Poesia em Casa – O supremo agora: um poema de Pedro Juan Gutiérrez

Poesia em Casa – O supremo agora: um poema de Pedro Juan Gutiérrez

Que espetacular pode ser um poema capaz de tanger a eternidade de cada um de nós.

Estado da Arte

23 Julho 2017 | 13h50

Por Pedro Gonzaga

Preparava a quinta parte das perigosas pretensões poéticas quando, buscando algum exemplo positivo para o tema, deparei com um poema de Pedro Juan Gutiérrez, bem mais conhecido por sua prosa crua, por seus retratos de uma Cuba falida, onde o sexo parece ser a única válvula de escape, do que por sua poesia, mas, aos leitores atentos, será possível notar nos versos, de modo mais direto e eficaz que nas linhas, certa melancolia, um tipo difuso e calado de desespero diante do tempo, que, salvo engano, estão na essência de seus contos. Se a prosa ficcional nos fala das coisas que poderiam ter sido, erguendo mundos que são extensões de nossas vidas, a poesia nos lembra dos eventos perdidos, que voltam a existir no supremo agora de um poema. Ambas têm como missão afirmar o valor da experiência humana, este aqui desdobrado em possibilidades infinitas, este aqui exaurido por tudo que forçosa ou voluntariamente deixamos. E que espetacular pode ser um poema capaz de tanger a eternidade de cada um de nós.

Pedro Juan Gutiérrez,

 

História de amor na Saxônia

 

Uma vez estive passeando

nestes campos

com uma mulher de Hamburgo.

Houve tanto amor

e tanta ternura

que nos assustamos.

Fomos até a estação de trem,

à noite,

fazia muito frio. Nos despedimos

entre lágrimas e risadas nervosas

através dos vidros sujos do vagão.

Cada um regressando aterrado para casa.

Não me esqueço jamais deste instante

porque agora,

de vez em quando,

nós enviamos fotos, com nossos filhos.

E algumas palavras sutis.

Queremos tocar-nos, ao menos desse modo.

Há pouco me mandou uma foto com seus três filhos

e seu esposo.

E uma carta breve.

Ao final escreveu:

“Sobre minha vida amorosa,

porque sei que te interessa,

posso te contar

que tenho um amante platônico

e um real

mas disponho de pouco tempo.

Trabalho muito

e as crianças precisam sempre de mim.

Tuas fotos e tuas cartas

as guardo na caixa de veneno.

Beijos, amor, segues sendo meu homem ideal. A. B.”

 

Pedro Gonzaga é poeta, tradutor, músico e professor. Doutor em Letras pela Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, é autor de A Última Temporada, Falso Começo e O Livro das
Coisas Verdadeiras (Arquipélago Editorial), sua estreia na crônica. Acaba de lançar mais um
livro de poesia, Em outros tantos quartos da Terra.