Poesia em Casa Especial Polônia: a resistência poética

Poesia em Casa Especial Polônia: a resistência poética

Pedro Gonzaga nos apresenta a poemas de Tadeusz Rozewicz, Zbigniew Herbert e Adam Zagajewski, grandes vozes da poesia polonesa do século XX.

Estado da Arte

10 de setembro de 2017 | 01h02

O polonês Zbigniew Herbert: uma das vozes mais potentes da poesia moderna.

Por Pedro Gonzaga

Na segunda parte de nosso especial sobre a poesia polonesa, escolhi três autores que, juntos, ajudam a traçar um painel das violências sofridas pelo país no século XX, talvez, dos territórios europeus, um dos mais massacrados. Lendo a poesia de Tadeusz Rosewicz, em especial, deixo-me tomar pela perplexidade tão bem descrita por George Steiner, em No castelo do Barba Azul: como, apesar da alta cultura europeia, gestou-se o horror das grandes guerras, sobremodo a Segunda, e como toda essa cultura não foi suficiente para impedir o horror dos campos de concentração. Por outro lado, talvez a poesia e as artes não tenham o poder de impedir nossa barbárie, talvez nem seja essa sua principal função. Ao pensar na Guernica, ou em “Morte do leiteiro”, do Drummond, o que vemos é uma tentativa de dar forma permanente a violência, feito um lembrete, feito uma lembrança que nunca morre, e que, de algum modo, serve como consolação, como resistência à voragem do tempo que tudo iguala, que tudo aniquila.

Apresento, primeiramente, dois poemas de Tadeusz Rozewicz, marcados pela calcinante ferocidade da guerra. Nota-se em ambos o posterior vazio de sentido deixado pela perda do poder das palavras para descrever qualquer evento humano, interno ou externo.

Uma árvore 

Felizes eram

os antigos poetas

o mundo como uma árvore

eles feito crianças

O que devo pendurar

no galho de uma árvore

que sofreu

uma chuva de metal

Felizes eram

os antigos poetas

em torno da árvore

dançavam feito crianças

O que devo pendurar

no galho de uma árvore

que foi queimada

e não cantará outra vez

Felizes eram

os antigos poetas

sob o carvalho

cantavam feito crianças

Mas nossa árvore

se partiu à noite

ao peso de um

cadáver desprezado

 

O sobrevivente

Tenho vinte e quatro anos

levado ao matadouro

sobrevivi.

Seguem alguns sinônimos vazios:

homem e fera

amor e ódio

amigo e rival

escuridão e luz.

O modo de matar homens e feras é o mesmo

eu vi:

caminhões de homens esquartejados

que jamais serão salvos.

Ideias são meras palavras:

virtude e crime

verdade e mentiras

beleza e feiura

coragem e covardia.

Virtude e crime valem o mesmo

eu vi:

num homem que era a um só tempo

criminoso e virtuoso.

Procuro um professor e um mestre

talvez ele possa restaurar minha visão audição e fala

talvez ele possa renomear objetos e ideias

talvez separar a escuridão da luz.

Tenho vinte e quatro anos

levado ao matadouro

sobrevivi.

Completando nossa seleção, escolhi mais dois poemas, um poema de Zbigniew Herbert, das vozes mais potentes da poesia moderna polonesa, e um último do ainda vivo e recentemente laureado (tema de uma de minhas colunas recentes), Adam Zagajewski.

A chuva, por Zbignew Herbert

Quando meu irmão mais velho

voltou da guerra

trazia na testa uma pequena estrela de prata

e debaixo da estrela

um abismo

um estilhaço de granada

o atingira em Verdun

ou talvez em Grünwald

(ele tinha se esquecido dos detalhes)

ele costumava falar muito

em várias línguas

mas ele gostava acima de tudo

da língua da história

até ficar sem fôlego

exortou seus camaradas mortos a correr

Rolando Kowalski Aníbal

ele gritou

que era esta a última cruzada

que Cartago logo haveria de cair

e então aos prantos confessou

que Napoleão não gostava dele

nós o vimos

ficar cada vez mais pálido

desertado por seus sentidos

volver-se devagar num monumento

pelas conchas musicais dos ouvidos

uma floresta de pedra entrou

e a pele de seu rosto

estava protegida

graças aos botões secos

e cegos dos olhos

nada mais dele sairia

exceto o tato

que histórias

ele contava com suas mãos

na direita tinha romances

na esquerda memória de soldado

eles tomaram meu irmão

e o levaram para fora da cidade

ele volta a cada outono

magro e muito quieto

ele não quer entrar na casa

bate na janela para me chamar

caminhamos juntos pelas ruas

e ele me recita

histórias fantásticas

tocando-me o rosto

com dedos cegos de chuva

Imortalidade, por Adam Zagajewski

Esses pobres poetas do século dezenove

sonhadora de faces rosadas

nossos grandes irmãos incandescentes de

inspiração permitiram que seus retratos fossem feitos

em Paris estrelas hoje das antologias escolares

e autores de citações que justificam

toda injustiça

Pedro Gonzaga é poeta, tradutor, músico e professor. Doutor em Letras pela UniversidadeFederal do Rio Grande do Sul, é autor de A Última Temporada, Falso Começo e O Livro das
Coisas Verdadeiras (Arquipélago Editorial), sua estreia na crônica. Acaba de lançar mais um livro de poesia, Em outros tantos quartos da Terra.

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