Pós-Feminismo: O Feminismo é um imperativo ético ou um cavalo de Tróia?

Pós-Feminismo: O Feminismo é um imperativo ético ou um cavalo de Tróia?

O Feminismo corre o riso de se tornar um cavalo de Tróia que dissimula práticas autoritárias, intransigentes e antidemocráticas.

Estado da Arte

28 de junho de 2019 | 15h00

por Isabelle Anchieta

“Só o profeta e o político buscam sacralizar a palavra e ocultar a sua historicidade.”

Há, atualmente, um consenso entre as mulheres alinhadas ao feminismo de que ele é um dever a que estamos obrigadas, um imperativo universal ético e moral. “Sejamos todas feministas”¹, caso queiramos uma sociedade mais equânime e justa. Essa obrigação se sustenta em duas crenças. A primeira: a de que toda a luta por liberdade e autonomia das mulheres deve ser chamada por esse nome, sendo, então, o “feminismo” um conceito trans-histórico − minimizando suas origens e privilegiando uma noção geral, dicionaresca, que diz ser a “feminista uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos”.  Segundo, parte-se da crença de que não há, não houve e não haverá outro caminho senão o feminismo e que ele, sozinho, foi responsável pela mudança da condição das mulheres na sociedade moderna. Essas duas crenças consolidam um imperativo feminista totalitário, legitimando a luta em sua defesa e o combate (violento e orquestrado) às vozes dissidentes. Afinal, como se opor a uma causa tão justa?

Colaboram para esse entendimento um conjunto de pesquisas históricas que tomam a mulher como uma vítima passiva e silenciosa do patriarcado até a chegada da Modernidade, quando as revoluções, a teoria marxista e o movimento Feminista parecem, enfim, despertá-las de sua alienação secular. Quase um conto de fadas das “adormecidas mulheres da História”. Perdão pela impaciência irônica, mas acho desrespeitoso esse entendimento com as mulheres do passado e mesmo do futuro. Tenho há quase 13 anos investigado as mulheres da Idade Média até a Modernidade, obra que se tornará uma coleção pela EDUSP em breve², e surpreendentemente concluí, aqui de forma bem resumida e simplificada, que “desde que há uma mulher em sociedade há o desejo de autodeterminação”. Esse desejo não nasceu com o Feminismo. As mulheres sempre lutaram por poder e muitas vezes conseguiram, astutamente, inverter as condições sociais a seu favor. Elas eram feministas? 

Seria impreciso dizer isso. O Feminismo emerge no século XVIII e XIX, no período Revolucionário, fortemente associado à teoria e às práticas marxistas. O próprio termo “feminismo” surge nesse período, em 1871, empregado pelo médico francês Ferdinand-Valerè Fanneau de La Cour em sua tese de doutorado Do feminismo e do infantilismo nos tuberculosos. Utiliza o termo para descrever “uma patologia que afetava os homens tuberculosos, produzindo, como sintoma secundário, uma feminização do corpo masculino”.  Mas será o também francês Alexandre Dumas, jornalista e filho do célebre escritor de mesmo nome, quem irá fazer a transição do termo para denominar o movimento sufragista, ainda que em um registro crítico. Ao publicar um panfleto em 1872, Dumas usa o “feminismo para se referir pejorativamente aos homens solidários ao movimento de mulheres que lutavam pela igualdade política e pelo direito ao voto”. Em seguida, as próprias sufragistas apropriam-se do “feminismo”, subvertendo o sentido pejorativo original e empregando-o para definir afirmativamente seu engajamento político. 

Importante dizer que o Feminismo se insere dentro de um processo social mais amplo de humanização e diminuição das desigualdades sociais, em que a justificativa, para excluir as mulheres dos processos políticos, tornava-se cada vez mais insustentável no novo modelo mental da sociedade moderna. Tanto é assim que muitos homens passam a defender as sufragistas³ e viabilizam, em conjunto com elas, a mudança da lei. Um processo social que Norbert Elias define como uma tendência “para uma identificação recíproca mais fácil, sem que se atenda às origens sociais de cada um”. É nesse mesmo contexto de mudança de mentalidade que emerge o marxismo, questionando a sujeição do trabalho de uma classe pela outra. Sua teoria via na opressão econômica o centro para a explicação de todas as dinâmicas sociais, o que será apropriado pelas feministas para também pensar a sujeição das mulheres. Elas passam não só a se apropriarem de Marx, mas também das releituras de sua teoria por Antônio Gramsci, pelos frankfurtianos e culturalistas/identitários − forjando um DNA teórico para o movimento. 

O que sublinho com essa breve explicação histórica é que o Feminismo é um movimento social cujo contexto de nascimento passa, gradualmente, a ter claros alinhamentos ideológicos. Afilia-se a uma teoria que se revelou, na prática, incompatível com as democracias ocidentais e com as liberdades individuais, já que elege a violência como meio de impor a igualdade econômica e social. Marx dizia literalmente em O Capital: “A justiça e a fraternidade não têm intervindo em nada nesse desaparecimento (o da servidão)”. Mais adiante afirma, categoricamente: “A classe operária deve apoderar-se do governo pela força, que em suas mãos será o instrumento com que se levará a cabo a expropriação econômica da burguesia e a apropriação coletiva dos meios de produção”.

Mesmo que o feminismo, posteriormente, tenha feito um parcial (e incompleto) esforço de se desvincular do marxismo, há, no entanto, heranças persistentes e traços autoritários que, infelizmente, ecoam no interior do movimento feminista. Prova desse autoritarismo está na sua incapacidade de conviver com vozes dissonantes de mulheres que buscam outros caminhos nos quais, inclusive, podem chegar aos mesmos resultados. Cito a mim mesma como um exemplo de busca por outro percurso. 

Posso ser contra a violência contra as mulheres, a favor de mais mulheres na política, salários iguais para as mesmas funções e de liberdade sexual sendo uma existencialista/humanista, como também o foi Simone de Beauvoir, em sua obra O segundo sexo, localizada, equivocadamente como um livro feminista no stricto senso. Ou uma “individumanista”, como gosto de me definir no sentido de defender as liberdades individuais conjugadas a um “novo” humanismo que abarque as emergentes e multifacetadas diferenças e que promova uma conexão empática mais ampliada entre nós para além da cor, classe, sexo, opção sexual etc. Evita-se, assim, a formação de grupos identitários que “quase invariavelmente tornam-se alienantes e opressivos”.  

Sei que, nessa perspectiva, pareço nadar contra a corrente do momento, mas entendo ser contraproducente para a construção desse novo humanismo a segmentação cada vez mais extrema do feminismo. Há hoje “muitos feminismos”, no plural, que nada mais fazem do que criar uma “hierarquia da opressão”[4]: negras x brancas, lésbicas x heterossexuais, progressistas x conservadoras. Por isso, essa que parece ser a fase mais democrática do feminismo mascara, na realidade, a face mais sectária do movimento. Sob a aparência da tolerância e da diversidade, o ódio às mulheres não convertidas ao Feminismo está no ar, ou melhor, nas redes. Negam a misandria, mas centram suas pesquisas no ataque ao patriarcado. Querem motivar a sororidade, mas desde que as mulheres se aliem às posições ideológicas do grupo. São, apropriando-me de Tzetan Todorov, “as inimigas íntimas da democracia”, pois “usam os trajes da democracia, e por essa razão, podem passar despercebid(a)s”, como um cavalo de Tróia…. [5]

Em defesa a esse feminismo engajado e contrário a esse novo humanismo aqui proposto, escuto muitas vezes que é preciso uma fase radical do feminismo para depois alcançarmos essa pacificação social desejável. Soa, para mim, como uma paráfrase marxista. Um argumento que ecoa a sua lógica. Primeiro a força, a violência e a supressão parcial das liberdades, para vivermos em seguida o ideal da igualdade. E nós sabemos bem o resultado disso. Os meios autoritários, por mais justos que aparentem ser seus propósitos, nunca nos conduziram a fins democráticos.  

É nessa direção que registro aqui minha eterna desconfiança com a tendência atual de definir o “Feminismo” como um conceito trans-histórico, alertando para os riscos dele se tornar um movimento totalitário. Vale recordar a epígrafe: “só o profeta e o político buscam sacralizar a palavra e ocultar a sua historicidade”.  

Em outras palavras, o Feminismo corre o risco de se tornar um cavalo de Tróia, que, sob a beleza do seu imperativo ético, dissimula práticas autoritárias, intransigentes e antidemocráticas. É preciso ter a coragem de dizer: há muitos caminhos para se alcançar a liberdade humana e, se há alguém ou um grupo que aponta imperiosamente um caminho ou não respeita os demais, temos de acender o sinal de alerta para nossas garantias de livre pensar

Termino com a lucidez de Carol Hanisch, a feminista que tornou célebre a frase “O pessoal é político.”, em artigo publicado em 1969. Escreve: “Enquanto nós dissermos você tem que pensar como nós e viver como nós para se juntar ao círculo encantado, nós vamos falhar”.   

Isabelle Anchieta é doutora em Sociologia pela USP, mestre em Comunicação pela UFMG, premiada como Jovem Socióloga pela ISA/UNESCO.

Notas:

¹ O título é de autoria de Chimamanda Ngozi Adichie, publicado pela Companhia das Letras em 2015.
² O título da coleção é: Imagens da Mulher no Ocidente Moderno.
³ Sugiro a leitura de Stuart Mill, A Sujeição das Mulheres, 2006
[4] Audre Lorde: “Não existe hierarquia de opressão”. Pensamento Feminista: conceitos e fundamentos, Bazar do Tempo, 2019.
[5] Tzetan Todorov, Os inimigos íntimos da Democracia, Companhia das Letras, 2012, p. 197.

 

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