Primavera brasileira

Primavera brasileira

Estado da Arte

13 Março 2017 | 12h29

Por Felipe Massao

Invariavelmente, uma das primeiras coisas que aparece em conversa com um europeu é o clima brasileiro. “Lá tem uma estação na qual faz mais calor, e uma na qual faz mais frio; uma na qual chove mais, outra de estio”, digo de maneira quase protocolar, enfatizando que não temos as quatro estacões do ano como as vemos bem definidas, por exemplo, na Europa.  Apenas um grande verão e um grande inverno. Mas para complicar o assunto parece que vivemos sim, hoje, uma primavera permanente desde abril de 2013. Porque os tempos mudaram, e nesse novo ambiente o clima deixou de oscilar há algum tempo somente entre verão ou inverno, em Brasília e no resto do país.

A noção de “primavera” em política está associada a um prenúncio, a uma erupção popular via revolução, ondas de mudanças, ou protestos de estudantes sobre algo por vir. Tivemos, por exemplo, a Primavera das Nações, por conta das revoluções de 1848 na Europa, a Primavera de Praga em 1968, as manifestações na praça Tiananmen na primavera de 1989 em Pequim, e mais recentemente a Primavera Árabe em 2010. Não foi à toa, nesta mesma linha, que Chico Buarque cantou a Revolução dos Cravos em Tanto Mar (“Canta primavera, pá, cá estou carente…”) com referências a sementes, alecrim, e flores – todas reforçando a relação primavera-renovação política. A gama de exemplos é grande. A Primavera Árabe, por exemplo, oferece uma boa oportunidade de reflexão sobre os tempos políticos do Brasil de hoje. Lá, tudo começou com um vendedor de rua na Tunísia, Mohamed Bouazizi. Não suportando mais a corrupção de um inspetor do governo que lhe cobrava uma propina equivalente a sete dólares (um dia de trabalho), ele resolveu dar um basta. Mesmo tendo de ajudar a sustentar mãe, cinco irmãos, e um tio, Bouazizi decidiu tacar fogo em seu próprio corpo. Nisso ele optou pela solução que refletia seu desespero. Morto dias depois por causa das queimaduras, pessoas começaram a simpatizar com o destino de Bouazizi, e protestos começaram a surgir espontaneamente contra o governo. Foi a partir desta dolorosa trajetória pessoal que a Primavera Árabe tomou corpo e se espalhou: em pouco mais de um ano, os chefes de governo da Tunísia, Egito, Líbia e Iêmen foram derrubados, sem contar o caos causado na Síria, que desde então entrou em guerra civil, alem de outros países da região que tiveram de realizar reformas constitucionais para acalmarem os ânimos dos protestos.

Apesar do nosso foco e da justificada obsessão com a Lava Jato, vale a pena lembrarmos que toda nossa agitação política começou antes, à época da Copa das Confederações no Brasil, em meados de 2013. Tal como na Tunísia, o início de tudo teve a ver com um assunto relativamente menor ou localizado. Ao invés da imolação de um homem, tivemos naqueles 20 centavos do aumento das tarifas de ônibus em São Paulo, a fagulha que viabilizou a expressão de um mal-estar no país de proporções muito maiores. Sim, houve o Movimento Passe-Livre; mas logo ficou claro que a agenda do dia continha várias outras reivindicações (transporte, repressão policial, serviços públicos, cerceamento ao judiciário, julgamento do Mensalão) provocadas por diversos fatores. Por seu caráter espontâneo, de surpresa, de revolta a partir de uma agenda difusa que tomou enormes proporções, parece plausível sugerir conexões importantes entre a Primavera Árabe e o clima do Brasil em nossos tempos.

Vemos hoje, num Brasil pós-Copa, pós-Olimpíadas e pós-delação premiada da Odebrecht, a questão do combate à corrupção como mote central no debate do país. Ao mesmo tempo, nossa primavera parece que começa a se espalhar para outros países da América Latina. Como nota Mario Vargas Llosa em artigo recente para o Estadão, já há ramificações em investigações no Perú, Colômbia, e Panamá. E há espaço para mais. Como ele mesmo observa, esta situação gerada pelas investigações no Brasil abre uma oportunidade magnífica para estes países punirem a corrupção nos seus respectivos governos.

Se de fato vivemos uma primavera, há nela a possiblidade para ao menos enfrentarmos nossa antiga relação entre políticos e eleitores no Brasil. Poderia-se falar aqui em “patrimonialismo”, mas é melhor usar a descrição crua do que vivemos: a briga para pararmos de alimentar aqueles que usam nosso voto para se darem bem com nosso dinheiro. Sérgio Cabral, ex-governador do Rio de Janeiro é um caso exemplar. Dito de outra maneira, há sim uma briga contra a corrupção; mas além disso há também uma briga contra a lógica de dois andares no Brasil: o de cima para os privilegiados, e o de baixo para os outros, os excluídos, os subtraídos. Dentro deste sentido mais amplo, mostra-se emblemático o caso das compras de alimentos para o avião presidencial de Michel Temer, onde o sorvetinho Haagen Dasz, pago pelo contribuinte, custaria algo como R$7.500 ao ano. Seria esse um caso de corrupção? Não necessariamente. Mas como pedir austeridade a população se Brasília parece viver em uma realidade paralela, distante da vida real? Apos muita grita, o potinho de sorvete foi cancelado assim como o resto das compras. Dentro deste anseio por mudancas, que parece ir alem da Lava Jato, surge a oportunidade de buscarmos relações com mais igualdade, racionalidade e responsabilidade. Vão neste sentido algumas questões do dia debatidas por conta da prisão em segunda instância, ou da separação entre presos diplomados e o resto, cuja distinção, por conta de políticos presos e das revoltas nas prisões, nunca foi tão obscena.

Em tempos digitais onde novas mídias encurtam a distância entre Brasília e o resto do país, há a possibilidade de propagação de informações, e a formação de redes de protestos de uma maneira nova e muito mais rápida. Assim foi provavelmente em 2013 com a Copa das Confederações, onde os tradicionais canais de reivindicações (sindicatos, MST, movimentos patronais etc), apesar de controlados, não conseguiram impedir a erupção de manifestações em vários cantos do país, muito por conta das mídias sociais. Veja por exemplo a importância efêmera que ganhou a Mídia Ninja, mais ajustada a esses novos tempos. Talvez parte desta primavera passe fundamentalmente por esses novos canais digitais de comunicação. Também e por conta desta nova escala que não respeita mais as distâncias geográficas que podemos assistir online e fazer pressão. Quem é que não conhece o nomes dos juízes do STF? Quem é que não acompanha mais de perto, em clima de decisão futebolística, as enfadonhas porém fundamentais decisões deste mesmo tribunal? Não à toa, neste big-brother às avessas, um político como o senador Romero Jucá acusa o golpe quando tenta passar um projeto de lei aumentando os efeitos do foro privilegiado – eis aí os dois andares de novo! – para presidentes da Câmara e do Senado. Contra sua PEC da impunidade, ele foi forcado por pura pressão e exposição a recuar. Além disso, revelou-se em seu sincericídio, ao equiparar o foro privilegiado a uma grande suruba (sic)! Eliane Cantanhede vai nesta linha, ao considerar cinco recuos históricos por conta de pressão da opinião pública e das redes sociais. A saber: as tentativas de se criar a PEC da impunidade já citada acima, a inclusão de parentes de políticos na repatriação de recursos, a distorção das dez medidas contra a corrupção, um pedido de urgência no projeto que retiraria poder da Justiça Eleitoral para punir partidos políticos, e por fim a anistia do caixa dois de campanha.

De joelhos -- Durante um inverno na praça Tahrir (ou alguma outra) milhares de egípcios celebram de quatro o fim (ou o começo) de mais um ano. (Fonte: The Hawk http://www.thehawk.in/news/four-dead-after-blast-shooting-at-bangladesh-eid-prayers

De joelhos – Durante um longo inverno na praça Tahrir (ou alguma outra) milhares de egípcios celebram de quatro mais uma estação que vai e outra que vem (Fonte: The Hawk).

Outro que se queimou foi Eliseu Padilha. Também do PMDB, o atual Ministro da Casa Civil foi gravado explicando descaradamente como funciona o fisiologismo no governo. Antes foi o PT, e agora é o velho PMDB que parece não conseguir mais se movimentar tão bem pelas sombras. Se na Primavera Árabe caíram chefes de governo, aqui caiu a nossa Presidente da República (Dilma), e antes dela o líder de seu governo no Senado (Delcídio), e depois o Presidente da Câmara (Cunha), além de outros na mira da Justiça que ou estão perdendo seu cacife político ou quase não conseguem terminar seus mandatos (Renan, na Presidencia do Senado). Talvez seja um sinal de que precisamos ter uma nova maneira de se fazer política no Brasil, que pouco tem a ver com estes partidos, que cada vez parecem estar mais arcaicos.

Nesta onda contínua de manifestações, antes mais visíveis a partir das ruas e agora mais volumosas nas mídias sociais, parece haver algo como uma grande perda de tempo como, por exemplo, a polêmica em torno do breve discurso de Raduan Nassar durante uma premiação literária. Se ele quer Temer fora, e vê golpe em Dilma, logo surgem aqueles que aplaudem e, em resposta, aqueles que o acusam e denigrem. Há também os acusam hipocrisia em Nassar por aceitar o prêmio em dinheiro, enquanto outros lembrarão o seu desprendimento ao doar uma fazenda que valeria milhões a Universidade Federal de São Carlos. Frente a brigas velhas como essa entre velhas ideologias de esquerda e de direita, confesso sentir o mesmo cansaço que me vem ao repetir para um gringo como é que o tempo sempre fucionou no Brasil – inverno ou verão, chuvas ou secas – como se ele só pudesse oscilar entre estes dois polos. É desanimador ver que perdemos a oportunidade de por o dedo na ferida nesta briga pois preferimos esquecer, patologicamente, que praticamente todos os espectros da política brasileira hoje, em maior our menor grau, estão sendo expostos por participarem cinicamente dessa lógica de privilégio político e corrupção. Parece ser mais fácil, satisfatório ou conveniente bater boca, ao invés de focarmos na oportunidade que se abriu parar nós.

Por fim, a comparação com a Primavera Árabe também serve aqui como um aviso. Ela teve um início surpreendente e foi mesmerizada por seu frescor democrático que encantou o mundo. Teve por exemplo, o apoio do então presidente americano Barack Obama. Mas toda essa onda terminou muito mal. O Egito, por exemplo, parece estar pior hoje do que antes da Primavera, pelos desarranjos que tomaram conta do país. Houve deposição do novo presidente eleito democraticamente, seguida de muita fricção, e acusações por organizações internacionais denunciando torturas, perseguições políticas, e assassinatos. O horror ganhou da esperança. Sim, devemos ser mais cordiais se comparados ao cataclismo que tomou conta de várias nações árabes. Mas não quer dizer que nosso futuro possa ser menos trágico ou triste, a depender de como nossa longa primavera acabar. Para não dizer que nao falei das flores, oxalá possamos buscar algo melhor para nós como país.

Felipe Massao é economista, mestre em teoria psicanalítica e doutorando pelo Birkbeck College (Londres) em Psicologia Social.