Quando a narratividade assume o lugar da objetividade

Quando a narratividade assume o lugar da objetividade

"Ao Sondar o Abismo – Pensamentos intempestivos sobre cultura e sociedade", livro da historiadora americana Gertrude Himmelfarb, será lançado pela editora É Realizações.

Estado da Arte

27 de junho de 2019 | 08h00

por Luiz Bueno

Uma excelente notícia para o Brasil: a editora É Realizações está lançando mais um livro da eminente historiadora norte-americana Gertrude Himmelfarb. Desta vez, trata-se do livro On Looking Into the Abyss: untimely thoughts on culture and society que sai no Brasil com o título Ao Sondar o Abismo – Pensamentos intempestivos sobre cultura e sociedade

Himmelfarb faz uma análise crítica de vários aspectos da produção intelectual, acadêmica e cultural contemporânea e procura avaliar o quanto esta produção sofreu o impacto e os efeitos da mentalidade e atitude pós-moderna e os seus possíveis efeitos sobre a sociedade.

A cultura, a filosofia, a literatura e a história. Estes e outros temas são abordados pela autora tendo como fio condutor de sua análise um conceito que ela obtém do crítico literário e seu amigo, Lionel Trilling. Um conceito tão fundamental que ela o considera o alicerce destes seus textos: o realismo moral. Este conceito é uma forma aplicada de um outro ainda mais amplo e anterior, que remonta ao grande pensador e figura política britânica do final do século XVIII, Edmund Burke. 

Este conceito, Burke o funda quando faz a sua tão acurada crítica à revolução francesa, na obra que o consagrou definitivamente como grande intelectual, Reflexões Sobre a Revolução na França (Edipro). Em uma síntese muito breve, a imaginação moral, segundo Burke, é aquilo que nos capacita a ver o valor de um ser humano para além de sua materialidade como ser vivo; é a capacidade de produzir a imagem, o sentimento e até mesmo a ideia de que aquilo que realmente importa em nossa vida está para além do simples fenômeno, está no campo interno do sentimento e do intelecto, mas também está na história, na tradição, na cultura acumulada nos séculos. A vida de um indivíduo e de um povo possuem um valor que ultrapassa a sua presença empírica. As artes, a inteligência, a moral, a dignidade humana, a bondade, o heroísmo, a honestidade, a graça, a própria noção de civilização, são aspectos perceptíveis apenas na presença da imaginação moral.

Himmelfarb afirma que Trilling lhe proporcionou a noção derivada que é o realismo moral, significando o exercício da capacidade intelectual de explorar a riqueza e os perigos inerentes à nossa inclinação a achar que, ao agir a partir destas ideias, estamos fazendo o bem. Trilling pensa, por essa razão, que a literatura é uma das grandes ferramentas para este exercício. Daí a conexão que ele faz entre literatura e política.

Na sua obra, o realismo moral de Trilling é a ideia central que Himmelfarb utiliza para avaliar vários segmentos da produção intelectual contemporânea. Adotando a perspectiva de Trilling, ela explora este duplo aspecto que a reflexão realista moral revela, permitindo-lhe entender o quanto a sociedade é afetada pelos resultados das ideias e atitudes geradas pela intelectualidade, especialmente aquela que se assume pós-moderna. Nos vários capítulos do livro, a ênfase é colocada pela autora no aspecto dos riscos morais decorrentes deste pensamento pós-moderno.

A ideia de sondar ou olhar diretamente o abismo estando na sua borda, obtida de Trilling, é uma alegoria que remete à atitude pós-moderna de assumir uma postura extremamente relativista e niilista e a consequente “arrogância intelectual e empobrecimento espiritual de algumas das últimas tendências da crítica literária, da filosofia e da história”. Esta atitude não vem sem ser seguida de seus perigosos efeitos. Destes, vamos neste momento tomar a preocupação que Himmelfarb expressa quanto à história. Esta reflexão, esperamos, pode ajudar a entender a dificuldade presente em lidarmos com noções tão fundamentais não só para a produção acadêmica, mas também a jornalística, que são o fato, a objetividade e mesmo a verdade. E para tratar destas ideias em seu sentido preciso e originário, estes termos são usados por ela sem as famigeradas aspas, exatamente para não recair no relativismo pós-moderno que critica. 

Himmelfarb diz que o risco de que a desconstrução da História produza o revisionismo que nega a realidade do Holocausto surge em cena, de forma similar, na filosofia e na crítica literária, através da ideia de que “não há realidade, apenas a linguagem: não há filosofia, mas tão somente jogos mentais; não há moralidade, mas somente retórica e estética”.

Mas, este estágio se torna ainda mais radical pois, como a autora aponta, “O pós-modernismo (…), (n)a filosofia, é a negação da imutabilidade da linguagem, de qualquer correspondência entre linguagem e realidade – na verdade, de qualquer realidade ‘essencial’ e, portanto, de qualquer verdade imediata acerca da realidade”.

Uma tal ideia, quanto atinge a História, produz um efeito análogo. A história modernista, diz Himmelfarb, não desejava uma verdade imutável sobre o passado. Ela era capaz de ser relativista sem perder o vínculo com a realidade, ela era “cética com relação à verdade absoluta, mas não com relação a verdades parciais, contingentes, incrementais”. Já o historiador pós-moderno, por supor que não há verdade absoluta, também pensa que não podem existir verdades parciais, contingentes. Para o historiador pós-moderno, seria necessário abandonar de vez qualquer ilusão de verdade, dada a sua inutilidade.

A história crítica se fundava na busca dos indícios fundamentados, na pesquisa das fontes primárias, na verificação da autenticidade dos documentos, sua metodologia se baseava neste “cânone dos indícios”. O historiador sabia que não poderia supor uma verdade única e definitiva sobre os fatos históricos e por isso, humildemente, tentava uma aproximação contínua e cada vez maior ao dado histórico bruto, sabendo ser ele sempre instável e fugidio, mas não se rendendo a estas dificuldades. Estas, diz a autora, fizeram com que a profissão criasse mecanismos de freios e contrapesos projetadas para compensar as dificuldades e deficiências tanto do historiador quanto do relato histórico.

Porém, diz ela, “onde o modernismo tolera o relativismo, o pós-modernismo o celebra”. A rejeição de toda verdade é, para o pós-modernista, uma espécie de libertação da exigência e da obrigação de manter certa objetividade. É desta atitude pós-moderna que vem o relaxamento quanto à imparcialidade. A parcialidade do historiador começa a ser vista como virtude pelos pós-modernos. A história cada vez menos se prende ao fato e cada vez mais se aproxima da linguagem. A história vai sendo pensada cada vez menos como relato objetivo e cada vez mais como narrativa. Toda história é composta por nada mais do que “criações retóricas, literárias e estéticas do historiador”. Tomando Nietzsche como uma espécie de patrono da perspectiva individual, e os desconstrucionistas como os gurus dessa nova subjetividade, os historiadores puderam, enfim, libertar-se da tirania do fato e dar vazão a sua capacidade de elaborar experiências estéticas, narratividades, fruto da sua “imaginação histórica”, de sua “criação imaginativa”, podendo, assim, ir muito além de documentos e fatos. O “fetiche do fato” estaria, finalmente, superado.

Então, se as narrativas históricas são elaborações e artifícios históricos, “modos de enredamento”, se não há “fatos” aos quais ser fiel, não se pode esperar extrair deles nenhuma “verdade” (agora, as aspas dominam a cena), não há, sequer, um método que seja o preferido na escrita da narrativa histórica.

Bem, segundo a preocupação expressada por Himmelfarb, um dos efeitos dessa atitude é a eliminação da factualidade do Holocausto, por exemplo. Se é difícil para os novos historiadores fazerem a distinção entre fato e ficção, pois agora o que impera é a história ficcional (que não é a mesma coisa que ficção histórica), não é de se admirar que acontecimentos e pessoas sejam transformadas em textos, que o passado seja despojado de qualquer realidade objetiva e que se turve a distinção entre história e ficção. Se isto é assim, onde ficam as milhões de vítimas do Holocausto? A qualquer fato ou povo a que se aplique esta perspectiva, o efeito será a desumanização das pessoas. O relativismo cultural, associado a esta perspectiva, que particulariza os povos e suas histórias, elimina a possibilidade de se pensar uma história comum à humanidade. A trivialização da história apenas faz com que esta perca sua coerência e, como consequência, perca todo o seu significado.

Estas considerações sobre esta nova concepção de história que Himmelfarb faz neste livro, servem como elementos para que se possa compreender a situação corrente em que termos como pós-verdade ou fake news invadem o espaço público, os meios de comunicação, as redes sociais, as salas de aula. Este fenômeno, ou ao menos esta situação presente, não decorre apenas das novas tecnologias e a facilidade que elas oferecem para se inventar narrativas, de se deturpar fatos, de se criar notícias sem base real. Esta situação já vinha sendo produzida na medida mesma em que o compromisso com a verdade, com o dado objetivo, com o fato, com a imparcialidade, foi sendo trocado pela liberdade da criação, pela moda ideológica da experiência subjetiva, pela preferência da criatividade em detrimento da realidade.

No final, o efeito perverso é sempre a desumanização das pessoas. Quanto mais literário é o olhar sobre a história, menos pungente é o sofrimento das pessoas no passado, mais distantes ficam elas à medida em que se convertem em “texto”, em “narrativas”.

Na Introdução ao seu livro, Himmelfarb nos deixa esta sua impressão, que talvez apresente com precisão sua reflexão, como um chamado à consciência e à responsabilidade, especialmente daqueles que se dedicam à produção de conhecimento e de informação, em um tempo em que muitos acadêmicos e jornalistas estão mais focados em criar e dominar narrativas do que propriamente investigar e descrever a realidade:

Talvez este livro devesse ser chamado de ‘Confissões de uma pedante incorrigível’, pois é dedicado à proposição de que existem coisas como verdade e realidade e de que há uma ligação entre elas, como há uma conexão entre sensibilidade estética e imaginação moral, entre cultura e sociedade. Todos repetimos, da boca para fora, o adágio ‘ideias têm consequências’, mas somente in extremis o levamos a sério, quando as ideias de Stálin ou de Hitler se transformam em realidades como gulags e campos de concentração. A premissa deste livro é a de que bem antes de tais situações terríveis existe um relacionamento íntimo e difuso entre o que acontece em nossas escolas e universidades, nas comunidades intelectuais e artísticas, e o que acontece na sociedade e na política”.

Luiz Bueno é Doutor em Ciências da Religião pela PUC-SP. Professor de Filosofia na FAAP.
Coordenador do Núcleo de Filosofia Política do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia-LABÔ da FUNDASP/PUC-SP.

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