Poesia em Casa – A confraria

Poesia em Casa – A confraria

Estado da Arte

13 de novembro de 2016 | 18h15

por Pedro Gonzaga

Um importante historiador aqui de Porto Alegre, Voltaire Schilling, também um leitor feroz, amigo íntimo de meu pai, e que gosta de contar que por pouco não encerrou minha carreira quando, distraído, quase sentou no sofá onde estava meu berço, me disse, certa feita, eu na primeira juventude, talvez como um ressarcimento por ter beirado meu assassínio, “os leitores são uma espécie de confraria mundial. Em qualquer canto do planeta, se lá houver um leitor, e o idioma permitir, haverá entre vocês uma imediata camaradagem.”

Pude comprovar, muitas vezes, ao longo da vida, o acerto das palavras do Tio Voltie, conversando, por exemplo, com um livreiro romano, que entendia espanhol por ter sido casado por três meses com uma colombiana (certas relações são, de fato, um intensivo para qualquer coisa), o que permitiu que dividíssemos nossa paixão pelo poeta latino Ovídio. Ou há dois dias, ao recebermos para a Feira do Livro o excelente escritor espanhol Juan Gómez Bárcena, cujo livro, O céu de Lima, é uma pérola de humor e delicadeza. Numa churrascaria, como libam os gaúchos, descobrimos nossa mútua afeição por John Fante e por seu herói Arturo Bandini, de Pergunte ao pó, e logo havia uma camaradagem selada entre leituras e pedaços de costela.

Em um sentido oposto, creio ser a ausência de camaradagem o que mata o ensino de literatura nas escolas e sua sequência mais exigente que é o ensino de poesia. Sem que possa haver essa congregação de leitura e vida, os livros são apenas páginas aborrecidas que os alunos evitam. Um equívoco que observo há muitos anos é o de acreditar que a leitura tem de ser incentivada na infância. Lá estão pais e mães e livrarias cheias de obras infantis. O mercado vibra, mas o que acontece quando essas crianças chegam a adolescência? Há uma debandada geral dos adultos. Parece que todos se desobrigam da missão de formar leitores quando é mais importante haver ali alguém que ofereça um caminho para os livros que ocuparão o grande resto de nossos dias. Porque são os livros da adolescência e da juventude os que nos ficam, que abrem os caminhos para a leitura autônoma. Abandonados à própria sorte, os jovens caem na zona pouco nutritiva de obras seriadas ou de celebridades, quase sempre formas degradadas de narrativa. Na escola, em geral, há igual deserto. Professores que não pertencem à confraria, que não dividem suas leituras, que, quase sempre, desobrigam-se de suas missões escolhendo livros inermes ou clássicos que apresentam aos alunos sem nenhuma mediação. O ENEM complementa o desserviço transformando a literatura em raso teste de compreensão, como se não houvesse diferença entre um artigo de internet e Machado de Assis, entre uma notícia de jornal e Drummond.

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Digo tudo isso para apresentar a vocês uma centelha de esperança, que sei, pipoca cá e lá por todo o país, por meio de professores e professoras que são amantes da leituras, e que bem poderia se alastrar, caso houvesse interesse.

Na semana passada estive, a convite da professora Regina Ungaretti, uma dessas leitoras incondicionais, e ao lado da poeta e tradutora Cristina Macedo, na escola técnica Liberato, em Novo Hamburgo, para conversar sobre poesia com os alunos do curso de eletrônica. Livres para escolher entre nossos livros e poemas, e instigados pela professora para que se apropriassem dos textos (houve leituras muito melhores do que as que pude ouvir em faculdades), o que se estabeleceu ali foi o espírito dessa confraria de que falava Voltaire Schilling. Durante duas horas, as garotas e os rapazes questionaram, participaram, eletrizados, se me permitem o trocadilho bobo, porque estar ali fazia diferença para eles, como certamente para nós no palco. Queriam saber, em especial, como se faz um poema. E aí também, me parece, cabe aos escritores retirar a máscara, agir com a máxima honestidade. A certa altura, resolvi ler para eles um poema que estará em meu próximo livro, porque ainda me sentia capaz de explicar como eu o compusera, sem os efeitos do esquecimento ou da fantasia.

Havia no bairro em que morei quando pequeno um velho tarado que passava pelas ruas dizendo obscenidades para quaisquer mulheres, sem cuidar faixa etária. Parecia um pouco agressivo, mas nunca passava ao ato. Alguns homens, às vezes, punham-no para correr, aplicavam-lhe uns safanões, mas, em geral, era isso, uma figura folclórica de subúrbio. Eu tinha, então, um grande amigo, que morava numa casa alta e quadrada, com um enorme terraço, e ficávamos lá, atirando de funda para matar o tempo ou derrubar algumas latas que colocávamos no muro do vizinho do outro lado da rua. Vez ou outra, a avó do meu amigo avistava o velho e os dois sempre batiam boca. Ele andava com uma bermuda de sarja e uma camisa floreada que não trocava nunca, os botões sempre abertos, expondo a barriga proeminente e que era mais bronzeada que o resto do corpo. Rezava a lenda local que o tal velho dava abrigo a moradoras de rua em sua casa, de onde elas fugiam pouco depois por não aguentar as exigências sexuais a que ele as submetia. Nunca descobri o que solicitava, são essas coisas que não sabemos (e que bom) quando somos crianças. Um dia, o velho apareceu morto à beira do rio, há duas quadras da casa do meu amigo. O crime nunca foi esclarecido. Anos mais tarde, meu amigo, depois de uma série de complicações pessoais, que nunca pude compreender de todo, suicidou-se. Eu já não morava no bairro, mas sua morte representou para mim uma espécie de cristalização do tempo: quando penso nele, penso em nós crianças, adolescentes, não muito além disso. E, por isso, lembrar do velho é também lembrar dele. 

Foi mais ou menos o que contei aos alunos da escola. Depois disse que não queria escrever um poema triste, mas que alguma melancolia haveria de aparecer. Busquei usar versos curtos, mas de algum modo lentos, um efeito mais fácil de ler do que de explicar, e tentei reduzir minha participação no eu-lírico ao essencial, para que o velho pudesse aparecer em toda a sua glória. Mais do que dar certo ou errado, concluí dizendo que importava para mim, ao escrever, essa comunhão da experiência humana com quem lesse, esse dividir da experiência de estar no mundo, num mundo em que muitos dos que amamos, vivos ou mortos, já não estão ou estarão. O poema é tão-somente uma ponte. Esta ponte.

o velho

deve ter sido em 1988

era o bairro suburbano da infância

na rua do meu melhor amigo

por ali vivia um velho tarado

que passava numa camisa floreada

com todos os botões abertos

lembro que ele não tinha pelos

só uma barriga proeminente

mais morena que o resto do corpo 

diziam que abrigava moradoras de rua

que depois de uns dias 

fugiam escandalizadas

por suas exigências sexuais

de vez em quando 

a avó do meu amigo

saía ao pátio aos gritos –

fecha essa camisa

homem de deus

ele então parava

volvendo apenas o pescoço –

que é que há

velha

que é que há

fica com medo do que sente

me vendo assim na tesão

e logo seguia em frente

coçando a barba feito um mendigo

1988 foi um ano bom

tesão ainda era 

palavra do gênero feminino

meu amigo estava vivo

e um velho tarado 

era a grande ameaça do bairro 

Pedro Gonzaga é poeta, tradutor, músico e professor. Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é autor de A Última Temporada e Falso Começo (Editora Ar do Tempo). Acaba de lançar O Livro das Coisas Verdadeiras (Arquipélago Editorial), sua estreia na crônica.