Poesia em Casa: dois poemas de Louise Glück

Poesia em Casa: dois poemas de Louise Glück

O que mais me agrada é apresentar poetas aos leitores brasileiros.

Estado da Arte

30 de julho de 2017 | 20h23

Por Pedro Gonzaga

Quando meu amigo de longa data, Eduardo Wolf, um dos editores do Estado da Arte, me convidou para defender esta coluna, uma das ideias centrais era a de manter o meu trabalho de tradução de poetas do mundo todo, das mais variadas épocas, o que já fazia em meu blogue Poesia em casa. Muitas vezes, até por variedade, acabo entrando em temas referentes ao fazer poético, às estruturas da lírica e mesmo em assuntos mais mundanos. No entanto, o que mais me agrada é justamente apresentar poetas aos leitores brasileiros.

Por isso, trago hoje duas traduções ainda frescas da poeta americana Louise Glück, muitas vezes laureada, mas pouco conhecida por aqui. Filha de uma família de imigrantes húngaros de origem judaica, Glück é conhecida por uma obra marcada pela precisão e pela economia a fazer contraste com seu tom confessional, criando um estranho distanciamento subjetivo, perceptível no poema abaixo, do início de sua carreira:

“Gratidão”

 

Não pense que não sou grata por tuas pequenas

gentilezas.

Gosto de pequenas gentilezas.

De fato as prefiro à gentileza mais

substancial, que está sempre a te cravar os olhos,

feito um grande animal sobre o tapete

até que tua vida inteira se reduza

a nada além de levantar manhã após manhã

embotada, e o sol luminoso rebrilhando em seus caninos.

 

Outro aspecto importante é um retorno aos temas clássicos, seja pelo culto ao mundo natural, assunto dominante em seu premiado Wild Iris (1992), seja pela retomada criativa de figuras que povoam a mente de poetas e leitores filiados à tradição ocidental, tal se vê no próximo poema:

 

“Ítaca”

 

O ser amado não

precisa viver. O ser amado

vive na cabeça. O tear

é para os pretendentes, suspenso

como uma harpa de brancos filamentos.

 

Ele era duas pessoas.

Era corpo e voz, o fácil

magnetismo de um homem vivo, e então

o sonho revelado ou a imagem

formada pela mulher manejando o tear,

ali sentada num salão cheio

de homens de mentes literais.

 

Se te causa pena

o mar enganado que tentou

levá-lo para sempre

e devolveu apenas o primeiro,

o verdadeiro marido, deverias

sentir pena desses homens: eles não sabem

para o que estão olhando;

eles não sabem que quando alguém ama dessa maneira

o manto se torna um vestido de casamento.

 

Pedro Gonzaga é poeta, tradutor, músico e professor. Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é autor de A Última Temporada, Falso Começo e O Livro das Coisas Verdadeiras (Arquipélago Editorial), sua estreia na crônica. Acaba de lançar mais um livro de poesia, Em outros tantos quartos da Terra.

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