Poesia em Casa – Uma leitura aproximada

Poesia em Casa – Uma leitura aproximada

Estado da Arte

11 Dezembro 2016 | 08h00

Por Pedro Gonzaga

Uma leitura é sempre um movimento particular que pretende se tornar público. Sua origem íntima a faz uma mescla de emoção, razão e memória, antes de ser tocada pelas teorias, ou aparatos históricos e culturais. A mim interessam bem pouco as leituras que se filiam a uma corrente ou à moda acadêmica em voga, por assiduamente falsificarem a impressão inicial, distorcendo-a para que se encaixe em alguma escola ao momento lucrativa. Do mesmo modo, prefiro as leituras exóticas, do que meros recolhidos do que já foi observado por outros estudiosos em inermes situações. Para a poesia me parece ainda mais fundamental esta leitura próxima, emotiva e racional, como praticada, por exemplo, pelo grande Dámaso Alonso. Hoje, com todas as reservas tomadas, lerei um soneto de Camões. Leremos.

 

O tempo acaba o ano, o mês e a hora,

A força, a arte, a manha, a fortaleza;

O tempo acaba a fama e a riqueza,

O tempo o mesmo tempo de si chora;

O tempo busca e acaba o onde mora

Qualquer ingratidão, qualquer dureza;

Mas não pode acabar minha tristeza,

Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro

E o mais ledo prazer em choro triste;

O tempo, a tempestade em grão bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro

O peito de diamante, onde consiste

A pena e o prazer desta esperança.

 

Acostumados que estamos ao seu gênio, por vezes esquecemos seu glorioso poder de expressão, que não só vence a barreira de 450 anos de distância entre nós e ele, como também faz com que não percebamos o quão maleável é o decassílabo em suas mãos, quão dúctil a rigidez dos quartetos e tercetos, quão natural a sonoridade programada das rimas. Procurei escapar aos mais conhecidos, escolhendo um cuja temática não pode ser mais camoniana, o desconcerto, a passagem do tempo, a indiferença da Senhora aos apelos amorosos do poeta.

 

O tempo acaba o ano, o mês e a hora,

A força, a arte, a manha, a fortaleza;

O tempo acaba a fama e a riqueza,

O tempo o mesmo tempo de si chora;

 

No primeiro quarteto, logo impõe-se o tema do tempo, com este “acabar” um pouco estranho ao nosso uso, o que o torna ainda mais dramático.

 

O tempo acaba o ano, o mês e a hora,

 

Reparem que a sequência dos termos vai do maior para o menor, “o ano, o mês, a hora”. Num primeiro momento pareceria lógico o caminho da hora para o ano, por composição e acumulação, mas notem que do ponto de vista humano, da experiência do instante, é a hora que podemos sentir, é a hora que acaba. Mês e ano são abstrações das horas perdidas.

Luiz-Vaz-de-Camões

No segundo verso, vemos como se consomem todas ferramentas de resistência aos efeitos do tempo, assim como no terceiro se vão todos os bens do mundo, eco que antecipa as angústias do futuro homem barroco. O quarteto é encerrado com um dos mais belos versos da língua portuguesa, um jogo de repetição que coloca o tempo como vítima de seus próprios desígnios.

 

O tempo busca e acaba o onde mora

Qualquer ingratidão, qualquer dureza;

Mas não pode acabar minha tristeza,

Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O segundo quarteto é aberto com uma ampliação do poder do tempo, para além do mero acabar com as coisas, agora ele também “busca”. Este novo tempo, no segundo verso, já não parece um inimigo, mas sim um aliado, pois encerrará os danos de “qualquer ingratidão, qualquer dureza”. Contudo, logo notaremos que esta nova função se dá para que haja espaço para um novo antagonista, melhor, nova antagonista, a Senhora insensível que aparece ao fim do quarto verso. Herança da poesia trovadoresca, a dama distante estava próxima demais na vida e na lírica de Camões, causando constantes desequilíbrios que em muito ultrapassaram as convenções poéticas. Cabe destacar ainda que as “tristezas” do poeta o tempo falha em acabar, tempo que na estrofe anterior era capaz de fazer chorar o próprio tempo. Eis que a Senhora se configura como a entidade mais poderosa neste momento, cabendo a ela cessar ou não as penas de quem sofre.

 

O tempo o claro dia torna escuro

E o mais ledo prazer em choro triste;

O tempo, a tempestade em grão bonança.

 

A terceira estrofe se insere perfeitamente na temática do desconcerto camoniano, e nela se ouve, sem esforço, o eco do clássico soneto “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. As imagens bastante binárias “claro” e “escuro”, “ledo prazer” e “choro triste”, “tempestade” e “bonança”, precisam, no entanto, de algum cuidado de análise. De modo diverso ao uso convencional, mas em acordo com a aliança entre poeta e tempo fundada no quarteto anterior, as operações de transformação do tempo aqui também terão um papel positivo, como veremos no último terceto. Essa progressão já se faz notar pela inversão de positivo e negativo que o último verso do terceto traz. Antes, era positivo/ação do tempo/negativo; agora, ocorre o contrário. Logo saberemos por quê.

 

Mas de abrandar o tempo estou seguro

O peito de diamante, onde consiste

A pena e o prazer desta esperança.

 

Reparem que no último terceto o tempo adquire uma terceira potência: se não pôde acabar com o que o poeta sentia, se não pôde reverter-lhe a tristeza, pode agora ao menos suavizar a resistência do “peito de diamante” da Senhora. A pedra, evidente, não foi escolhida à toa: a dureza, o caráter nobre, o brilho do diamante justificam o investimento galante do eu-lírico. Associado ao tempo, ele haverá de vencer a luta pelo coração da musa. Uma luta dolorosa, de um apenado consciente, até que ele confesse a palavra “esperança”, substantivo que nunca deixa de representar uma visão positiva do tempo, a perspectiva de um futuro.

Não queria, no entanto, encerrar, sem destacar a palavra “pena”, com seu triplo sentido: o de castigo, já destacado, o preço a ser pago por ter o prazer da esperança; o de pena, num sentido de lamento, de patético, por ser o poeta alguém que conhece os efeitos do tempo e as forças da Senhora e ainda sim quer acreditar; e um terceiro sentido, metalinguístico, sendo a pena a saída pela escrita, a sublimação artística, a única maneira, embora frágil, de vencer o tempo e toda sorte de inimigos que numa vida possamos encontrar.

Pedro Gonzaga é poeta, tradutor, músico e professor. Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é autor de A Última Temporada e Falso Começo (Editora Ar do Tempo). Acaba de lançar O Livro das Coisas Verdadeiras (Arquipélago Editorial), sua estreia na crônica.

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