Poesia em Casa: Sete tipos de pretensões – parte 1

Poesia em Casa: Sete tipos de pretensões – parte 1

A coluna de hoje, a ser continuada nas próximas semanas, apresenta sete tipos de pretensão poética que, se não alcançam a página, tornam-se a destruição da própria poesia.

Estado da Arte

02 de julho de 2017 | 11h01

Por Pedro Gonzaga

Cena do filme “Paterson”, de Jim Jarmusch.

Tomar um poeta como personagem ficcional é, as mais das vezes, um caminho certo para o desastre. Há coisas deverasmente tolas ou misteriosas no processo criativo para registrá-las, que terminam por culminar no ridículo de um ator olhando para o vazio enquanto a tela é preenchida por letras que simulam cursivas num papel, ou numa cena em que uma poeta incompreendida, por exemplo, é tomada por louca enquanto seus olhos ardem em fúria. Por isso, um filme como Paterson, de Jim Jarmusch, é um pequeno milagre.

História de um motorista de ônibus que cultiva o hábito da poesia, em nenhum momento, em sua vida comezinha e monótona, vê-se aqueles falsos lampejos atribuídos por uma série de chavões ao fazer poético. Ele escreve nas horas vagas, nas horas roubadas, como quase todos os que se dedicam aos versos. Apoiado pela mulher e sabotado pelo buldogue, o protagonista valoriza a essência de uma vida literária, não importa se às claras ou às escuras: ler e escrever. Toda a tralha romântica do gênio, do artista incompreendido, da miséria, das vivências radicais (que até podem servir para casos extremos) foi deixada de lado. Há no filme, num grande acerto do diretor, o difícil registro do instante poético, quando aquilo que foi a realidade se plasma neste outro meio, o poema, com seu compromisso indestrutível de fidelidade, como diria Seamus Heaney, à experiência humana. Sobremaneira, o que encanta no filme é a qualidade direta dos versos de Paterson, o modo como as pretensões artísticas convergem para o que ele escreve e não para ele mesmo.

A coluna de hoje, a ser continuada nas próximas semanas, apresenta sete tipos de pretensão poética que, se não alcançam a página, tornam-se a destruição da própria poesia. São pretensões basilares, fundamentais, mas que aqui serão apontadas em suas derivações teratológicas. O título é uma pequena homenagem a um livro gigantesco, Sete tipos de ambiguidade, de William Empson.

Primeiro tipo de pretensão – A experiência particular

Base da construção em qualquer forma de arte, a experiência do artista, sua vida, ao menos depois de Pessoa e Drummond em português, já devia estar restrita ao seu devido lugar, o da elaboração da experiência, o de matéria bruta, e não de matéria direta do poema. A primeira pretensão é a de que as coisas vividas por alguém têm de ser importantes para os leitores porque foram vividas por este alguém. Ninguém nunca amou como o poeta, viajou como o poeta, sentiu como o poeta. Trata-se de uma forma caduca de romantismo tardio, um defeito muito visível, resultante do rompimento (ou ignorância) da tradição.

Como em todas as pretensões que apresentarei, esta não se volta para o escrito, mas sim para o autor. Obras desta natureza nos pedem uma adesão a um modo de vida, não a uma poética. Em geral, os eventos versificados são de todo ordinários, mas há um esforço expressivo, um apelo quase sempre patético, para que nós os consideremos únicos. Muitas vezes se utiliza para este tipo de pretensão a palavra confessional. Equivoca-se, no entanto, quem nisso crê. Confessional é um tipo de construção poética, quase um gênero lírico, elaborado a partir da reflexão e reelaboração da experiência. A pretensão de particularidade que reivindica importância para quem escreve pertence apenas ao campo da autopromoção, tão em voga na arte depois dos anos 1960. Em outras palavras, se o poeta não for uma celebridade, a propaganda não irá funcionar.

Segundo tipo de pretensão – O insight redentor

A história da poesia é a história das pequenas iluminações. A beleza de um corpo feminino pelos olhos da poeta Safo, como se recém e pela primeira vez visto. Na poesia chinesa clássica, o cair da noite embriagada em Li Bai, ou um sapato de seda que espera, já coberto de mofo, o retorno de sua dona em Bai Juyi. Mesmo nos grandes épicos de Homero, o que frutifica em nossa memória são os fragmentos reveladores de nosso estar no mundo: a dor de um pai que perde o filho, a angústia de um filho em busca do pai. E nem mencionarei aqui a arte de flagrar o instante em três versos da tradição japonesa do haiku. De modo que captar – a fim de eternizar – um insight está entre as mais altas e belas aspirações poéticas. Mais uma vez, no entanto, tudo se põe a perder quando a descoberta de um fenômeno único busca mais glorificar quem o teve do que aquilo que quem o teve percebeu. Disto deriva a confiança de que qualquer insight que me parece especial justifica um poema. Tudo se reduz a ter uma sacada. E se eu puder fazer um pequeno jogo com isso, tanto melhor. Assim um trocadilho, ferramenta básica de trabalho, cuja função maior talvez seja revelar as arbitrariedades da língua, assume total protagonismo. Mais grave. Inflado com a ilusão de ter feito um grande achado por quebrar uma palavra em duas, acrescendo parênteses ou hífens para separar prefixos e sufixos de um radical, o poeta muitas vezes deixa passar o instante único, o instante humano, que talvez até tivesse descoberto.

Isto só não é pior do que a reivindicação de atenção para o gênio (o poeta!) que foi capaz de nos revelar tal impressão. Ao contrário dos grandes mestres da lírica em todos os tempos, o mestre das revelações não está ocupado em tornar o insight um patrimônio sensível e a um passo perceptível para quem lê: interessa-lhe o conceito, saturado de vaidade, que dele fizerem os leitores. Não surpreende, pois, que tais sacadas, tais insights, não despertem mais do que um riso, mais do que um segundo de distração, incapazes de perdurarem como choque e maravilhamento poéticos, fazendo descrer ainda mais dos poderes transformadores da arte.

Pedro Gonzaga é poeta, tradutor, músico e professor. Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é autor de A Última Temporada, Falso Começo e O Livro das Coisas Verdadeiras (Arquipélago Editorial), sua estreia na crônica. Acaba de lançar mais um livro de poesia, Em outros tantos quartos da Terra

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