja fotografia era possível de ser contemplada, ladeada por quadros com integrantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), a seis minutos de caminhada de onde o ministro despachava, mais precisamente, no Senado Federal, no gabinete da senadora por Alagoas, Heloísa Helena, do Partido dos Trabalhadores (PT).

No longínquo ano em que as Torres Gêmeas, nos Estados Unidos, vieram ao chão em decorrência de um atentado terrorista, um funcionário público brasileiro poderia se aposentar aos 53 anos sendo homem e aos 48 anos, sendo mulher. A reforma da previdência, que aumentaria esse limite, só viria a ser efetuada no governo seguinte, do presidente Lula, em 2003, o que causaria a expulsão sumária de uma ala do PT que votou contra, com destaque para a senadora Heloísa Helena, que um ano depois fundaria o Partido Socialismo e Liberdade, o PSOL,  legenda que na última eleição teve como candidato a presidência Guilherme Boulos, coordenador do MTST, em cujo assentamento será realizada, no Brasil, a estreia do filme Marighella, primeira produção de Wagner Moura como diretor.

Marighella escreveu, em 1969, o Minimanual do guerrilheiro urbano, no qual disse que “os roubos a bancos realizados pelos guerrilheiros urbanos brasileiros machucaram os grandes capitalistas tais como Moreira Salles e outros”. Numa entrevista ao programa Roda Viva, Wagner Moura referiu-se ao filho do milionário citado por Marighella, mas de um modo distinto, não de maneira a machucá-lo, mas de afagá-lo, reconhecendo-lhe a realeza, afirmou: “eu trabalhei com o Waltinho Salles, um sujeito, um príncipe incrível”. Como já dissemos, Wagner e Walter trabalharam juntos em Abril Despedaçado, um romance de uma fábula da Albânia, país comunista cuja linha política granjeou a simpatia dos militantes, que como Marighella, romperam com o Partido Comunista Brasileiro, e partiram para a guerrilha armada. Naquela ocasião, além de falar sobre o sucesso no cinema, Moura anunciara, naquela entrevista à TV Cultura, seu mais recente projeto teatral e citara um outro príncipe, o do podre reino da Dinamarca, personagem da peça de Shakespeare, que viria a ser interpretado por ele no teatro.

A já citada entrevista ao Roda Viva, realizada em 2008, fora motivada pelo estrondoso sucesso de Tropa de Elite, vencedora do Urso de Ouro, no Festival de Berlim, filme narrado e protagonizado pelo Capitão Nascimento, interpretado por Wagner Moura, que à época disse à imprensa “tentamos fazer nesse filme foi entender o que o João Moreira Salles colocou no Notícias de uma Guerra Particular, essa tríade morador de favela, traficante e policial”. Convém relembrar que o referido João Moreira Salles é o outro filho-cineasta do “grande capitalista” Moreira Salles, a quem Marighella machucara e convém dizer ainda que foi também na edição deste ano do Festival de Berlim, que estreou filme Marighella, no qual Moura debutou como diretor.

Naquele mesmo 2008, em que Moura encarnou o príncipe Hamlet, do podre reino da Dinamarca, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça decidiu conceder uma indenização vitalícia mensal no valor de R$ 2.520 a Clara Charf, viúva de Marighella. Estávamos nos últimos capítulos, da primeira etapa, de uma era protagonizada por Lula, presidente em segundo mandato, e ao interpretar Hamlet, herdeiro do trono que é conclamado pelo fantasma de seu pai a vingar-se do assassino, Wagner Moura  achou por bem não explorar o potencial político do clássico de Shakespeare, mas o seu viés metalinguístico. O ingresso custou R$ 80, apesar do espetáculo ter captado R$ 800 mil da Lei Rouanet e de ter como patrocinador exclusivo o “Bradesco Prime” , do banco Bradesco, cuja agência que existia entre a Alameda Santos e a Avenida Angélica, a 20 minutos de caminhada do teatro da FAAP, onde Wagner Moura apresentou seu espetáculo, fora assaltada por Carlos Marighella, em pessoa, numa ação realizada em agosto de 1968.

Na coletiva do Festival de Berlim, o diretor Moura declarou que seu filme era um dos primeiros “produtos culturais abertamente contrários” ao que representa o presidente Jair Bolsonaro, militar reformado como capitão das Forças Armadas, patente hierarquicamente mais elevada que a de sargento – graduação esta obtida, pelo pai do cineasta, o também militar José Moura, falecido em 2011, que servira em outra arma, na Aeronáutica. Na mesma entrevista,  Moura afirmou que Marighella era “um líder social negro”, razão pela qual optou por escalar o ator Seu Jorge no papel principal, embora, no já citado documentário, de 2001, dirigido por Sílvio Tendler, vemos o depoimento da militante histórica Ana Montenegro,  que ao perguntar, afinal quem era Carlos Marighella, ouviu o próprio responder “eu? Sou um mulato baiano”, a palavra com a qual usou para se definir, o que aquilata sua importância, foi repetida em um dos poemas do guerrilheiro, “Canto da Terra”, em que versejou: “(…) Com o escravo e o imigrante/ tudo se fez./ Comidas meu santo,/ a mulata, a morena…”, embora esta mesma palavra fora condenada por um jovem jornalista por soar ofensiva por evocar o correlato etimológico com “mula”, embora não haja consenso a respeito disso.

Astier Basílio é jornalista, poeta, ficcionista e dramaturgo. Venceu o Prêmio Funarte de Dramaturgia 2014

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