Pós-feminismo: não (só) por equidade, mas por prosperidade

Pós-feminismo: não (só) por equidade, mas por prosperidade

Ao colocar o conceito de prosperidade no centro do debate, o Feminismo pode aliar homens e mulheres em busca de um bem social comum.

Estado da Arte

22 de março de 2019 | 12h41

por Isabelle Anchieta

Há muitos méritos do feminismo contemporâneo. Citaria especialmente a desnaturalização das funções entre homens e mulheres, a ideia de empoderamento econômico e o fato mesmo de ter colocado o tema no centro do debate. No entanto, há uma pronunciada agressividade amalgamada com ressentimento que não foi ainda capaz de superar a impressão de que os homens são inimigos em potencial, ainda que se diga o contrário.

No entanto, só há uma forma de mudar um arranjo social fundado na interação entre homens e mulheres: chamando ambos para esta conversa. Não conseguiremos avançar por meio de métodos separatistas como é, por exemplo, a mal utilizada ideia do lugar de fala. Mais do que homens silenciados e antipatizados com a causa das mulheres, o mais inteligente é termos aliados, não só por empatia, mas por interesse pessoal, econômico e coletivo. Isso mesmo. A equidade não é (só) uma questão de justiça, mas pode proporcionar a prosperidade social e distensionar a relação entre os sexos.  

Não conseguiremos avançar por meio de métodos separatistas como é, por exemplo, a mal utilizada ideia do lugar de fala

Um dos primeiros homens a compreender isso foi John Stuart Mill. Em 1867, como membro do parlamento inglês, apresentou uma petição assinada por 1.500 mulheres que desejavam votar.  No discurso em defesa das sufragistas, oferece um argumento que merece, ainda hoje, ecoar:

“Estou convencido de que as relações sociais dos dois sexos, que subordinam um sexo a outro em nome da lei, são más em si mesmas e constituem um dos principais obstáculos que se opuseram ao progresso da humanidade; estou convencido de que devem ser substituídas por uma igualdade perfeita, sem qualquer poder ou privilégio para um lado e incapacidade para o outro.”[1]

Stuart Mill se dá conta de que a emancipação feminina não se restringia apenas à defesa da justiça e à liberdade humana, mas traria benefícios muito concretos para a sociedade em geral. Com a colaboração feminina nas esferas públicas, especialmente com sua participação na política, nas tomadas de decisão, nas esferas do conhecimento e do trabalho, avançaríamos. Impedi-las, seria o mesmo que impedir a sociedade de dar esse passo. Infelizmente, não foi esse o entendimento dos parlamentares ingleses em 1867. Cento e noventa e quatro contra setenta e três deles definiram que não, as mulheres não poderiam participar.    

Em 1869, Stuart Mill publica a obra A sujeição das Mulheres, insistindo em sua tese. Para ele, “cada passo em direção ao desenvolvimento tem sido invariavelmente seguido por outro passo em relação à elevação da posição social das mulheres”[2] e classificando de injusta “a exclusão da metade da raça humana de quase todas as altas funções sociais”[3]. Não só uma injustiça, mas também um prejuízo para a própria sociedade, já que “não é uma mera banalidade dizer que tais funções são geralmente preenchidas por homens muito menos adequados que várias mulheres”.  

Ao que tudo indica a percepção de Mill estava correta. Uma pesquisa recente, realizada pela Consultoria Mckinsey, em 2016, demonstra que, se houvesse equidade o PIB Mundial teria aumento de 28 trilhões, em 10 anos[4]. A mesma pesquisa também comprovou, após analisar 100 empresas em 25 países, que aquelas que possuíam ao menos três mulheres em cargos de diretoria lucraram 56% a mais do que suas concorrentes.     

Stuart Mill era mesmo um homem à frente de seu tempo. Destacava, inclusive, a “vocação das mulheres para o governo”[5], lembrando o sucesso de Rainha Elizabeth e da Rainha Vitória sem alcançar, evidentemente, a “Dama de Ferro”. Ainda que, em seguida, matize sua afirmação dizendo que não há uma constituição inata ou natural nem do homem nem da mulher para tal, mas trata-se, sobretudo, das oportunidades sociais que são (ou não) ofertadas a mulheres capazes.

Percebendo a importância da participação dos homens para essa mudança social, Stuart Mill convoca: “Não se pode esperar que as mulheres se devotem à sua própria emancipação, até que um número considerável de homens esteja preparado para juntar-se a elas neste compromisso”[6].

Isabelle Anchieta é doutora em Sociologia pela USP, mestre em Comunicação pela UFMG, premiada como Jovem Socióloga pela ISA/UNESCO.

[1] Stuart Mill, A sujeição das Mulheres, São Paulo, Escala, 2006.p. 15.
[2] Ibid, p. 39.
[3] Ibid. P. 75.
[4] Infelizmente, o Fórum Econômico Mundial do mesmo ano, 2016, previu que a equidade só acontecerá daqui há 170 anos.
[5] Ibid. P. 80.
[6] Ibid. P. 111.

 

 

 

 

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