Poder, dinheiro e solidão em Julio Larraz e Paolo Sorrentino

Poder, dinheiro e solidão em Julio Larraz e Paolo Sorrentino

Nas mãos de Larraz e Sorrentino, o artificialismo intencional, recorrente nas cenas e nos gestos, se transforma em prazer vigoroso.

Estado da Arte

19 Outubro 2018 | 20h06

por Jocê Rodrigues

 

Nascidos em épocas e lugares distintos, com formações e experiências completamente diferentes, o pintor cubano Julio Larraz e o cineasta italiano Sorrentino possuem algo em comum: o jeito quase surreal e elegante com que retratam a alta sociedade com seus costumes e idiossincrasias. Para isso, mesclam elementos da cultura pop com refinamento e certa solidão que só o dinheiro e o poder podem proporcionar.

Autodidata e sem parentes envolvidos no meio artístico, Julio Larraz não teve educação formal em arte. Ganhou notoriedade na década de 1960, quando foi contratado para desenhar caricaturas políticas para publicações como New York Times, The Washington Post, The Chicago Tribune e Vogue Magazine. Sua primeira exposição individual veio a acontecer na década seguinte, na Pyramid Gallery, em Washington. Nos anos seguintes, sua carreira decola e Larraz se torna uma referência da arte contemporânea (no tempo, não no estilo).

Ele define sua pintura simplesmente como realismo tradicional, sem pretensão de ser algo mais do que pintura. “Se eu quisesse ter feito grandes descobertas, eu teria optado pela ciência, não pela pintura”, declarou em entrevista de 2016. Sua fonte primária de inspiração é a imaginação. Com ela, trabalha na maior parte do processo criativo. Quando precisa de complemento, normalmente busca na internet e nos livros, mas sem nunca deixar a imaginação de lado.

A beleza tem papel central no trabalho de Larraz. Em torno dela gravitam todas as outras forças de suas composições. Com criações que apelam para o erotismo cromático, ricas em texturas e temáticas que fazem os olhos se deliciarem, Larraz compõe uma dramaturgia estonteante que ao mesmo tempo em que convida à reflexão, nos enche de certo encantamento. Seus temas, que podem variar entre nuvens, figuras solitárias e natureza morta, despertam um prazer quase hedonista. Dinheiro e luxo dividem espaço com a profundidade interior, com sentimentos conflitantes como o vazio da existência e a satisfação carnal.

Paolo Sorrentino é considerado por muitos como o sucessor direto de Federico Fellini. Verdadeira jóia do cinema italiano na atualidade. Seus filmes captam os bastidores daquilo que pode ser considerado o tripé do poder italiano, formado pela política, pela Máfia e pela igreja católica. Ambientes ligados à muito dinheiro, luxo e também a colapsos de diversas ordens (sociais, existenciais, financeiros). É nestes vespeiros que ele gosta de mexer, revirar e colocar de cabeça para baixo. No entanto, o faz com verdadeiro e irretocável primor estético.

The Artist and his Model (2011)

Em Sorrentino as cenas são profundamente e por vezes ironicamente teatrais. Em  The Young Pope (2016), por exemplo, nos deparamos com situações inusitadas como uma freira (Diane Keaton) que joga basquete e um santo papa (Jude Law) que fuma e toma apenas Coca-Cola Cereja. Os personagens convivem com a exuberância e o luxo que emanam das paredes do Vaticano e de seus soberbos jardins que contrastam com uma imensa e inaudita solidão que parece engolir a todos, mesmo quando estão acompanhados. Impressão similar à que temos quando observamos telas mais recentes de Larraz como The Artist and His Model (2011) The Magician of Punta Agravox (2011), Sunday on the Narragansett (2013), Homer at The Isle of Falconera (2014) e Only the Memory of His Poetry(2016).

A paleta de cores com que os dois trabalham é delicada e precisa. Com ela pintam a solidão e as futilidades de pessoas em situação de poder social, político e financeiro. Seus personagens transitam entre o trágico e o cômico, geralmente envolvidos em situações um tanto quanto absurdas. E como o absurdo se torna atraente e envolvente sob suas lentes e tintas!

Jude Law em The Young Pope

O branco impecável das embarcações e das paredes das mansões das pinturas de Larraz dialogam com o branco reluzente e impoluto dos trajes do jovem pontífice e também do excêntrico Jep Gambardella (Toni Servillo), protagonista de A Grande Beleza (2013). O azul profundo do mar, o vermelho e o amarelo vivo dos ternos de cortes perfeitos. Os objetos de luxo como iates e carros que mais parecem ter saído de propagandas são parecidos, como aqueles que desfilam sob as mãos dos poderosos políticos mafiosos de Il Divo (2008).

Nas mãos de Larraz e Sorrentino, o artificialismo intencional, recorrente nas cenas e nos gestos, se transforma em prazer vigoroso. É o tédio do topo do mundo exposto sob condições existenciais que conotam algum tipo de crise. Suas histórias fascinam pelo pitoresco, pelo insólito. A fantasia e o surrealismo exagerado que no pintor surgem em forma de casas plantadas no espaço e em barcos, bicicletas e trens voadores, aparecem no cineasta por meio de girafas que desaparecem, flamingos que vão e vêm em revoada, monges capazes de flutuar e milagres que transformam vidas.

Ligados por universos com temática e estética similares, pintor e diretor são responsáveis por trabalhos profundos e visualmente cativantes. Se Sokurov há muito defende que os cânones da pintura deveriam servir como principais modelos para um filme, a silenciosa relação conceitual e imagética entre Larraz e Sorrentino demonstra não apenas a importância dessa ligação, mas também a necessidade e sucesso dela.

Jocê Rodrigues é escritor, editor e jornalista