Pseudociência política é um problema

Pseudociência política é um problema

Quando o discurso político assemelha-se ao das seitas e ao das pseudociências, como se testemunhou no episódio de aparelhamento político-partidário na última reunião da SBPC, perdem a ciência e o Brasil.

Estado da Arte

07 Agosto 2018 | 12h00

por Bruna Frascolla

O que é ciência? Esta é uma pergunta filosófica jovem, porque é recente a própria concepção de ciência como algo autônomo. Por muito tempo, todo conhecimento verdadeiro era parte da filosofia: o tronco seria a metafísica, ou filosofia primeira, e daí sairiam ramos, como a filosofia natural (ou física) e a filosofia política. O importante era dar os porquês e apontar as causas, remontando-as até o primeiro princípio, ou Deus.

Se você fosse um estudioso nascido na Antiguidade ou na Idade Média, provavelmente acreditaria que o universo é uma esfera composta por cinco elementos, e que cada qual ocupa o seu lugar natural. O elemento terra fica abaixo de todos, no núcleo, por ser o mais grave; em seguida vem a água, que fica sobre a terra; depois o ar, que é mais leve do que a água; depois o fogo, que vemos querer subir, com suas chamas apontando para cima; e por fim o éter, que compõe as estrelas que vemos fixas no firmamento. Esta é uma física capaz de dar todos os porquês: por que a pedra cai? Porque é do elemento terra, que quer ficar debaixo do elemento ar. Pela mesma razão a pedra afunda, pois o elemento também é mais pesado do que a água. Se a atirarmos para cima, cometemos um movimento violento, contrário à natureza, e ela logo ruma ao seu local natural, que é abaixo do ar. Já alguns corpos boiam porque são mistos, e o ar dentro de si quer ficar acima da água. Se o corpo misto afundar, é porque tem mais terra do que ar em sua mistura.

Tudo deu errado só no século XVI, quando Galileu apontou sua luneta para a lua e enxergou uma “outra terra”, com montanhas, vales e até lagos. Ora, tais elementos não poderiam estar aí; teriam todos de “cair” no nosso planeta. Mais tarde, Newton abandonaria de vez os elementos, e trabalharia com corpos regidos leis naturais. O planeta terra seria uma espécie de ímã gigante que atrai os corpos que estão sobre si com uma força que ele batizou de gravidade; e, em vez de ser possível explicar por que uma pedra cai depois de a lançarmos para o alto, é possível prever com detalhes o seu movimento, uma vez que se tenham observado regularidades na natureza e inferido leis a partir daí. Foi só com essa reviravolta da modernidade que surgiu essa coisa que hoje, olhando para trás, chamamos de ciência, mas que à época era ainda chamada de filosofia natural.

Tendo a ciência se emancipado da filosofia, esta pôde perguntar que é aquela. E foi em meados do século passado que ocorreu a revolução filosófica que nos interessa.

Para dizer o que é ciência, o mais natural seria insistir no seu caráter experimental, por oposição ao caráter abstrato da matemática. Os filósofos fizeram isto, e no século XX os positivistas lógicos acreditavam que tinham decifrado o método científico. O trabalho de um cientista consistiria em purgar seu vocabulário de palavras que não correspondessem a nada de experimental, só afirmar proposições que fossem passíveis de experimentação e, por fim, verificá-las na experiência. Tudo aquilo que não passasse por tais crivos seria “metafísico”, ou destituído significado, e a ciência seria o conjunto de proposições verdadeiras acerca do mundo.

Eis então que entra em cena Karl Popper. Ele aponta que também a astrologia só se refere a elementos observáveis (os mesmos da astronomia) e também faz proposições passíveis de experimentar (fulano é de Áries; Áries são geniosos). Quanto à verificação, é perfeitamente possível elencar infinitas pessoas nascidas entre 21 de março e 20 de abril que sejam geniosas, e assim confirmar a asserção. Se for enumerando corvos pretos que um cientista prova que todo corvo é preto, então um cientista-astrólogo deverá poder computar Áries geniosos para provar que todo Áries é genioso. É verdade que pode aparecer um Áries que não seja genioso – deparado com isso, o astrólogo contará com explicações para essa contradição, e aludirá ao ascendente. Essa eterna possibilidade de explicar um fato contrário às expectativas sem admitir falhas na teoria, nem alterá-la, é a diferença crucial.

O filósofo Karl Popper.

Segundo Popper, o essencial à ciência é a forma lógica de seus enunciados, que é a seguinte: afirma-se uma lei preditiva que faz uma proibição; e, uma vez que tal evento proibido aconteça, a lei é descartada. Assim, as teorias científicas são científicas porque, sendo preditivas, correm o risco de ser refutadas. Quanto mais arriscada for uma previsão, mais valiosa ela será para a ciência, caso seja corroborada e não refutada. No exemplo dos corvos, o valor científico não reside na contagem de corvos pretos, mas na clara proibição de corvos de outra cor. À aparição de um corvo branco, descarta-se a teoria de que todos sejam pretos, e a ciência avança à medida que a comunidade científica proponha teorias cada vez melhores. Já o astrólogo não faz previsões precisas; e, se algo parecer contradizer uma afirmação sua, ele logo traz explicações vagas para mantê-la de pé.

Popper se correspondeu com Einstein e debateu a física quântica de Heisenberg no calor de descobertas científicas. E suas ideias terminaram por ser aceitas entre cientistas das exatas e biológicas, que logo se esforçaram para mostrar qual tipo de fenômeno poderia tornar falsas as suas teorias, a fim de mostrar que elas são científicas.

Com as ciências humanas, o diálogo não fluiu tão bem. Um alvo de Popper foi o marxismo, que se parece mais com a astrologia do que com a astronomia porque, à falta da capacidade de fazer previsões corretas, sobra a criatividade para dar explicações sem assumir erros. Marx fez uma previsão: a de que, segundo as leis da história, o proletariado depauperado dos países industriais faria uma revolução e tomaria os meios de produção. Mas tal não aconteceu. O país mais industrial que Marx conheceu, a Inglaterra, tornou-se próspero. Já as revoluções inspiradas pelo comunismo principiaram pela agrária Rússia, e se espalharam por países rurais mundo afora. O correto seria abandonar o marxismo. Mas, assim como o astrólogo aponta ascendentes, o teórico marxista se esforça para salvar sua teoria em vez de o abandonar. E os sucessivos fracassos da União Soviética, da China anterior ao capitalismo, da Etiópia, da Coreia do Norte, de Gana e, mais recentemente, da Venezuela, nunca servem para provar que a estatização dos meios de produção produz miséria em vez de riqueza. Nenhuma previsão marxista se confirma. O trabalho do teórico se resume a usar de toda sutileza para explicar como Marx está certo mesmo estando errado.

É uma pena que o trabalho de Popper seja mais lembrado na filosofia da ciência do que na política. Em parte, porque política também é objeto de ciência; e, em parte, porque à vigência dos totalitarismos do nazismo e do comunismo, esse austríaco de origem judaica nunca cedeu a modas intelectuais e foi defensor constante da democracia.

Ele tem muito a ensinar a nós, brasileiros. As concepções da política e da ciência de Popper estão interligadas. Para ele, o homem é o único animal que não precisa da força bruta para eliminar um concorrente e progredir, pois pode fazer isso apenas com ideias. Ou seja, com a razão eliminamos as ideias do oponente, em vez da pessoa física do oponente. Violência e razão são dois motores antagônicos de ação política: ou escolhemos guiar a sociedade por uma, ou por outra. Assim, uma vez que escolhamos na política a razão, a sonhada Revolução está fora de questão – dado que é violenta. Mas, assim como podemos descartar ideias em vez de aniquilar pessoas, revoluções devem acontecer no âmbito intelectual (como a revolução copernicana), e impulsionar reformas sociais. A sociedade precisa de liberdade, estabilidade e paz para desenvolver atividades intelectuais. Só nesse ambiente as pessoas expressem os seus pensamentos. Por outro lado, tendo-a, a sociedade evolui a passos calmos. Uma vez que se imponha censura plena, esse desenvolvimento morre, e uma sociedade pode colapsar, regredir ou estagnar. Democracia e ciência, portanto, andam lado a lado, uma fazendo bem à outra.

Dado que as ciências sociais também são ciência, também têm que criar teorias preditivas passíveis de serem contraditadas. E sua principal tarefa, segundo Popper, consiste em “identificar as repercussões não desejadas de ações humanas intencionais.” Isto tanto deixa clara a sua utilidade, como a distingue de invectivas morais mais dignas de religião do que de ciência. Não é objeto da ciência social revelar-se benévola para com os pobres enquanto censura os ricos, nem proclamar karmas históricos: é conhecer o funcionamento da sociedade e ser capaz de fazer previsões precisas. Uma vez que se disponha de conhecimento, aí sim tem-se condições para traçar políticas eficazes para alcançar finalidades nobres.

Esse sistema de mútua propulsão entre sociedade democrática e ciência tem uma falha, porém: permite a defesa da violência. É o chamado paradoxo da tolerância, pois a tolerância para com a intolerância engendra a intolerância. A solução de Popper é parecida com a que adotamos com o racismo, e consiste em criminalizar a defesa da violência – a qual sempre vem acompanhada do descrédito da razão. Deve-se sempre combater tais ideias na esfera pública, mas estruturas de seita são-lhe imunes. Intolerantes “podem proibir os seus seguidores de ouvir argumentos racionais, porque isto é ilusório, e ensinar-lhes a responder a argumentos com o uso dos “punhos ou pistolas.” Aí, sim, criminaliza-se um movimento intolerante. Ele renuncia à razão, não cabe no debate de ideias e só pode pretender o poder pela via da força, da Revolução.

Infelizmente, elogiar a democracia no Brasil é muito fácil; tão fácil, que até os intolerantes amam fazê-lo. Basta dizer que “democracia” significa “povo no poder”, para em seguida dizer “o povo sou eu”, determinar quem é “povo” de verdade e indicar dentro do Estado os inimigos do povo. Isto é velho, e por isso Popper já se preocupava em não cair em armadilhas verbais. Diz ele: “Só há dois tipos de instituições governamentais: as que possibilitam a mudança de governo sem derramamento de sangue, e as que não. Mas se o governo não pode ser mudado sem derramamento de sangue, não pode, na maioria dos casos, ser removido de jeito nenhum. Não precisamos disputar palavras, nem tais pseudoproblemas, como o do significado verdadeiro ou essencial da palavra ‘democracia’. Podem escolher o nome que preferirem para os dois tipos de governo. Eu, pessoalmente, prefiro chamar o tipo de governo que pode ser removido sem violência de ‘democracia’, e o outro de ‘tirania’.”

Pois bem. No Brasil esperamos as eleições de outubro, e não há a mais remota hipótese de o governo continuar o mesmo. Não obstante, intelectuais e associações científicas insistem que vivemos em um estado de exceção, ao mesmo tempo que… esperam sair de uma ditadura e ingressar na normalidade democrática através do voto. É claro que muitos profetizaram que as eleições não ocorreriam. Mas também é claro que não irão rever suas posições, pois são pseudocientistas. Uma vez declarado que as elites brasileiras, inimigas do povo, são neoliberais, odeiam pobres e por isso golpearam a democracia, não há evento concebível para desmentir a tese. Ao contrário, todo evento novo ou é enquadrado de qualquer jeito nos moldes dessa teoria, ou é ignorado. Assim como fazem os astrólogos.

Seria um grave problema se recursos públicos fossem privatizados por uma agenda criacionista. Não bastasse a impropriedade do destino de recursos públicos, com isto também se paralisariam avanços nas ciências biológicas. Que tal seria desenvolver vacinas rejeitando a evolução, ou instalar satélites de meteorologia acreditando em terra plana? Perderíamos todos. Pois é isso que ocorre no campo da política: quanto mais as universidades públicas abrem “cursos de golpe” Brasil afora, e quanto mais partidarizadas ficam entidades como a SBPC e associações de pós-graduações, mais somos convencidos a fazer o exato oposto do que pretendem: parar de financiá-las. Embora saibamos que as universidades não são só isso, tais manifestações tornam patente que há algo muito errado com elas. É grave para o Brasil ter o lugar da ciência política ocupado por uma pseudociência divisiva e intolerante, e ainda financiá-la com dinheiro público. Tal situação obriga a repensar os atuais modelos de autonomia universitária e de financiamento público.

Bruna Frascolla é doutora em Filosofia pela UFBA, atualmente pesquisadora colaboradora da Unicamp, tradutora dos Diálogos sobre a religião natural, de David Hume (Edufba, 2016).