Poesia em Casa – A arte de indicar

Poesia em Casa – A arte de indicar

Estado da Arte

04 Dezembro 2016 | 08h00

Por Pedro Gonzaga

Nos últimos anos, tenho lido basicamente poesia. Sinto que perco, progressivamente, por este hábito, a habilidade de ler romances, que me parecem aborrecidos e lentos, uma espécie de grande atacado onde é preciso muito garimpar para achar um bom produto.

Imerso no universo lírico, com tão poucas ofertas em livrarias, cheguei a temer um esgotamento de autores, mas não demorei a descobrir que os poetas em geral gostam de traduzir seus poetas preferidos, apontando mais e mais nomes, como fazia o grande Czeslaw Milosz, figura frequente aqui nesta coluna. Um de seus grandes parceiros, que o ajudou a dar forma em inglês a muitos de seus conterrâneos poloneses, foi Leonard Nathan, poeta californiano, que tive a alegria de descobrir por suas mãos.

E como uma das razões de ser de Poesia em casa é partilhar essas descobertas, verti dois poemas de Nathan, falecido em 2007, depois de uma longa vida dedicada ao magistério e à escrita, ao português.

O poeta americano Leonard Nathan

O poeta americano Leonard Nathan

O primeiro poema rememora sua experiência de guerra, o contato com a morte, mas também as aventuras da vida e da camaradagem formada entre os soldados. Depois a voragem do tempo, a vida que separa, a solidão da memória que não se pode partilhar.

“Carta à patrulha vinte anos depois”

Lembram do Ralph que corria tão longe e rápido?

Lembram do Frank que encontrou a rota na escuridão?

Lembram do Leo que nunca perdia a precisão?

E do Nick cujas mãos podiam curvar uma barra de aço?

Tenente Smith – seguem sem consegui-lo ver?

Sempre na vanguarda, um líder natural, ele sim.

Eu o segui com vocês. E vocês se lembram de mim?

Eu sou aquele que nunca pôde esquecer.

Garotas francesas com que juramos casar num capricho

que voando nos tocou; deve ser coisa da idade;

E algum de vocês encontrou maior felicidade?

E o prisioneiro em que atiramos – lembram disso?

Desde o exército não mais segurei uma arma.

Crio rosas raras; por certo isto não lhes há de interessar.

Mas os homens devem de coisas diferentes se ocupar.

Gostaria de saber o que cada um fez em sua casa.

Tenente, ainda avançado? Nick, igualmente poderoso?

Leo, sempre pronto? Frank, no caminho certo?

E Ralph, ainda rápido? À distância agora nada é perto,

E quem pensaria que uma morte viria em passo tão moroso?

Nathan é tido especialmente como alguém que conseguia usar a linguagem coloquial para alcançar um alto poder expressivo e visual. Creio que tais características serão mais notáveis, pela ausência de rima, no próximo poema.

Entre as coisas que mais admiro nele está sua capacidade de arrancar de imagens prosaicas um inusitado poder poético, trilhando a fina linha que separa o belo do grotesco, onde tantas vezes é fácil errar, mas cujos acertos são surpreendentes:

“A canção da bexiga”

Em um pedaço de papel higiênico

Boiando na água amarela de urina,

A impressão completa de uns lábios de mulher.

Nathan, saúde! A privada

Te manda um grande beijo vermelho.

Ah, nada é desperdiçado, se é humano.

Não é tocante o efeito? Espero que possam concordar. Muitas vezes entrar no mundo da poesia é confiar em quem indica. Espero, aos poucos, conquistar a sua confiança.

Pedro Gonzaga é poeta, tradutor, músico e professor. Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é autor de A Última Temporada e Falso Começo (Editora Ar do Tempo). Acaba de lançar O Livro das Coisas Verdadeiras (Arquipélago Editorial), sua estreia na crônica.