Poesia em Casa – A ruptura radical

Poesia em Casa – A ruptura radical

Estado da Arte

16 Abril 2017 | 10h55

Por Pedro Gonzaga

Hoje recuperamos uma ideia que está brilhantemente posta na obra On poetry, do poeta Glyn Maxwell, um dos melhores livros que conheço sobre o fenômeno da poesia. Uma das teses centrais, já exposta em nossa coluna aqui no Estado da arte, é a do uso do branco da página como parte integrante do poema, cumprindo não apenas a função de ser silêncio para o que está escrito (o preto), mas ganhando valores primordiais quando usado intencionalmente para romper o sentido do verso, como naquele velho recurso conhecido como enjambement (encavalgamento), que, radicalizado, pode levar consigo até mesmo as sólidas amarras sintáticas. Tomemos o poema abaixo, que é o exemplo também usado por Maxwell. Mantive-o no original, pois qualquer tradução eliminaria o jogo de equívocos proposto pelo autor em seu uso do branco contra o preto, em uma sequência quase insana de encavalgamentos.

 

Between Walls – William Carlos Williams

 

the back wings

of the

 

hospital where

nothing

 

will grow lie

cinders

 

in which shine

the broken

 

pieces of a green

bottle

 

Em Between walls, o uso do enjambement leva a um constante corrigir da leitura, da impressão do leitor sobre o poema, de um verso para o outro, seja pelo alargamento das ligações sintáticas, que deixam de ser lineares para ganharem um caráter vertical, seja pela leitura instável das palavras, por produzirem imagens que precisam, no instante seguinte, ser descartadas.

Comecemos pela primeira estrofe:

 

the back wings

of the

 

A primeira impressão que temos é de que se tratam das asas traseiras de uma criatura (um inseto, um anjo), mas de que criatura? Aquilo que seria o adjunto adnominal se perde ao fim do segundo verso, que já rompia sua estreita relação com as “wings” do verso superior.

 

hospital where

nothing

 

Percebemos agora que não se tratam de asas, de uma coisa viva, mas sim de alas, setores físicos de um hospital. Desfaz-se completamente a imagem que somente o branco ao fim do verso e depois o branco maior entre uma estrofe e outra haviam sido capazes de criar. É a primeira correção que devemos fazer. Mas logo esse “hospital” aparece, no mesmo verso, unido a “where”, criando um efeito de reiterado estranhamento. E então mais um verso curto e órfão: “nothing”, que funciona como uma condenação vaga e, por isso, tão mais ameaçadora.

 

will grow lie

cinders

 

Chegamos ao momento de maior risco à estrutura sintática dentro do poema. Mas também à estrutura do próprio sentido do verso. “Will grow lie”, assim enunciado, não possui significado direto. Ainda que logo descubramos que “lie” se trata do verbo jazer, não deixamos de enxergar a palavra “mentira”, que não se apaga da memória. A instabilidade é desfeita pelo próximo verso, também curto como os outros segundos versos anteriores: “cinders”, cinzas, escolhos, o que resta da combustão. É quando tudo se reorganiza e percebemos que “will grow” se relaciona com “nothing” e “lie” com “cinders”. Não custa, para fins didáticos, recompormos a sintaxe de maneira simples.

 

the back wings of the hospital, where nothing will grow, lie cinders.

 

Não deixa de ser rara, no entanto, mesmo agrupada a sentença, a omissão do locativo “at” ao começo do primeiro verso, trazendo um imediatismo visual muito forte ao poema, como se uma câmera se abrisse para esse pátio dos fundos. Mas passemos às últimas duas estrofes.

 

in which shine

the broken

 

Outra vez há um enjambement do primeiro verso para o segundo e uma nova suspensão ao fim do segundo verso a respeito daquilo que está “partido” ou “quebrado”. Graças ao artigo, a palavra “broken”, assim solta, também pode significar aquele, aquela ou aqueles que foram quebrados ou destruídos.

 

pieces of a green

bottle

 

Com a última estrofe, temos também o último enjambement de uma estrofe para outra. O que estava partido, ou estavam partidos eram uns “pedaços de algo verde”, que assim como as asas lá do início, remetem-nos a inevitáveis imagens de vida, as asas, o verde, ambas rompendo o caráter soturno das coisas que compõem os fundos de um hospital. Deixando, momentaneamente, de lado o aspecto mais formal, lendo um pouco mais o conteúdo, podemos enxergar bem a imagem empregada: num hospital, a vida entra e sai pela porta da frente. Pela parte de trás saem os mortos e o lixo hospitalar, os detritos, a vida carbonizada. Mas ainda subsistem em nossa memória de leitura o ruflar das “falsas” asas. É quando o sentido do verde se revela na última palavra da última estrofe. Verdes são os cacos de uma “garrafa”. Não eram brotos de vida em meio às cinzas, mas sim cacos luminosos a cintilar entre os escombros (quem sabe uma réstia ainda de esperança vital?). Por fim, não se pode negar a beleza plástica desses cacos como pedras preciosas e de luz em meio às cinzas.

“Morte e Vida”, de Gustav Klimt (1916)

Para encerrar, como uma espécie de vindicação à dificuldade de leitura como poder de criação, vejamos como seria o poema organizado prosaica e linearmente:

 

the back wings of the hospital, where nothing will grow, lie cinders, in which shine the broken pieces of a green bottle.

 

Por essas e outras, e lamento prosadores, a poesia é a arte superior da palavra.

 

Pedro Gonzaga é poeta, tradutor, músico e professor. Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é autor de A Última Temporada e Falso Começo (Editora Ar do Tempo). Acaba de lançar O Livro das Coisas Verdadeiras (Arquipélago Editorial), sua estreia na crônica.